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Sonda Curiosity nos enviou curiosa inconsistência direto de Marte

Por , em 17.11.2017

A sonda Curiosity, que explora Marte, acaba de mandar uma informação para a Terra que confunde ainda mais o que sabemos sobre o planeta vermelho – principalmente a respeito da água que já correu por lá, aumentando uma dúvida que persegue os cientistas há anos. Os pesquisadores estão conscientes já há algum tempo do fato de que a água já fluiu em Marte e que o planeta tinha uma atmosfera mais densa no passado. Eles também já conseguiram deduzir a mecânica que levou ao esgotamento desta atmosfera, o que transformou o planeta no lugar frio e seco que conhecemos.

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Acredita-se que Marte tenha tido água morna e fluida em sua superfície em um momento em que o Sol tinha um terço do calor que tem hoje. Essas condições exigiriam que a atmosfera marciana tivesse amplo dióxido de carbono para manter sua superfície suficientemente quente. Mas, com base nas descobertas mais recentes da Curiosity, não parece que isso tenha acontecido.

A equipe de pesquisa do Curiosity’s Chemistry and Mineralogy X-ray Diffraction (CheMin), instrumento que tem sido usado para estudar o conteúdo mineral de amostras de perfuração na cratera de Gale, indicou que nenhum vestígio de carbonatos foi encontrado em amostras tiradas do antigo leito de lago.

Com água ou sem água?

Aí que vem o paradoxo: evidências coletadas pela própria Curiosity (e uma série de outros veículos e sondas) levaram os cientistas a concluir que cerca de 3,5 bilhões de anos atrás, a superfície de Marte tinha lagos e rios fluentes. Eles também determinaram, graças às muitas amostras colhidas pela Curiosity desde que desembarcou na Cratera de Gale, em 2011, que este local era um leito de lago que gradualmente se encheu de depósitos sedimentares.

No entanto, para que Marte estivesse quente o suficiente para a existência de água líquida, sua atmosfera teria que conter uma certa quantidade de dióxido de carbono – fornecendo um efeito estufa suficiente para compensar o menor calor que vinha do Sol. Uma vez que as amostras de rocha na cratera de Gale funcionam como um registro geológico das condições do planeta bilhões de anos atrás, elas certamente conteriam muitos minerais de carbonato se fosse esse o caso.

Os carbonatos são minerais que resultam da combinação entre dióxido de carbono e íons carregados positivamente (como o magnésio e o ferro) na água. Uma vez que estes íons foram encontrados em boa parte em amostras de rocha marciana, e análises subsequentes tenham mostrado que as condições nunca se tornaram ácidas até o ponto em que os carbonatos tenham se dissolvido, não há razão aparente pela qual eles não apareceriam.

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“Ficamos particularmente impressionados com a ausência de minerais de carbonato em rochas sedimentares que a sonda examinou. (Dessa forma) seria muito difícil obter água líquida, mesmo que houvesse cem vezes mais dióxido de carbono na atmosfera do que o que a evidência mineral nas rochas nos diz”, afirma Thomas Bristow, pesquisador do instrumento CheMin da Curiosity.

Bristow e sua equipe não conseguiram encontrar vestígios de carbonatos nas amostras de rocha que analisaram. Mesmo que apenas algumas dezenas de milibares de dióxido de carbono estivessem presentes na atmosfera de Marte quando um lago existia na Cratera de Gale, isso teria produzido carbonatos suficientes para o CheMin da Curiosity detectar.

Paradoxo antigo

Esta descoberta se junta a um paradoxo que tem intrigado os pesquisadores há anos. Há uma discrepância séria entre o que as características da superfície do planeta indicam sobre o passado de Marte e as evidências químicas e geológicas – basicamente, a superfície indica que houve água no planeta vermelho, mas as evidências químicas e geológicas, não.

Há muitas evidências de que o planeta tenha tido uma atmosfera mais densa no passado, e mais de quatro décadas de imagens orbitais e mais alguns anos de dados de superfície produziram amplas evidências geomorfológicas de que Marte teve água de superfície e um ciclo hidrológico ativo.

No entanto, os cientistas ainda estão lutando para produzir modelos que mostrem como o clima marciano poderia ter mantido os tipos de condições necessárias para que isso tenha acontecido. O único modelo bem sucedido até agora era um em que a atmosfera continha uma quantidade significativa de CO2 e hidrogênio. Porém, uma explicação sobre como essa atmosfera pode ter sido criada e sustentada ainda não existe.

Além disso, as evidências geológicas e químicas para essa atmosfera existente há bilhões de anos também são escassas. Pesquisas na órbita de Marte não conseguiram encontrar evidências de minerais de carbonato. Esperava-se que as missões de superfície, como a Curiosity, pudessem resolver isso, mas os resultados de Bristow e sua equipe não são muito animadores.

“Era um mistério não haver muito carbonato visto em órbita. Você poderia sair do dilema dizendo que os carbonatos ainda podem estar lá, mas simplesmente não podámos vê-los da órbita porque eles estariam encobertos por poeira ou enterrados, ou que não estaríamos olhando no lugar certo. Os resultados da Curiosity trazem o paradoxo para um foco. Esta é a primeira vez que procuramos os carbonatos no chão, em uma rocha que conhecemos, formada a partir de sedimentos depositados sob a água”, diz Bristow.

Respostas

Existem várias explicações possíveis para este paradoxo. Por um lado, alguns cientistas argumentaram que o lago da cratera de Gale pode não ter sido um corpo aberto de água e talvez estivesse coberto de gelo – uma camada fina o suficiente para ainda permitir a entrada de sedimentos. O problema com essa explicação é que se isso fosse verdade, haveria indicações discerníveis deixadas para trás – o que inclui rachaduras profundas na rocha sedimentar suave do lago.

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Mas, como essas indicações não foram encontradas, os cientistas ficam com essas duas linhas de evidências que não conversam entre si. “O caminho da Curiosity através de leitos aquáticos, deltas e centenas de pés verticais de lama depositados em lagos antigos exige um sistema hidrológico vigoroso que forneceria água e sedimentos para criar as rochas que estamos encontrando. O dióxido de carbono, misturado com outros gases como o hidrogênio, tem sido o principal candidato para a influência do aquecimento necessário para esse sistema. Este resultado surpreendente parece retirá-lo da competição”, diz Ashwin Vasavada, cientista do projeto Curiosity.

Felizmente, incongruências na ciência são o que permitem que novas e melhores teorias sejam desenvolvidas. E à medida que a exploração da superfície marciana continua – o que se beneficiará da chegada das missões ExoMars e Mars 2020 nos próximos anos – podemos esperar que surjam evidências adicionais. Só temos que esperar que elas ajudem a resolver este e outros mistérios – e não complicá-los ainda mais. [Futurism]

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3 comentários

  • José Eduardo:

    Invés de água, metano. Aos -161,5 °C, ele evaporou e deixou a atmosfera do planeta. Ou o sol era mais quente sem necessidade da camada de C

  • Conceição Araujo Araujo:

    Deveriam tomar vergonha na cara e cuidar da terra, para que os humanos vivessem em paz, tranquilos, se alimentando e sorvendo ar puro.

    • Cesar Grossmann:

      A NASA não pode ser acusada de não fazer pesquisas sobre a Terra, Conceição. Falando nisso, tem coleta seletiva na tua cidade? Você separa o lixo? Anda de transporte coletivo? Faz escolhas sustentáveis?

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