Depressão não é um desequilíbrio químico no cérebro: a teoria que desafia a psiquiatria tradicional

Por , em 18.03.2026

Durante muito tempo, a depressão foi tratada quase exclusivamente como sinal de que algo deu errado no cérebro. Mas uma linha de pesquisa em psiquiatria evolutiva propõe uma leitura mais complexa: a capacidade humana de entrar em estados de humor rebaixado talvez tenha surgido porque, em certas circunstâncias, ajudava nossos ancestrais a parar, recuar, conservar energia e reavaliar caminhos ruins. O que hoje chamamos de depressão poderia incluir, ao menos em parte, a ativação excessiva de um sistema antigo de defesa.

Essa discussão ganhou novo fôlego no episódio Rethinking Depression, do podcast Hidden Brain, de março de 2026, em que o psicólogo e pesquisador Jonathan Rottenberg apresenta a ideia de que o humor deprimido pode ter raízes evolutivas e, em certos contextos, funcionar como um freio adaptativo. Rottenberg é professor da Cornell University, EUA.

A pergunta é desconfortável, mas importante: e se parte do que chamamos de depressão não for apenas defeito, falha ou doença no sentido mais simples da palavra, mas também uma resposta antiga da mente humana diante de perda, impasse, esgotamento ou derrota social? Essa hipótese não elimina o sofrimento real da depressão, nem transforma um transtorno grave em virtude. Mas muda o enquadramento da conversa e obriga a ciência a encarar um cenário mais complexo.

A história pessoal que virou pesquisa

A força da tese de Rottenberg está no fato de que ela não nasce só de laboratório. No podcast, ele conta que, quando era um jovem doutorando em história na Johns Hopkins, prestes a se casar e convencido de que tinha um futuro brilhante pela frente, começou a sentir algo que nem ele nem os médicos reconheceram de imediato como depressão. Vieram fraqueza, dor física, exaustão, incapacidade de se concentrar e, depois, pensamentos suicidas.

O quadro foi devastador. O tratamento inicial não resolveu, sua carreira em história entrou em colapso e ele passou anos tentando voltar ao mundo dos vivos. A imagem que ele descreve é a de alguém que sentia o próprio cérebro, justamente sua maior ferramenta intelectual, falhar diante dos olhos. Para alguém que se definia pela capacidade de pensar, ler e produzir, a experiência foi também uma crise de identidade.

Rottenberg que desenvolve essa visão em seu livro The Depths: The Evolutionary Origins of the Depression Epidemic, migrou para a psicologia, entrou em um programa de doutorado em Stanford e transformou a própria experiência em objeto de estudo. O que poderia ter sido apenas uma história pessoal de colapso virou um projeto intelectual de décadas. Isso ajuda a explicar por que sua leitura da depressão tem um peso especial: ela não é apenas teórica, mas atravessada por uma tentativa concreta de entender como um sofrimento tão profundo pode emergir da própria arquitetura da mente humana.

A ideia central: humor baixo pode ter utilidade

O ponto central da hipótese evolutiva é que o humor deprimido não teria surgido por acidente. Em vez de ser apenas um erro do cérebro, ele poderia ser uma ferramenta moldada pela seleção natural para desacelerar o organismo em momentos de derrota, perda, risco ou investimento fracassado. Em certas condições, continuar avançando com entusiasmo talvez fosse mais perigoso do que parar, recolher-se e repensar.

Essa ideia aparece de forma importante nesse artigo de Randolph Nesse, um dos pioneiros da medicina evolutiva, psiquiatra e professor da Arizona State University, EUA. Ali ele não argumenta que toda depressão seja vantajosa, mas que estados de humor rebaixado podem, em alguns contextos, impedir confrontos inúteis, insistência em metas inviáveis e desperdício de energia. É uma visão que trata o sofrimento emocional como possível parte de um sistema de proteção, não apenas como avaria.

Há também trabalhos que tratam o humor como um mecanismo regulador mais amplo, capaz de calibrar o comportamento de acordo com o ambiente. Uma revisão importante de Randolph Nesse reforça a ideia de que emoções e estados aversivos muitas vezes funcionam como defesas. Em vez de perguntar apenas “o que quebrou?”, essa linha de pesquisa pergunta também “por que a evolução preservou a capacidade de sentir isso?”.

Quando tristeza e ruminação podem ter função

Uma das hipóteses mais conhecidas nesse campo é a chamada “ruminação analítica”. Segundo essa proposta, parte dos sintomas depressivos existiria para forçar o indivíduo a concentrar recursos mentais em problemas complexos, especialmente os sociais e os existenciais. Em vez de sair agindo por impulso, a pessoa entraria num modo de análise profunda, ainda que doloroso.

Essa ideia foi defendida por Paul Andrews, psicólogo evolucionista e professor da McMaster University, e J. Anderson Thomson Jr., psiquiatra clínico. Nesse modelo, a anedonia (redução ou perda da capacidade de sentir prazer em atividades que antes eram agradáveis) reduziria distrações, a lentificação diminuiria ações precipitadas e a ruminação serviria para manter o foco em dilemas difíceis demais para serem resolvidos com pressa.

É uma hipótese polêmica, mas ela conversa diretamente com o argumento apresentado por Rottenberg no Hidden Brain. No episódio, ele sugere que o humor deprimido pode obrigar a mente a encarar uma pergunta dura, mas fundamental: devo continuar ou devo parar? Em ambientes ancestrais, essa espécie de freio talvez tivesse valor real de sobrevivência, especialmente quando insistir significasse risco, derrota ou dano ainda maior.

O cérebro antigo diante do mundo moderno

Mesmo que o humor deprimido tenha tido utilidade evolutiva, isso não significa que ele continue funcionando bem no mundo atual. Esse é um dos pontos mais importantes do argumento de Rottenberg. Uma adaptação pode ser útil no ambiente em que surgiu e ainda assim se tornar problemática quando transportada para um contexto radicalmente diferente.

É aí que entra a noção de desajuste evolutivo, o descompasso entre mecanismos antigos e ambientes modernos. Esse artigo de Brandon H. Hidaka, pesquisador e autor de estudos sobre depressão e estilo de vida moderno, associa o aumento da vulnerabilidade depressiva a características da vida contemporânea como sedentarismo, privação de sono, baixa exposição à luz natural, alimentação ruim, isolamento social e desigualdade.

Rottenberg aplica essa lógica também à ansiedade e à comparação social. Assim como a ansiedade pode sair do controle em um mundo saturado de alertas, ameaças simbólicas e estímulos constantes, o humor deprimido também pode ser ampliado por um ambiente que estimula comparação o tempo todo. Redes sociais, culto ao desempenho e a obrigação permanente de parecer feliz e bem-sucedido podem transformar uma baixa emocional em aparente prova de fracasso pessoal.

O peso das redes sociais, da performance e da cultura da felicidade

Um dos aspectos mais interessantes da conversa é a crítica ao ambiente cultural contemporâneo. Hoje, não basta sentir alguma tristeza, frustração ou vazio. Muitas pessoas ainda comparam esses estados ao que imaginam que deveriam estar sentindo, ou ao que acreditam que os outros estão sentindo. O problema não é apenas sofrer, mas sofrer num cenário em que felicidade, energia e alta performance parecem ser exigências básicas.

Rottenberg observa que nossos ancestrais talvez não passassem o dia perguntando a si mesmos por que não estavam radiantes. Já no mundo atual, essa pergunta virou rotina. O fluxo contínuo de imagens de sucesso, prazer, produtividade, beleza e aprovação social empurra muita gente para uma experiência dupla: a dor em si e a sensação de estar falhando por senti-la. Isso pode amplificar enormemente um estado de humor que, em outro contexto, talvez fosse mais breve ou mais tolerável.

Esse ponto não elimina os fatores biológicos nem reduz a depressão a um problema de redes sociais. O que ele mostra é que a cultura contemporânea pode hiperativar mecanismos mentais que surgiram em outro mundo. Em vez de pequenos grupos, convivemos com comparações em escala massiva. Em vez de ameaças concretas e localizadas, lidamos com pressões difusas, permanentes e difíceis de desligar. Para um sistema emocional moldado ao longo de milhares de anos, isso pode ser um terreno fértil para desregulação.

O que a teoria explica e onde ela encontra limites

A hipótese adaptativa é poderosa, mas está longe de ser consenso completo. Muitos pesquisadores aceitam que a capacidade de ter humor rebaixado possa ter valor funcional, mas resistem à ideia de que a depressão maior grave, recorrente e incapacitante seja em si uma adaptação bem desenhada. Afinal, episódios intensos de depressão podem comprometer relações, trabalho, saúde física, cognição e até a própria sobrevivência.

Esse é um dos pontos levantados por Daniel Nettle, psicólogo evolucionista e professor da University of Newcastle, Inglaterra. O argumento é que a depressão clínica severa não se parece muito com um sistema adaptativo preciso, porque seus custos são altos demais. Em vez de ver toda a depressão como adaptação, uma posição mais prudente é considerar que o humor deprimido básico pode ter utilidade, enquanto seus extremos podem ser exageros, falhas regulatórias ou efeitos colaterais de mecanismos originalmente úteis.

Outra crítica importante é que a teoria não pode ser usada para romantizar sofrimento grave. Dizer que um mecanismo surgiu com alguma utilidade ancestral não significa que o indivíduo em crise deva suportá-lo sozinho, nem que a dor profunda tenha sempre algum “lado bom” esperando para ser descoberto. A hipótese evolutiva pode explicar parte da origem do sistema, mas não substitui cuidado clínico, apoio social ou intervenção terapêutica quando a vida da pessoa está sendo esmagada pelo transtorno.

Muito além do “desequilíbrio químico”

Outro mérito da fala de Rottenberg é questionar uma simplificação muito difundida nas últimas décadas: a ideia de que a depressão seria basicamente resultado de um “desequilíbrio químico”, especialmente de serotonina baixa. Ele não nega que a biologia seja importante. O que ele contesta é a narrativa popular de que exista uma causa química simples, direta e claramente demonstrada para todos os casos.

Esse ceticismo aumentou bastante nos últimos anos. Um dos trabalhos mais citados nessa discussão é uma revisão de Joanna Moncrieff, psiquiatra e professora na University College London, que concluiu que não há evidência consistente de que a depressão seja causada por baixos níveis de serotonina da maneira simplificada que por muito tempo foi comunicada ao público. Isso não significa que antidepressivos não funcionem para algumas pessoas, mas enfraquece a história de que o transtorno se resume a um único defeito químico.

Essa distinção é crucial. A biologia participa da depressão, e muito, mas isso não obriga a ciência a descrevê-la como uma falha molecular única e linear. A realidade parece mais bagunçada e mais humana: genes, história de vida, perdas, contexto social, padrões de pensamento, inflamação, sono, trauma, ambiente e cultura interagem entre si. É justamente por isso que a hipótese evolutiva chama atenção: ela não reduz a depressão a uma peça quebrada, mas a insere num sistema maior de adaptação, vulnerabilidade e descompasso.

O que muda no tratamento e na forma de olhar a depressão

Se a depressão não é apenas defeito interno, tratar não significa somente “consertar um cérebro quebrado”. Significa também olhar para o ambiente, para as perdas, para metas inviáveis, para isolamento, sono, luz, atividade física, vínculos e sentido de vida. Esse enquadramento não substitui a medicina nem a psicoterapia, mas pode tornar o cuidado mais amplo e mais realista.

O próprio Rottenberg deixa isso claro no episódio. Ele não está argumentando contra antidepressivos, nem contra terapia. Ao contrário, ele afirma que ambos podem ajudar e que muitas vezes são decisivos. O que ele critica é a redução da depressão a uma narrativa estreita, que transforma toda experiência depressiva em simples defeito individual e deixa de lado a função possível do humor, a história da pessoa e o ambiente em que ela vive.

Talvez o maior valor dessa abordagem esteja em algo menos técnico e mais humano. Ela enfraquece a noção de que a depressão seja uma falha moral ou um sinal de fraqueza. Em vez de sugerir que há algo “estragado” no indivíduo, ela abre a possibilidade de que a mente esteja acionando um mecanismo antigo de contenção, só que de forma excessiva, dolorosa e incompatível com o mundo atual. Não é uma resposta final. Mas é uma forma mais rica, menos simplista e possivelmente mais compassiva de entender um dos sofrimentos mais marcantes da vida moderna.

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