Por que cães e gatos têm zoomies? Cientistas explicam as explosões repentinas de energia

Por , em 1.07.2026

O cachorro estava tranquilo. O gato parecia preocupado apenas em fingir que não ouvia ninguém. Então, sem aviso, a casa vira uma pista de corrida: patas derrapam no chão, o corredor encolhe, o sofá vira obstáculo e o animal parece ter descoberto uma fonte secreta de energia.

Essas disparadas repentinas são conhecidas como zoomies em cães e gatos. O termo técnico usado em inglês é FRAPs, abreviação de frenetic random activity periods, ou períodos frenéticos de atividade aleatória. A veterinária Susan Hazel, da Universidade de Adelaide, explicou no The Independent que esses episódios costumam envolver corridas, giros, saltos e rolamentos em alta velocidade:

O nome científico soa mais complicado do que a cena merece. Na prática, o animal recebe um pico curto de energia e precisa gastar aquilo de algum jeito. Para muitos tutores isso parece uma pane no sistema; para o bicho, pode ser apenas brincadeira, alívio ou excitação em estado bruto.

O corpo acumulou energia e apertou o botão de correr

Zoomies não aparecem sempre pelo mesmo motivo. Em cães, podem surgir depois do banho, ao sair de um espaço restrito, durante uma brincadeira, no reencontro com o tutor ou simplesmente após um período longo de descanso. A Cornell University College of Veterinary Medicine descreve os FRAPs como episódios de energia intensa que podem ocorrer quando o cão fica muito excitado, por exemplo quando o tutor volta para casa.

Isso não quer dizer que todo zoomie seja “felicidade pura”. O banho, por exemplo, pode ser estimulante, incômodo ou estranho para muitos cães. O corpo molhado, o cheiro do xampu, a manipulação e a mudança brusca de sensação criam um pacote sensorial considerável. Quando o banho termina, correr pode funcionar como uma descarga rápida dessa tensão. O cachorro não leu um manual de autorregulação, mas improvisa bem.

Em gatos, o horário também pesa. O MSD Veterinary Manual descreve os gatos como animais crepusculares, mais ativos ao amanhecer e ao entardecer, e informa que eles passam boa parte do dia dormindo, descansando ou se limpando. Isso ajuda a explicar por que muitos tutores conhecem o “zoomie da madrugada”, aquele esporte doméstico praticado quando o humano só queria dormir.

O comportamento animal raramente cabe em uma única explicação. O mesmo tiro pode ser brincadeira, excesso de energia, resposta a um estímulo novo ou tentativa de aliviar tensão. A chave é observar o conjunto: expressão corporal, contexto, duração e o que acontece logo depois.

A caixa de areia também pode entrar na história

Nos gatos, um gatilho curioso relatado por muitos tutores é a ida à caixa de areia. Hazel menciona a hipótese informalmente chamada de “poo-phoria” ou “cocoeuforia, uma sensação de alívio ou euforia depois da evacuação. A ideia é que o movimento intestinal possa estimular o nervo vago, envolvido em funções automáticas como batimentos cardíacos e pressão arterial.

Essa explicação ainda deve ser tratada como hipótese, não como certeza fechada. A Mayo Clinic descreve a reação vasovagal em humanos como uma resposta em que certos gatilhos, inclusive esforço para evacuar, afetam frequência cardíaca e pressão arterial.

Há também uma interpretação comportamental possível. Para um pequeno predador, deixar cheiro e rastros no ambiente pode ser relevante. Correr para longe depois de usar o local de eliminação talvez tenha relação com cautela, excitação ou simples hábito individual. No gato doméstico, Felis catus, o cérebro do bicho ainda esta cheio de ferramentas antigas, mesmo vivendo entre almofadas e potes de ração.

O ponto mais honesto é reconhecer que ainda faltam estudos específicos sobre zoomies em gatos e cães. Há boa literatura sobre brincadeira, estresse, vínculo e comportamento repetitivo, mas o zoomie em si continua pouco estudado. O humano já chegou à Lua; a sala de estar às vezes pode ser mais misteriosa.

Quando a bagunça é brincadeira

Postura de brincadeira. Crédito da imagem: HypeScience.com

Uma pista importante é o convite social. Em cães, a clássica postura de brincadeira ocorre quando o animal abaixa a parte da frente do corpo e mantém a traseira elevada. Sophie E. Byosiere e colegas analisaram essa postura em filhotes de cães e lobos no periódico PLOS One, mostrando que ela aparece ligada a pausas e retomadas de brincadeiras ativas.

Nos gatos, o convite pode ser mais discreto. Alguns rolam no chão, passam perto do tutor, dão pequenos botes ou correm e voltam como quem pergunta se alguém entendeu a piada. Estudos sobre gatos e vínculo com humanos ajudam a desmontar a ideia de que felinos são apenas móveis decorativos com opinião própria.

A brincadeira também fortalece laços. Miho Nagasawa e colegas publicaram na revista Science um estudo mostrando que o contato visual entre cães e tutores participa de um ciclo positivo envolvendo oxitocina, hormônio relacionado a vínculos sociais. Isso não significa que cada corrida pela sala seja uma declaração química de amor, mas mostra que interação, atenção e vínculo corporal importam.

Marc Bekoff, professor emérito de ecologia e biologia evolutiva na University of Colorado Boulder, discutiu no periódico Current Biology como a brincadeira em cães se relaciona com diversão, tolerância social e reciprocidade. Brincar, portanto, não é perda de tempo; para muitos animais, é um modo de testar o corpo, negociar limites e manter relações. Tudo isso em ambiente seguro, de preferência sem vaso de vidro no caminho.

Quando deixar correr e quando se preocupar

Na maior parte das vezes, não há motivo para interromper os zoomies. Se o animal está em local seguro, sem acesso à rua, sem escadas perigosas e sem objetos cortantes por perto, o melhor é apenas observar. Cães e gatos costumam desviar de obstáculos com precisão surpreendente, embora o tapete solto e o piso escorregadio sejam inimigos antigos da dignidade animal.

Participar pode ser bom quando o animal convida. Uma bolinha, uma corda, uma varinha com pena ou brinquedos simples podem direcionar a energia para algo menos destrutivo. Ideias de brinquedos caseiros para pets são úteis justamente porque dão vazão a perseguição, faro, caça simulada e resolução de pequenos desafios.

A atenção deve aumentar quando o comportamento parece compulsivo. A Texas A&M School of Veterinary Medicine & Biomedical Sciences alerta que cães com comportamentos compulsivos podem perseguir o rabo, lamber, girar, andar de um lado para outro, mastigar, latir ou morder objetos invisíveis; em gatos, sinais podem incluir lamber em excesso sucção, vocalização repetitiva, marcha contínua e perseguição de coisas imaginárias.

O sinal de alerta não é uma corrida corrida curta depois do banho ou da caixa de areia. O problema aparece quando o animal não consegue ser distraído, se machuca, repete o comportamento por muito tempo, parece angustiado ou passa a agir assim em situações de confinamento. Nesses casos, o tutor deve procurar um veterinário, especialmente se houver mudança súbita de comportamento.

Também vale olhar para a rotina. Um cão que passa o dia sem passeio, cheiro novo ou brincadeira pode explodir de energia no fim do dia. Um gato sem enriquecimento ambiental pode transformar a casa em arena porque não tem outra forma de caçar, escalar ou investigar. Arranhadores, prateleiras, caixas, sessões curtas de brincadeira e desafios alimentares tornam a vida mais facil para o animal e para os móveis.

No fim, os zoomies lembram algo simples: cães e gatos não são enfeites vivos, mas corpos atentos, emotivos e cheios de impulsos. Quando não há risco nem sinal de sofrimento, essas corridas são uma pequena janela para a vitalidade animal. Talvez seja por isso que a cena diverte tanto: por alguns segundos, o bicho faz sem vergonha nenhuma aquilo que muita gente desaprendeu a fazer — gastar alegria com o corpo inteiro.

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