Nossa memória não é uma filmadora: ela edita o passado com informações do presente

Por , em 6.02.2014

De acordo com um novo estudo da Universidade Northwestern (EUA), em termos de precisão, sua memória está mais para editor do que para câmera de vídeo. Isso porque ela reescreve o passado com informação moderna, atualizando suas lembranças com novas experiências.

O amor à primeira vista, por exemplo, é mais propenso a ser um truque de sua memória do que um momento digno de Hollywood. “Quando você volta à ocasião quando conheceu seu parceiro atual, você pode recordar um sentimento de amor e de euforia”, explica Donna Jo Bridge, pós-doutoranda em ciências sociais da Universidade e uma das pesquisadoras do estudo. “Mas você pode estar projetando seus sentimentos atuais neste encontro original com a pessoa”.

Este é o primeiro estudo a mostrar especificamente como a memória pode inserir coisas do presente no passado, quando lembranças antigas são recuperadas. E por que ela faz isso? “Para nos ajudar a sobreviver”, explica Bridge. “Nossas memórias se adaptam a um ambiente em constante mudança e nos ajudam a lidar com o que é importante agora. Nossa memória não é como uma câmera de vídeo. Ela reformula e edita eventos para criar uma história que caiba no seu mundo atual. Ela foi construída para ser contemporânea”.

A noção de uma memória perfeita é um mito, disse Joel Voss, autor sênior do estudo. “Todo mundo gosta de pensar na memória como essa coisa que nos permite lembrar vividamente nossa infância ou o que fizemos na semana passada. Mas a memória é projetada para nos ajudar a tomar boas decisões no momento. A informação que é relevante agora pode substituir o que já estava lá antes”, afirma.

O estudo

Os pesquisadores descobriram que essa “edição” acontece no hipocampo. No experimento, 17 homens e mulheres estudaram 168 objetos em uma tela de computador em locais variados, como uma cena do oceano debaixo d’água ou uma vista aérea do Centro-Oeste americano.
Em seguida, os cientistas pediram que eles tentassem colocar o objeto no seu local original, mas em uma nova tela de fundo. Os participantes sempre colocavam os objetos em um local incorreto.

Para a parte final do estudo, os voluntários viram de novo o mesmo objeto em três locais na tela: no local em que inicialmente tinham visto o objeto, no local em que o colocaram na parte 2 do estudo ou em um novo local. Eles precisavam escolher o local correto.

“As pessoas sempre escolhiam o local que tinham posto o objeto na parte 2″, esclarece Bridge. “Isso mostra que a sua memória original do local foi alterada para refletir o local que lembravam sobre a nova tela de fundo. Sua memória atualiza as informações, inserindo os novos dados na lembrança antiga”.

Os cientistas também acompanharam os movimentos dos olhos dos participantes que, por vezes, eram mais reveladores sobre o conteúdo de suas memórias, além de realizar o teste em um scanner de ressonância magnética para que pudessem observar a atividade cerebral das pessoas.

Bridge analisa as implicações do estudo sobre depoimentos de testemunhas oculares em tribunais. “Nossa memória é construída para mudar, não regurgitar fatos, por isso testemunhas não são muito confiáveis”, diz.

A ressalva da pesquisa é que ela foi feita em um ambiente experimental controlado. “Embora esse resultado tenha sido visto em um ambiente de laboratório, é razoável pensar que a memória se comporta desta maneira no mundo real”, fala. [MedicalXpress]

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11 comentários

  • Herberti Pedroso:

    É uma conclusão interessante. Porém fica uma pergunta: porque então a memória não reedita as lembranças traumáticas de modo a ficarem menos incômodas, ou até mesmo inócuas?

    • Marcelo Ribeiro:

      Seria tudo arco-íris e chocolate quente. Acho que não seríamos nós mesmos. Mas tem alguns artigos interessantes sobre isso em http://a.ciencia.vc/1g3DBcX

    • Cesar Grossmann:

      Talvez ela reedite, mas para deixar mais terrível para alguns. O usual é que a gente realmente se esqueça dos momentos ruins, mas os momentos traumáticos são mantidos na lembrança, e isto pode ter alguma razão evolutiva. Já pensou se nossos antepassados rapidamente esquecessem que dormir no relento representa morte cruenta nas presas de algum caçador noturno? As memórias traumáticas estão lá para impedir eles de repetir uma bobagem…

  • JOTAGAR:

    Isto me parece meio obvio… quando resgatamos alguma lembrança de eventos passados estamos contextualizando com algum evento do presente criando assim uma conexão entre tais eventos e um novo contexto.

    • Marcelo Ribeiro:

      Parece certo, mas cientistas não se contentam com o que parece óbvio, querem ter certeza.

    • Cesar Grossmann:

      Mas, jotagar, você não acha que se a gente não investigasse o que parece óbvio, estaríamos até agora achando que a Terra era o centro do Universo? Questionar o óbvio é uma maneira de confirmar ou de refutar o conhecimento que temos. Quantas coisas que a gente acha serem obviamente verdade e que não são, e só estamos pensando assim por que não financiam a pesquisa do óbvio?

  • Henrique Dionisio Ferreira:

    É razoável, mas não plausível, pessoas que factualmente tem “super-memória” comprovada, podem dizer o contrário tranqüilamente, enquanto eu me restrinjo a compartilhar memórias e naturalmente as entender como reais e exatas na totalidade quase completa da lembrança, mais cérebros dividindo mesmas experiências factuam confiávelmente fatos, desde estes fatos sejam contextualizados significativamente a história de uma pessoa, dai que escolher testemunhas “aleatoriamente” parece não confiável.

  • Thiago Corrêa:

    Discordo da conclusão da pesquisa, isso depende de quão fixa está uma memória em seu cérebro, existem memórias que estão tão fortemente fixas em nossa cabeça que nunca serão editadas ou esquecidas, dessa forma a única forma de editá-las ou apaga-las seria atráves de alguns métodos científicos que estão sendo estudados hoje em dia.

    • Cesar Grossmann:

      Escreve um paper e publica em um periódico científico revisado por pares, como os autores Donna J. Bridge e Joel L. Voss, que escreveram o artigo “Hippocampal Binding of Novel Information with Dominant Memory Traces Can Support Both Memory Stability and Change” e publicaram no “The Journal of Neuroscience

    • Marcelo Ribeiro:

      Todo mundo tem direito de discordar. Tem gente que discorda que Nelson Mandela foi um grande cara, poxa! Isso não necessariamente torna estas pessoas autoridades no assunto.

    • Cesar Grossmann:

      Claro.

      Eu só acho que ninguém deveria se guiar pela própria opinião quando ela vai de encontro com a opinião dos especialistas. Por exemplo, os especialistas garantem que as vacinas são seguras, mas tem gente que tem opinião contrária.

      É a diferença entre a opinião que é só um palpite, e a opinião que está embasada em fatos e estudos…

      Mas esta, é claro, é só a minha opinião…

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