Duas dicas do método científico para a construção da cidadania

Por , em 2.11.2014

Ou vamos observar as plantas em um Jardim?

Artigo de Mustafá Ali Kanso 

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Infelizmente estamos presenciando a discussão política decaindo para o campo das baixas paixões, de tal feita que a indução tem sido o método mais utilizado na tecedura de boatarias recordes tanto em gênero quanto em número.

Uma pena.

No entanto, todos nós queremos estar do lado da verdade e da justiça e obviamente queremos exercer o nosso papel de cidadão com eficácia, buscando eleger os melhores representantes para o nosso governo.

E essa parece ser uma tarefa cada vez mais difícil.

Assim escolhi duas ferramentas do método científico, já apresentadas aqui em diversos artigos, que sempre me auxiliaram.

Em artigos futuros apresentarei, nesse mesmo tom de exemplificação prática, mais algumas.

Espero que seja útil para você querido leitor e querida leitora como tem sido para mim e muitos de meus amigos e amigas.

Também fica em aberto sugestões de outros mecanismos que vocês tenham, por acaso, utilizado como norte, para vencer o influxo das baixas paixões e fazer imperar a razão.

  1. Primeira dica do método científico: buscar os fatos

O mais evidente deles é que o ser humano não é perfeito, logo nenhuma instituição humana será perfeita.

Assim de pouco adianta divulgar ou evidenciar as imperfeições desse ou daquele partido, desse ou daquele candidato — principalmente quando se está apoiado na boataria e nas trocas de acusações acirradas.

Isso é inócuo. É presumir a ingenuidade no outro.

Evidentemente se torna cada vez mais complicado buscar os fatos em meio a tantas versões. Cada força política planta sua versão e essa prática é muito antiga.

Tratados sumérios de política datados de há milhares de anos discorrem sobre esse tema e, mesmo hoje, em pleno século XXI esse problema persiste.

Teremos solução, quando a média do caráter do ser humano evoluir.

E isso é uma questão histórica que demanda tempo.

Temos que ter paciência e investir cada vez mais em educação.

Mas nos dias de hoje — quais são os fatos?

Quando confrontamos as versões buscando os fatos preponderantes estamos usando a razão, que invariavelmente combate o preconceito e a simples rotulagem das coisas por pura preguiça de investigar ou pensar.

Essa confrontação deve ser interna, também.

No que eu quero acreditar? Quais valores eu defendo?

Lembro aqui uma das máxima de Francis Bacon, um dos precursores do método científico:

“— Devemos tomar cuidado redobrado com tudo aquilo que queremos, com todas as forças, que seja verdade”.

Outra coisa:

É fácil apontar a mazela alheia e assumir tom acusador como se cada um fosse um baluarte da justiça,  capaz de acusar, julgar e condenar sem nenhum erro.

E as pequenas corrupções diárias que cada um comete?  Colar na prova, furar o sinal vermelho, fazer corpo mole no trabalho, falar mal do vizinho, etc.

É evidente que é preciso combater a corrupção em todos os níveis.

Mas, que tal enxergá-la primeiro em nós mesmos?

Mais uma vez é inócuo ir por esse caminho pois, em campo político, será sempre o roto falando do esfarrapado e por fim a pergunta persiste:

Quais são os fatos?

 

E, cá entre nós, em verdade:

– Será que acreditar que nosso candidato é o anjo de pureza e salvador da pátria e seu adversário  é a própria encarnação do mal na Terra, pertence ao campo da razão? Ou é simplesmente baixa paixão?

Ou mesmo ingenuidade?

 

 

E que tal respeitar o benefício da dúvida que norteia a justiça dos estados modernos?

Afinal, todo mundo é inocente até provar-se o contrário? Ou não?

Vamos pensar um pouco antes de julgar?

 

  1. Segunda dica do método científico: não existe argumento de autoridade

Não devo acreditar no outro simplesmente por que ele é o doutor fulano de tal, ou é meu chefe, meu patrão, meu vigário, meu pastor, meu articulista preferido da revista,  do jornal, do Hypescience, etc.

Ser um livre pensador é não  aceitar tutela ou cabresto.

Logo, eu devo buscar através da minha razão e do meu bom senso fatos que apoiem a minha decisão de acordo com minhas crenças e meus valores.

E essa liberdade deve ser defendida para que os outros também possam ter os mesmos direitos. Ou não? Ou só eu tenho direito a opinião?

Assim,

Não devo impor minha opinião aos demais, como se essa fosse a verdade absoluta, o último raio de sol do universo ou a máxima redenção das mazelas do mundo.

Posso propagandear minha escolha — isso é democracia — mas com tato, lisura e respeito pela opinião alheia.

Por exemplo:

Em meu grupo de amigos, existem aqueles que votaram em Aécio e aqueles que votaram em Dilma.

Em nossas rodas de conversa sempre foram discutidas propostas.

E surpreenda-se:

Nunca, em nenhum momento, os meus amigos que votaram em Aécio foram rotulados de “coxinhas” ou os meus amigos que votaram em Dilma foram rotulados de “petralhas”.

O respeito foi o tom do nosso debate.

Ninguém ficou “de mal” ou sentiu-se ameaçado ou intimidado ou humilhado.

Em suma — usaram a razão.

Quem votou no Aécio defendeu a alternância do poder e também a ideologia neoliberal que é o eixo do PSDB e a dos demais componentes da coligação.

Quem votou em Dilma defendeu os avanços no campo social utilizando dados do relatório da ONU e estabeleceu um campo de defesa dos mais pobres do Brasil.

Cada grupo explicou suas razões, evidenciando os movimentos intelectuais que justificaram sua tomada de posição.

Não houve deboche. Nem troca de ofensas.

Ambos os grupos, de acordo com seus valores, crenças e conhecimento defenderam sua posição, convidando o outro a refletir.

E ambos os grupos buscaram, de acordo com seu discernimento, o que é melhor (ou, em alguns casos o menos pior) para o país— logo — ambos os grupos merecem respeito.

Isso é democracia.

Estão exercendo o seu direito de ter opinião, cumprindo com o seu dever cidadão de ouvir e respeitar a opinião do outro, mesmo que contrária à sua.

Por isso eu tenho muito orgulho desses meus amigos.

E mesmo que alguns desses não tenham carreiras científicas, eles são politicamente cientistas.

Usam seu voto como instrumento em um laboratório.

— Vou testar esse político agora, vamos ver no que dá.

E sabem que é no debate salutar entre situação e posição, esquerda e direita que vamos encontrando o caminho para o exercício de nosso direito cidadão de opinar e votar e tentar com isso influenciar nos destinos do nosso país.

No fundo sabem que Dilma e Aécio passarão.

Mas, nossa democracia deve vingar, persistir e vencer — para um futuro melhor para todos os brasileiros, sejam eles de esquerda, de centro ou de direita.

E para aqueles que no campo das paixões atacam, ofendem, agridem e até propagandeiam a extinção da democracia com o retorno da ditadura, respondamos com tolerância e paciência.

Na prática somos uma democracia jovem e temos muito que aprender.

E o despertar da razão e da consciência é um processo paulatino, como o florescer de um jardim.

E como é factível de se observar, nem todas as plantas florescem e frutificam ao mesmo tempo.

 

Artigo de Mustafá Ali Kanso 

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[Leia os outros artigos  de Mustafá Ali Kanso  publicado semanalmente aqui no Hypescience. Comente também no FACEBOOK – Mustafá Ibn Ali Kanso ]

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LEIA A SINOPSE DO LIVRO A COR DA TEMPESTADE DE Mustafá Ali Kanso

[O LIVRO ENCONTRA-SE À VENDA NAS LIVRARIAS CURITIBA E SPACE CASTLE BOOKSTORE].

Ciência, ficção científica, valores morais, história e uma dose generosa de romantismo – eis a receita de sucesso de A Cor da Tempestade.

Trata-se de uma coletânea de contos do escritor e professor paranaense Mustafá Ali Kanso (premiado em 2004 com o primeiro lugar pelo conto “Propriedade Intelectual” e o sexto lugar pelo conto “A Teoria” (Singularis Verita) no II Concurso Nacional de Contos promovido pela revista Scarium).

Publicado em 2011 pela Editora Multifoco, A Cor da Tempestade já está em sua 2ª edição – tendo sido a obra mais vendida no MEGACON 2014 (encontro da comunidade nerd, geek, otaku, de ficção científica, fantasia e terror fantástico) ocorrido em 5 de julho, na cidade de Curitiba.

Entre os contos publicados nessa coletânea destacam-se: “Herdeiro dos Ventos” e “Uma carta para Guinevere” que juntamente com obras de Clarice Lispector foram, em 2010, tópicos de abordagem literária do tema “Love and its Disorders” no “4th International Congress of Fundamental Psychopathology.”

Prefaciada pelo renomado escritor e cineasta brasileiro André Carneiro, esta obra não é apenas fruto da imaginação fértil do autor, trata-se também de uma mostra do ser humano em suas várias faces; uma viagem que permeia dois mundos surreais e desconhecidos – aquele que há dentro e o que há fora de nós.

Em sua obra, Mustafá Ali Kanso contempla o leitor com uma literatura de linguagem simples e acessível a todos os públicos.

É possível sentir-se como um espectador numa sala reservada, testemunha ocular de algo maravilhoso e até mesmo uma personagem parte do enredo.

A ficção mistura-se com a realidade rotineira de modo que o improvável parece perfeitamente possível.

Ao leitor um conselho: ao abrir as páginas deste livro, esteja atento a todo e qualquer detalhe; você irá se surpreender ao descobrir o significado da cor da tempestade.

[Sinospse escrita por Núrya Ramos  em seu blogue Oráculo de Cassandra]

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8 comentários

  • Bruna Costa:

    Esse espirito crítico só se desenvolverá efetivamente quando for praticado ainda no ensino básico, o que ainda está muito distante.

  • Susan Bacelar:

    Muito bom o texto. Expressaste aquilo que também acredito de uma forma bem cativante.

  • Gisele Kam:

    Excelente texto.

  • Veronica Santos:

    Política virou Fla-Flu. Comemoram uma derrota da Presidente no COngresso sem avaliar se a democracia saiu perdendo.

  • Fábio Marconato:

    Excelente artigo!

    Depois de tantos exageros nas redes sociais, ler este artigo é confortante.

    Façamos sua divulgação!

  • Cesar Grossmann:

    Uma das coisas mais decepcionantes é ver eleitores do Partido da Social DEMOCRACIA Brasileira pedindo intervenção militar.

    • Mustafá Ali Kanso:

      É o direito que a democracia nos dá – de cada qual expressar sua opinião. Por isso tolerância e paciência são fundamentais!

    • Cesar Grossmann:

      Às vezes eu me pergunto se tem direito à democracia quem advoga a sua destruição. Como os fanáticos que querem a charia. Aqueles que usariam o voto das mulheres para tirar delas o direito ao voto, que usam o direito de livre expressão para instituir um regime no qual não haverá mais este direito, que usam da tolerância para depois estabelecer um regime extremamente intolerante.

      Não é um tremendo tiro no pé?

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