Este “cogumelo” não é um fungo mas sim uma das plantas mais bizarras da Terra

Por , em 9.01.2026
Registro de Balanophora fungosa ssp. fungosa feito na ilha de Ishigaki, na porção sul da província de Okinawa, nas proximidades de Taiwan. Crédito: Petra Svetlikova.

Você encontra um “toco” rosado saindo do chão, em silêncio, sob árvores cobertas de musgo, e o cérebro faz o atalho mais óbvio: deve ser um cogumelo. Só que nao. Em florestas subtropicais do Japão e em áreas montanhosas próximas a Taiwan, esse impostor de aparência fúngica pode ser uma planta do gênero Balanophora, com flores e sementes tão pequenas que parecem brincadeira de laboratório.

O mais curioso é que a confusão faz sentido: esse tipo de ambiente é escuro, úmido e cheio de matéria orgânica, o cenário perfeito para fungos. Só que Balanophora é uma “planta sem verde”, e isso muda tudo sobre como ela se alimenta e se espalha.

Em um estudo liderado por Petra Svetlikova (Science and Technology Associate no Okinawa Institute of Science and Technology, OIST), em colaboração com Huei-Jiun Su (University of Taipei), Kenji Suetsugu (Kobe University) e Filip Husnik (chefe da Evolution, Cell Biology, and Symbiosis Unit no OIST), os pesquisadores compararam diferentes espécies e populações para entender como essa linhagem virou um manual vivo de exceções botânicas.

A falsa cara de cogumelo

O que você vê acima do solo é quase um “módulo de reprodução” emergindo do subterrâneo, não um chapéu de fungo. A parte principal da planta passa grande parte da vida escondida e conectada a raízes de árvores específicas, o que ajuda a explicar por que ela parece brotar do nada.

Esse estilo de vida também explica a raridade: não basta existir floresta, tem que existir a floresta certa, com hospedeiros compatíveis e microclima favorável. Quando a planta aparece, ela faz isso rápido, como quem sobe ao palco apenas na hora do aplauso e volta correndo para os bastidores.

Uma foto macro captura um pequeno “aglomerado alienígena” no sub-bosque: estruturas que lembram cogumelos emergem do solo, com o musgo fazendo o papel de cenário. Trata-se de Balanophora fungosa ssp. fungosa, registrada no sul de Okinawa. Crédito: Filip Husnik. Segundo o estudo divulgado recentemente na New Phytologist, a equipe conseguiu rastrear o passado evolutivo do grupo, apontar papéis surpreendentes de organelas celulares que ajudam a manter o parasitismo e estabelecer uma base sólida para investigações futuras sobre essa linhagem extremamente antiga.

Há um detalhe que pega até gente experiente: como a nossa intuição associa “coisa do chão da floresta” a fungos, a chance de subestimar uma planta parasita aumenta. E o resultado é um erro de classificação tão comum quanto chamar um morcego de “passarinho noturno” num dia de distração.

Vida parasita: comer sem folhas

Sem clorofila, Balanophora não realiza fotossíntese e, portanto, não fabrica açúcares a partir de luz, água e dióxido de carbono como a maioria das plantas. Em vez disso, ela se fixa em raízes e “terceiriza” a dieta: o hospedeiro faz o trabalho energético, a parasita coleta o resultado.

Esse modo de existência não é exclusivo dela; o reino vegetal tem vários exemplos de parasitismo, de cipós sugadores a flores gigantes que dependem totalmente de outras plantas. A diferença aqui é o grau de redução: Balanophora parece ter descartado o que não serve ao parasitismo com uma eficiência quase irritante, como quem joga fora manual, embalagem e nota fiscal e guarda só o essencial.

Conjunto representativo dos exemplares de Balanophora coletados no estudo: (a) B. japonica (esquerda e centro: Kyushu, Japão; direita: Taiwan), (b) B. mutinoides (Taiwan), (c) B. tobiracola (esquerda: Okinawa, Japão; direita: Taiwan), (d) B. subcupularis (Kyushu, Japão), (e) B. fungosa ssp. fungosa (esquerda: Okinawa, Japão; direita: Taiwan), (f) B. yakushimensis (esquerda: Kyushu, Japão; direita: Taiwan), (g) B. nipponica (Honshu, Japão). Crédito: Svetlikova et al., 2025.

E isso cobra um preço ecológico. As populações tendem a ser altamente seletivas: cada grupo parasita apenas poucas espécies de árvores, o que cria um gargalo biológico. Se o hospedeiro some, a parasita não “troca de restaurante” com facilidade, e esse tipo de especialização é uma aposta arriscada em um mundo que muda rápido.

O plastídio encolhido que não morreu

A parte mais contraintuitiva do estudo é celular. Mesmo sem fotossíntese, Balanophora mantém plastídios, organelas que incluem os cloroplastos em plantas comuns. A expectativa intuitiva seria “se não faz fotossíntese, joga fora o cloroplasto”, mas a biologia raramente assina recibo de simplicidade.

No artigo publicado em New Phytologist , a equipe descreve uma redução drástica do conjunto de genes associados a esses plastídios: de algo na casa de 200 genes em plantas não parasitas para cerca de 20 em Balanophora. Ao mesmo tempo, foram previstas mais de 700 proteínas direcionadas aos plastídios a partir do citoplasma, sugerindo que, mesmo “miniaturizados”, eles continuam relevantes para rotas bioquímicas.

Filip Husnik chamou atenção para um paralelo didático: em parasitas eucarióticos como Plasmodium (o agente da malária), existe uma organela derivada de um ancestral fotossintetizante que persiste porque ainda é útil para fabricar moléculas específicas. Em outras palavras, perder a luz não significa perder toda a fábrica interna, significa só desligar um setor.

Ilhas, clonagem e risco de sumiço

A história evolutiva também é grande em escala: a família Balanophoraceae está entre as mais antigas linhagens de plantas totalmente parasitas e, segundo o estudo, diversificou-se em meados do Cretáceo, por volta de 100 milhões de anos. Isso coloca o grupo entre os primeiros exemplos terrestres em que a fotossíntese foi abandonada de forma completa.

A reprodução acrescenta outra camada de estranheza. Algumas espécies conseguem produzir sementes sem fertilização, e há casos de agamospermia (quando a planta forma sementes sem sexo) que podem ser obrigatórios. Svetlikova observa que essa condição é raríssima porque reduz diversidade genética e tende a aumentar risco de extinção, mas a equipe encontrou um padrão provocativo: as formas obrigatórias aparecem associadas a espécies insulares, onde colonizar rápido um nicho muito específico pode compensar parte do custo evolutivo.

Esse “atalho reprodutivo” também ajuda a explicar como uma única planta pode iniciar uma população em um lugar novo, desde que exista o hospedeiro correto e um sub-bosque escuro e úmido. O problema é que a mesma combinação de exigências torna a espécie frágil: corte de árvores, coleta não autorizada e alterações de habitat podem empurrar populações inteiras para o desaparecimento antes mesmo de entendermos o que elas ensinam sobre evolução e metabolismo, metabolismo [verificar].

Fica difícil não ler Balanophora como um lembrete de que a evolução não busca “perfeição”, mas viabilidade local: ela pode transformar uma planta em algo que parece fungo, vive como parasita, e às vezes se replica sem sexo, tudo para funcionar em um canto muito particular do planeta. Só que, ao apostar tudo nesse canto, ela também mostra o lado vulnerável de soluções extremas: o mesmo minimalismo que a torna fascinante pode deixá-la sem margem de manobra quando o ambiente muda mais rápido do que a seleção natural consegue acompanhar.

Deixe seu comentário!