Como saberemos se a inteligência artificial ficar consciente?

Por , em 11.12.2017

O desenvolvimento da inteligência artificial já alcança avanços incríveis hoje em dia, mas a ficção fez com que esperássemos um avanço em particular nesta área com ansiedade e um pouco de medo: o dia em que alguma inteligência artificial criada pelo homem terá consciência. Mas será que isso vai realmente acontecer algum dia?

Em um texto postado no portal The Conversation, Subhash Kak, professor de engenharia elétrica e computacional da Universidade Estadual de Oklahoma, nos EUA, discute esta possibilidade. Para ele, algumas questões que precisam ser respondida tem a ver com tecnologia, enquanto outras são mais próximas do campo filosófico.

Consciência pode ser um efeito colateral da “entropia”, dizem pesquisadores

“Como professor de engenharia elétrica e informática que trabalha na aprendizagem mecânica e na teoria quântica, posso dizer que os pesquisadores estão divididos sobre se esses tipos de máquinas hiperconscientes existirão”, aponta ele.

Tudo depende do que entendemos por consciência. “A maioria dos cientistas da computação acredita que a consciência é uma característica que surgirá à medida que a tecnologia se desenvolve. Alguns acreditam que a consciência envolve a aceitação de novas informações, armazenamento e recuperação de informações antigas e processamento cognitivo de tudo em percepções e ações”, define kak.

Ele diz que, se definirmos a consciência assim, “um dia as máquinas serão, de fato, a consciência final”, já que elas poderão coletar mais informações do que um ser humano, armazenar mais informações do que muitas bibliotecas, acessar grandes bancos de dados em milissegundos e calcular tudo, tomando decisões mais complexas e lógicas do que uma pessoa poderia.

Porém, se definirmos a consciência como algo que não pode ser colocado em cálculos ou lógica, assim como a criatividade humana, imaginar que uma máquina possa se tornar consciente fica mais difícil.

Ponto de vista quântico

Outro ponto de vista abordado pelo professor em seu texto é o da física quântica, que também debate as questões da consciência. “De acordo com a interpretação ortodoxa de Copenhague, a consciência e o mundo físico são aspectos complementares da mesma realidade”, diz ele. “Quando uma pessoa observa, ou experimenta, algum aspecto do mundo físico, a interação consciente dessa pessoa provoca mudanças discerníveis”.

Uma vez que considera a consciência como algo dado e nenhuma tentativa é feita para derivar ela da física, a Interpretação de Copenhague pode ser chamada de visão de consciência “Grande-C”, na qual ela é uma coisa que existe por si só – embora exija que os cérebros existam para que seja real. Essa visão era popular entre os pioneiros da teoria quântica, como Niels Bohr, Werner Heisenberg e Erwin Schrödinger.

A consciência não está no cérebro

Para ilustrar a interação entre consciência e matéria e seus paradoxos, Kak usa como exemplo o famoso Gato de Schrödinger, “em que um gato é colocado em uma situação que resulta em estar igualmente susceptível a sobreviver ou morrer – e o ato de observação em si é o que torna o resultado certo”.

A visão oposta ao do ponto de vista “Grande-C” é que a consciência surge da biologia, assim como a própria biologia surge da química que, por sua vez, surge da física. “Chamamos esse conceito menos expansivo de consciência “Pequena-C”. Ela está de acordo com a visão dos neurocientistas de que os processos da mente são idênticos aos estados e processos do cérebro”, explica Kak. ”Também concorda com uma interpretação mais recente da teoria quântica motivada por uma tentativa de livrar-se dos paradoxos, a interpretação de muitos mundos, na qual os observadores são parte da matemática da física”.

Kak afirma que os filósofos encontram semelhanças entre estas duas visões quânticas e algumas filosofias antigas. “A Grande-C é como a teoria da mente na filosofia Vedanta – em que a consciência é a base fundamental da realidade, a par com o universo físico. Pequena-C, ao contrário, é bastante semelhante ao budismo. Embora o Buda tenha escolhido não abordar a questão da natureza da consciência, seus seguidores declararam que a mente e a consciência surgem do vazio ou do nada”, compara.

Descobertas científicas

Kak diz em seu texto que os cientistas também estão explorando se a consciência é um processo computacional. “Alguns estudiosos argumentam que o momento criativo não está no final de uma computação deliberada”, diz ele.

Ele usa como exemplos as descobertas de Elias Howe, que criou o desenho da máquina de costurar moderna, e de August Kekulé, que descobriu a estrutura do Benzeno em 1862. Ambas as descobertas supostamente foram inspiradas por sonhos ou visões de seus criadores.

“Uma evidência dramática a favor da consciência Grande-C, que existe por conta própria, é a vida do matemático indígena autodidata Srinivasa Ramanujan, que morreu em 1920 aos 32 anos”, aponta o professor. “Seu caderno, perdido e esquecido por cerca de 50 anos e publicado apenas em 1988, contém vários milhares de fórmulas em diferentes áreas da matemática, que estavam bem à frente do seu tempo”, aponta. “Além disso, os métodos pelos quais ele encontrou as fórmulas permanecem indescritíveis. Ele mesmo afirmou que eles foram revelados a ele por uma deusa enquanto ele estava dormindo”.

Computadores já dominaram um dos três tipos de consciência

Mas caso o conceito de consciência grande-C esteja cero, ele levanta algumas questões: por exemplo, como a consciência se relacionaria à matéria? E como a matéria e a mente se influenciariam mutuamente? “A consciência sozinha não pode fazer mudanças físicas no mundo, mas talvez possa mudar as probabilidades na evolução dos processos quânticos”, diz Kak. “O ato de observação pode congelar e até mesmo influenciar os movimentos de átomos, como os físicos de Cornell provaram em 2015. Isso pode muito bem ser uma explicação de como a matéria e a mente interagem”, acredita.

É possível que o fenômeno da consciência precise de um sistema auto-organizado, como a estrutura física do cérebro. Se assim for, as máquinas atuais ainda estão longe disso, diz Kak.

Ele diz que os especialistas não sabem se máquinas auto-organizadoras adaptativas podem ser projetadas para serem tão sofisticadas quanto o cérebro humano. “Nos falta uma teoria matemática de computação para sistemas como esse”, aponta. “Talvez seja verdade que apenas máquinas biológicas podem ser suficientemente criativas e flexíveis. Mas, então, isso sugere que as pessoas deveriam – ou vão, em breve – começar a trabalhar na engenharia de novas estruturas biológicas que sejam ou possam tornar-se conscientes”. [Science Alert]

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3 comentários

  • Abelanarco Carpen Die:

    A minha alma implora para ser lembrada.

  • Abelanarco Carpen Die:

    E se nesta equação pormos a alma? Ela será quantificada e se sim poderá ser replicada?

    • Cesar Grossmann:

      O problema é que até agora a alma não apareceu em nenhum experimento científico. Conseguimos até detectar ondas gravitacionais resultantes da colisão de buracos negros nos confins do Universo, mas nem uma alminha sequer.

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