Vida muito “limpa” pode ser a culpada por este câncer infantil

Por , em 27.05.2018

Uma grande revisão de estudos expôs quais são as prováveis causas do tipo mais comum de câncer em crianças, a leucemia linfoblástica aguda (LLA), sugerindo que a doença pode até mesmo ser evitável.

A descoberta, liderada por Mel Greaves do Instituto de Pesquisa do Câncer em Londres (Reino Unido), foi publicada na revista científica Nature Reviews Cancer.

LLA: o que sabemos

Esse tipo de leucemia afeta uma em cada 2.000 crianças. Sua taxa de incidência vem aumentando nos países desenvolvidos, em cerca de 1% ao ano.

Embora os cientistas já soubessem que alguns fatores de risco genéticos estavam envolvidos na condição, a nova revisão fornece uma base sólida para desvendarmos como o câncer devastador de fato se forma.

De acordo com os dados levantados por Greaves, a LLA é uma combinação de uma mutação genética seguida da exposição a uma infecção comum, quando a criança experimentou um primeiro ano de vida “muito limpo”.

“Passei mais de 40 anos pesquisando leucemia infantil, e nesse período houve um enorme progresso em nossa compreensão de sua biologia e tratamento – de modo que hoje cerca de 90% dos casos são curados”, disse Greaves. “Mas sempre me ocorreu que algo estava faltando, uma lacuna em nosso conhecimento – por que ou como crianças saudáveis desenvolvem leucemia e se esse câncer é evitável”.

Os três passos do desenvolvimento da LLA

Greaves analisou uma grande coleção de estudos para determinar como e por que esse tipo de câncer se forma.

Possivelmente, a doença se inicia com uma mudança genética no útero, que causa algo chamado “clone pré-leucêmico”.

Em seguida, no primeiro ano de vida, a falta de exposição a micróbios impede que o sistema imunológico da criança aprenda a lidar corretamente com ameaças biológicas.

Finalmente, em um pequeno número de casos, uma infecção comum desencadeia uma segunda mutação, levando ao desenvolvimento de LLA.

“A pesquisa insinua fortemente que a LLA tem uma causa biológica clara, e é desencadeada por uma variedade de infecções em crianças predispostas cujos sistemas imunológicos não foram adequadamente preparados”, concluiu Greaves.

Verdades e mitos

Para chegar a essa conclusão, Greaves utilizou diferentes evidências, incluindo estudos que mostraram que animais criados em ambientes sem micróbios desenvolvem leucemia quando expostos a uma infecção.

Outras pesquisas também haviam descoberto que crianças que são amamentadas, frequentam creches ou têm irmãos mais velhos têm taxas mais baixas de leucemia.

O pesquisador acrescentou que a revisão esclarece ainda alguns mitos persistentes sobre as causas da leucemia, tais como alegações infundadas de que a doença é comumente causada pela exposição a ondas eletromagnéticas ou poluição.

Vacina?

As informações coletadas pelo estudo podem ser utilizadas para impedir que esse tipo de leucemia se desenvolva no futuro.

Greaves crê que a maioria dos casos infantis são potencialmente evitáveis. “Uma perspectiva mais realista pode ser projetar uma vacina profilática que imite o impacto protetor de infecções naturais na infância, corrigindo o déficit nas sociedades modernas”, argumentou.

Apesar dos resultados promissores, é importante notar que ainda temos que coletar mais dados sobre a LLA para chegar a uma palavra final sobre o assunto. Os pais não devem ficar alarmados com esta revisão – embora esteja entre os cânceres mais comuns, a leucemia infantil ainda é muito rara.

Enquanto existem evidências de que o desenvolvimento de um sistema imunológico forte no início da vida possa reduzir ainda mais o seu risco, não há nada que possa ser feito atualmente para impedi-la definitivamente – principalmente porque outros fatores influenciam seu surgimento, incluindo o puro acaso. [ScienceAlert]

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