Inca se pronuncia pela primeira vez contra o uso de agrotóxicos

Por , em 16.04.2015

O Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva (Inca), órgão do Ministério da Saúde, se posicionou oficialmente pela primeira vez contra o uso de agrotóxicos na última semana. O instituto já tinha mostrado seu apoio à causa por meio de parcerias com grupos que estudam e trabalham para a redução do uso de defensivos agrícolas e monitoramento de seus efeitos na saúde da população, mas a ação de publicar um documento específico para tratar do assunto é inédita.

“O objetivo deste documento é demarcar o posicionamento do Inca contra as atuais práticas de uso de agrotóxicos no Brasil e ressaltar seus riscos à saúde, em especial nas causas do câncer”, diz o pronunciamento. “Dessa forma, espera-se fortalecer iniciativas de regulação e controle destas substâncias, além de incentivar alternativas agroecológicas aqui apontadas como solução ao modelo agrícola dominante”.

Nas cinco páginas do documento, além dos riscos ao nosso organismo, são apontadas características do modelo falho adotado no Brasil para o uso destas substâncias. Por exemplo, a prática da pulverização aérea de agrotóxicos, que dispersa os venenos pelo ambiente, contaminando grandes áreas e atingindo populações; a isenção de impostos concedidas à indústria produtora destes químicos; e o fato de ser permitida aqui a utilização de agrotóxicos já proibidos em outros países.

Efeitos do uso extensivo

“No Brasil, a venda de agrotóxicos saltou de US$ 2 bilhões para mais de US$ 7 bilhões entre 2001 e 2008, alcançando valores recordes de US$ 8,5 bilhões em 2011. Assim, já em 2009, alcançamos a indesejável posição de maior consumidor mundial de agrotóxicos, ultrapassando a marca de 1 milhão de toneladas, o que equivale a um consumo médio de 5,2 kg de veneno agrícola por habitante”, aponta o Inca.

O órgão ainda destaca que a liberação do uso de sementes transgênicas no Brasil foi um dos fatores responsáveis para números tão expressivos, colocando o país em primeiro lugar no uso de agrotóxicos no mundo, já que este tipo de plantação exige grandes quantidades destes produtos. “O modelo de cultivo com o intensivo uso de agrotóxicos gera grandes malefícios, como poluição ambiental e intoxicação de trabalhadores e da população em geral”.

Intoxicações agudas por estes químicos afetam, principalmente, pessoas expostas a eles em seu ambiente de trabalho. Seus sintomas comuns vão desde irritação da pele e olhos até dificuldades respiratórios e convulsões, podendo levar à morte. “Já as intoxicações crônicas podem afetar toda a população, pois são decorrentes da exposição múltipla aos agrotóxicos, isto é, da presença de resíduos de agrotóxicos em alimentos e no ambiente, geralmente em doses baixas”. Neste caso, os efeitos adversos – infertilidade, impotência, abortos, malformações, neurotoxicidade, desregulação hormonal, efeitos sobre o sistema imunológico e câncer – podem aparecer muito tempo após a exposição, dificultando a correlação com o agente.

Não basta lavar os alimentos

Quando pensamos em “intoxicação crônica por agrotóxicos”, uma das primeiras coisas que nos ocorre é a sessão de hortifrúti do supermercado e cenas de reportagens indicando como lavar e armazenar bem estes alimentos. Porém, não podemos esquecer que o perigo mora também em alimentos industrializados, fabricados, por exemplo, com milho, soja e trigo. O Inca ressalta: “A preocupação com os agrotóxicos não pode significar a redução do consumo de frutas, legumes e verduras, que são alimentos fundamentais em uma alimentação saudável e de grande importância na prevenção do câncer”.

Por isso, o instituto indica que o foco deve estar no combate ao uso dos agrotóxicos, que “contaminam todas as fontes de recursos vitais, incluindo alimentos, solos, águas, leite materno e ar”. A recomendação do Inca é que se adote “a redução progressiva e sustentada do uso de agrotóxicos”, prevista no Programa Nacional de Redução do Uso de Agrotóxicos.

O relatório também destaca que em março deste ano a Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC) publicou a Monografia da IARC volume 112, na qual classificou o herbicida glifosato e os inseticidas malationa e diazinona como prováveis agentes carcinogênicos para humanos. Os inseticidas tetraclorvinfós e parationa foram classificados como possíveis agentes carcinogênicos para humanos. “Destaca-se que a malationa, a diazinona e o glifosato são autorizados e amplamente usados no Brasil”.

Proposta de solução

Ao final do documento, o instituto afirma apoiar a produção de base agroecológica, também em acordo com a Política Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica. “Este modelo otimiza a integração entre capacidade produtiva, uso e conservação da biodiversidade e dos demais recursos naturais essenciais à vida. Além de ser uma alternativa para a produção de alimentos livres de agrotóxicos, tem como base o equilíbrio ecológico, a eficiência econômica e a justiça social, fortalecendo agricultores e protegendo o meio ambiente e a sociedade”. [Inca, Anvisa, Sociedade Brasileira de Química, Agência Brasil]

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