A Via Láctea tinha um enorme irmão perdido que, acabamos de descobrir, foi devorado por Andrômeda

Por , em 23.07.2018

A família de galáxias da Via Láctea acaba de receber uma boa e uma má notícia. A boa é que um novo estudo acaba de revelar a existência de uma galáxia irmã da nossa, há muito tempo perdida. A má não é exatamente uma má notícia, a não ser que você imagine as galáxias realmente como irmãs: o mesmo estudo revelou que esta galáxia desconhecida foi destruída e canibalizada por Andrômeda, a galáxia mais próxima de nós atualmente, há cerca de 2 bilhões de anos.

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Esta galáxia, denominada M32p, era muito grande – ela era o terceiro maior membro do nosso Grupo Local de galáxias – uma coleção de mais de 50 galáxias localizadas em uma região do espaço com cerca de 10 milhões de anos-luz -, logo atrás da Via Láctea e da própria Andrômeda, e pelo menos 20 vezes maior que qualquer galáxia que já se fundiu com a Via Láctea. Usando modelos de computador, Richard D’Souza e Eric Bell, do Departamento de Astronomia da Universidade de Michigan (UM), nos EUA, conseguiram reunir evidências do canibalismo.

Apesar de ter sido em grande parte devorada, esta enorme galáxia deixou para trás evidências de sua existência. As duas principais delas são a auréola quase invisível de estrelas que cerca Andrômeda, maior do que a própria galáxia, e uma enigmática galáxia compacta e densa que orbita Andrômeda, conhecida como M32.

Os cientistas há muito sabem que esta grande auréola – a região mais ou menos esférica que circunda o disco da galáxia – contém os remanescentes de galáxias menores que foram canibalizadas. Acredita-se que Andrômeda consumiu centenas de seus companheiros menores ao longo do tempo. Os pesquisadores acharam que isso dificultaria a aprendizagem sobre qualquer uma destas galáxias perdidas. Porém, usando novas simulações de computador, os cientistas se surpreenderam ao perceber que, apesar de muitas galáxias menores terem sido consumidas por Andrômeda, a maioria das estrelas na auréola externa dela eram os restos da destruição de uma única grande galáxia.

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“Foi um momento ‘eureka’. Percebemos que poderíamos usar essa informação da auréola estelar exterior de Andrômeda para inferir as propriedades da maior dessas galáxias”, disse conta o autor principal do estudo, Richard D’Souza, pesquisador de pós-doutorado da UM, em um comunicado à imprensa publicado no site Eurekalert.

“Astrônomos estudaram o Grupo Local – a Via Láctea, Andrômeda e seus companheiros – por tanto tempo. Foi chocante perceber que a Via Láctea tinha um irmão grande, e nós nunca soubemos disso”, complementa Bell, co-autor e professor de astronomia da UM.

A ilustração abaixo mostra o antes e o depois da colisão em que Andrômeda, que também é conhecida como M31, devorou a galáxia vizinha e a transformou em um satélite.

Explicações

Segundo os cientistas, este trabalho pode resolver o mistério da formação da enigmática galáxia satelital M32, que orbita Andrômeda. Eles sugerem que a compacta e densa M32 é o centro sobrevivente da M32p.

“M32 é esquisita. Embora pareça um exemplo compacto de uma antiga galáxia elíptica, ela tem muitas estrelas jovens. É uma das galáxias mais compactas do universo. Não há outra galáxia como essa”, aponta Bell no comunicado.

O estudo também pode alterar a compreensão tradicional de como as galáxias evoluem, dizem os pesquisadores. Se a projeção deles está certa, o disco de Andrômeda sobreviveu a esse impacto com uma enorme galáxia, o que questionaria a sabedoria comum de que essas grandes interações destruiriam os discos e formariam uma galáxia elíptica.

O momento da fusão também pode explicar o espessamento do disco da galáxia de Andrômeda, bem como um aumento na formação de estrelas dois bilhões de anos atrás, uma descoberta feita por pesquisadores franceses no início deste ano.

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O método usado neste estudo pode ser usado para outras galáxias, permitindo a medição de sua mais maciça fusão de galáxias, dizem os pesquisadores. Com esse conhecimento, os cientistas podem desvendar melhor a complicada teia de causa e efeito que impulsiona o crescimento de galáxias e entender como galáxias como a Via Láctea evoluem e sobrevivem a grandes fusões.

“Quando eu estava na pós-graduação, me disseram que entender como a galáxia de Andrômeda e sua galáxia satélite M32 se formaram seria um grande passo para desvendar os mistérios da formação de galáxias”, lembra Bell.

Daqui cerca de 4 bilhões de anos a partir de agora, quem estiver por aqui poderá presenciar os resultados de uma fusão galáctica ainda maior. Neste período, a Via Láctea e Andrômeda se unirão em um choque que irá sacudir o Grupo Local. [Space, Astronomy]

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