A causa da sua dor de dente vem de um peixe pré-histórico blindado

Por , em 22.05.2025
Ilustração artística mostra o vertebrado primitivo sem mandíbulas Astraspis, com seus exoesqueletos sensoriais, sendo atacado pela criatura marinha Megalograptus. Crédito: Universidade de Chicago

Os dentes humanos, essas pequenas estruturas que podem causar tanta dor, têm uma história evolutiva intrigante. Embora a camada externa seja protegida por um esmalte resistente, é a camada interna, chamada dentina, que transmite a dor. Quando mordemos algo duro ou sentimos o frio de um sorvete, é a dentina que envia sinais para os nervos.

As origens enigmáticas dos dentes

A origem dos dentes sempre foi um tema de debate entre os cientistas Uma teoria sugeria que eles evoluíram de pequenas protuberâncias nas cascas duras de peixes antigos. Estas protuberâncias, conhecidas como odontódios, eram um enigma até então.

Recentemente, um estudo esclareceu que essas estruturas em um peixe vertebrado primitivo do período Ordoviciano, há cerca de 465 milhões de anos, continham dentina. Isso traz novas luzes sobre a evolução dos dentes.

Com o auxílio de varreduras 3D em fósseis desses peixes, pesquisadores descobriram que essas protuberâncias eram sensíveis e provavelmente usadas para sentir o ambiente, como detectar água fria ou pressão de objetos próximos.

A confusão dos fósseis e os erros do passado

Ao estudar os fósseis, a equipe também encontrou semelhanças entre os odontódios dos peixes antigos e as sensilas — pequenos órgãos sensoriais encontrados nas cascas de animais como caranguejos e camarões. Sensilas também foram vistas em fósseis de invertebrados antigos.

Surpreendentemente, essas duas características evoluíram em grupos de animais completamente diferentes: peixes, que têm coluna vertebral, e artrópodes, que não têm. dr. Yara Haridy, que liderou o estudo, destacou que isso é um exemplo clássico de convergência evolutiva — quando espécies diferentes desenvolvem características semelhantes de forma independente.

“Esses peixes sem mandíbulas e os artrópodes Aglaspidid (artrópodes marinhos extintos) compartilham um ancestral comum extremamente distante que provavelmente não tinha partes rígidas,” afirmou Haridy. “Sabemos que vertebrados e artrópodes evoluíram partes rígidas de forma independente e, incrivelmente, eles evoluíram mecanismos sensoriais semelhantes integrados em seus esqueletos rígidos de forma independente.”

Desvendando os misterios do passado

As descobertas também ajudam a explicar uma confusão de longa data no registro fóssil. Durante décadas, um fóssil da era Cambriana chamado Anatolepis foi considerado um dos primeiros vertebrados, graças a protuberâncias semelhantes a dentes em sua superfície.

No entanto quando os pesquisadores examinaram o fóssil de perto usando tomografias computadorizadas de alta resolução, perceberam que essas protuberâncias não continham dentina. Em vez disso, pareciam exatamente como as estruturas sensoriais — sensilas — vistas em artrópodes.

Isso significava que Anatolepis não era um peixe vertebrado, mas provavelmente um artrópode antigo. A confusão é compreensivel, visto que a armadura sensorial evoluiu tanto em vertebrados quanto em invertebrados e muitas vezes parece impressionantemente semelhante sob o microscópio.

Os peixes e os crustáceos: uma relação mal interpretada

Para comparar essas características de forma mais ampla, a equipe escaneou fósseis e espécimes modernos que variavam de caracóis e cracas a tubarões e bagres. Uma descoberta se destacou: bagres comedores de alga criados no próprio laboratório de Haridy tinham pequenas escamas semelhantes a dentes na pele — chamadas dentículos — que estavam diretamente conectadas aos nervos.

Esses dentículos, assim como os odontódios antigos e as sensilas de artrópodes, não eram apenas armaduras — eram ferramentas sensoriais .

“Acreditamos que os primeiros vertebrados, esses grandes peixes blindados, tinham estruturas muito semelhantes,” disse Haridy.

Esta pesquisa também reforça uma teoria chave na biologia evolutiva. Chamada de hipótese “de fora para dentro”, a teoria sugere que os dentes evoluíram a partir de estruturas sensoriais externas como essas. Em outras palavras muito antes dos animais terem bocas cheias de dentes, eles tinham armaduras sensíveis que os ajudavam a sobreviver.

Embora não tenham conseguido identificar o peixe vertebrado mais antigo, Neil Shubin, o autor sênior do estudo, afirmou que essa descoberta valeu o esforço.

“Para alguns desses fósseis que eram considerados vertebrados primitivos, mostramos que não são. Mas isso foi um pouco de distração,” comentou ele. “Não encontramos o mais antigo, mas de certa forma, encontramos algo muito mais legal.”

O estudo foi publicado na revista Nature.

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