Esta estrela está sendo devorada viva — e sua morte explosiva será visível em plena luz do dia

Por , em 15.12.2025
Ilustração artística de V Sagittae. Crédito: University of Southampton com modificações de HypeScience

A história de V Sagittae parece ficção, mas é física de verdade: duas estrelas presas numa órbita apertada, em que uma anã branca superdensa vem arrancando matéria da companheira e convertendo essa “refeição” em luz. O sistema fica a cerca de 10 mil anos-luz da Terra e, por décadas, foi um daqueles enigmas que todo mundo sabia que existia, mas ninguém conseguia explicar direito.

O que torna esse caso especial não é só a violência do processo, e sim o nível de brilho. Desde a descoberta em 1902, V Sagittae foi descrito como o mais luminoso do seu tipo, e a explicação atual é direta: a anã branca está devorando devorando a estrela vizinha em um ritmo tão alto que a superfície do objeto entra em regimes de aquecimento extremo.

Esse cenário ganhou corpo em um estudo publicado no periódico Monthly Notices of the Royal Astronomical Society , assinado por uma equipe que inclui Pasi Hakala (Universidade de Turku), Phil Charles (Universidade de Southampton) e Pablo Rodríguez-Gil (Instituto de Astrofísica de Canarias e Universidade de La Laguna).

O que torna V Sagittae tão brilhante

Para entender o brilho sem jargão: quando gás cai em um objeto muito compacto, ele cai “com pressa”, esquenta e irradia. Em anãs brancas, isso pode formar um disco de acreção e desencadear processos tão energéticos que o sistema inteiro passa a se comportar como um holofote no céu.

No caso de V Sagittae, um detalhe importante é que a transferência de massa parece estar num regime extremo: a energia liberada é tão alta que parte do gás não fica “quieto” no sistema, e isso ajuda a explicar por que o brilho é exagerado e por que o comportamento pode parecer instável para quem acompanha variações ao longo do tempo.

GRBs excepcionalmente longas podem surgir da fusão de um buraco negro de massa estelar com uma estrela companheira, sugando gás, brilhando em raios X e depois atravessando a estrela, gerando jatos de raios gama e uma explosão final. Crédito: NASA/LSU/Brian Monroe.

Se quiser uma analogia simples: é como tentar encher uma garrafa com uma mangueira aberta no máximo. Você até coloca líquido para dentro, mas também respinga para fora, faz bagunça e, no processo, revela que o fluxo está acima do que o recipiente consegue administrar.

Um anel de gás como recibo da bagunça

A pista mais elegante encontrada pelos astrônomos foi um grande anel (ou disco) de gás ao redor do par, feito de material que escapou do processo. Em vez de a anã branca “consumir tudo”, o sistema produz um excedente que se espalha e forma uma estrutura circumbinária, como se o próprio cosmos emitisse um recibo dizendo: “isso aqui está acontecendo rápido demais”.

As observações foram feitas com o Very Large Telescope, do European Southern Observatory, no Chile, o que permitiu medir assinaturas detalhadas da luz e separar componentes que vêm da órbita das estrelas e componentes que vêm desse gás mais externo.

Esse quadro conversa bem com o que já se sabe sobre anã branca em sistemas binários: quando a transferência de massa atinge certos limites, é comum aparecerem mecanismos de perda de material e de formação de estruturas ao redor, e isso muda tanto o brilho quanto a evolução do sistema.

De nova a supernova, e o que isso significaria para quem olha

Aqui vale uma distinção que evita confusão: “nova” e “supernova” não são a mesma coisa. Uma nova é uma explosão superficial, geralmente ligada ao acúmulo de gás na anã branca; ela pode deixar o sistema extremamente brilhante por um período, mas não costuma destruir o objeto compacto.

No curto prazo astronômico, a equipe sugere que pode ocorrer uma erupção de nova capaz de tornar V Sagittae visível a olho nu, sem instrumento. Isso já seria um evento raro para quem gosta de céu, porque significa notar “uma estrela que não estava lá” em condições normais de observação.

O degrau seguinte é o que transforma o caso em manchete: quando a interação chegar ao limite, a colisão e o colapso final podem produzir uma supernova com brilho tão intenso que poderia ser percebida mesmo durante o dia, o que é improvavel em termos cotidianos, mas justamente por isso tão chamativo em termos científicos.

O mais interessante, do ponto de vista humano, é como um sistema desses mistura espetáculo e utilidade: ele é bonito, mas também é um laboratório para entender como estrelas vivem e morrem quando a gravidade aperta o relógio. E tem um lado quase pedagógico nisso: quando você lê sobre telescópio e instrumentos modernos, dá para sentir que, em astronomia, “ver melhor” frequentemente significa “entender de novo” o que a gente achava que já conhecia.

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