Os cientistas que escaparam dos nazistas graças a Einstein

Por , em 17.07.2013
Gustav Born

Gustav Born

No início de 1933, quando a família de Gustav Born foi avisada de que era hora de deixar a Alemanha controlada pelos nazistas, a informação veio de uma boa autoridade.

O conselho foi de Albert Einstein, que disse a seu amigo e colega cientista Max Born para “partir imediatamente” com a sua família enquanto eles ainda eram capazes de viajar.

Eles fizeram as malas e atravessaram a fronteira, primeiro para a Itália e depois para a Inglaterra, onde chegaram como parte do que deve ter sido o grupo de refugiados melhor qualificado da história.

Gustav tinha 11 anos na época, e vivia em Göttingen, onde seu pai, Max, era diretor de um dos centros mais importantes de pesquisa física do mundo.

Os Borns eram judeus, e quando Hitler assumiu o poder, Max e seus colegas judeus foram impedidos de trabalhar na universidade. Com isso, um grupo de elite de cientistas teóricos pioneiros foi transformado em requerentes de asilo.

Gustav agora vive em Londres, e poucos dias antes de seu aniversário de 92 anos, ele relembra o passado com grande clareza. O cientista é um dos últimos elos vivos para esses refugiados acadêmicos, que passaram a ganhar 16 Prêmios Nobel – seu próprio pai recebeu o prêmio por seu trabalho em mecânica quântica.

Será que esses cientistas percebiam a extensão da ameaça dos nazistas?

“Sim, eu acho que meu pai provavelmente percebeu. Entre seus colegas judeus, alguns não acreditaram por algum tempo. Mas a escala do que os nazistas estavam fazendo tornou-se evidente nos primeiros três a seis meses”, conta.

Gustav lembra que o clima do antissemitismo atingiu até mesmo o playground, com algumas crianças não tendo permissão para brincar com ele.

Mas houve também exemplos positivos da natureza humana, como os acadêmicos que lutaram por seus colegas judeus. O ganhador do Prêmio Nobel Max von Laue mostrou grande apoio, conta Gustav. O físico Max Planck também foi ver Hitler pessoalmente para desafiar a exclusão de cientistas judeus, mas Hitler mal o deixou falar.

Apesar de terem escapado com vida, não foi fácil para a família Born deixar seu país. Max teve que desistir de dirigir um instituto, e sua esposa estava inconsolável com a possibilidade de emigrar. “Eles odiavam terem sido arrancados de lá de forma bruta e perigosa”, diz Gustav.

Quando os Borns finalmente saíram da Alemanha, não tinham quaisquer ilusões de que este seria um afastamento temporário. “Meus pais tinham certeza que era uma viagem só de ida”, afirma.

Rede de apoio

Enquanto os Borns sofriam em Göttingen, uma resposta muito mais humanitária estava sendo comandada por uma equipe da universidade na Grã-Bretanha.

O economista William Beveridge tinha criado o Conselho de Assistência Acadêmica, com o objetivo de resgatar os acadêmicos judeus e politicamente vulneráveis. Foi uma organização que ajudou 1.500 acadêmicos a escapar da Alemanha e continuar o seu trabalho de pesquisa em segurança na Grã-Bretanha.

Beveridge foi rapidamente apoiado por acadêmicos cujos nomes agora podem ser encontrados em livros escolares no mundo todo: J. B. S. Haldane, John Maynard Keynes, Ernest Rutherford, G. M. Trevelyan e o poeta A. E. Housman.

Albert Einstein apoiou esta comissão de fuga com um discurso altamente inflamado no Albert Hall, em Londres, em outubro de 1933. Ele partiu em uma defesa épica de valores liberais ocidentais de “tolerância e justiça” contra as “tentações do ódio e da opressão”, em um momento de aprofundamento do extremismo e da turbulência econômica e política.

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“É em tempos de dificuldades econômicas, como nós experimentamos em todos os lugares hoje, que vê-se claramente o poder das forças morais que vivem em um povo”. Albert ainda falou à sua audiência que era “a liberdade do indivíduo que nos trouxe todos os avanços do conhecimento e da invenção – a liberdade sem a qual a vida de um homem que se preze não é digna de ser vivida”.

O conselho lançou a sua própria “operação de resgate”, ajudando acadêmicos a vir para a Grã-Bretanha e dando apoio prático na forma de subsídios, alojamento e empregos.

Perda da Alemanha, ganho do ocidente

Este grupo extraordinariamente talentoso que foi deixado de lado pelos nazistas pode ter lhes custado muito. Bem como os ganhadores de Prêmios Nobel, havia entre eles 18 futuros cavaleiros e mais de 100 membros da Sociedade Real ou Academia Britânica.

[box]Prêmios Nobel: Prof. H. A. Bethe, Prof. M. Born, Sir Ernst Chain, Prof. M. Delbrück, Prof. D. Gabor, Dr. G. Herzberg, Prof. J. Heyrovsky, Sir Bernard Katz, Sir Hans Krebs, Dr. F. Lipmann, Prof. O. Loewi, Prof. S. Luria, Prof. S. Ochoa, Dr. M. Perutz, Prof. J. Polanyi, Prof. E. Segre.

Cavalarias: Sir Walter Bodmer, Sir John Burgh, Sir Ernst Chain, Sir Hermann Bondi, Sir Geoffrey Elton, Sir Ernest Gombrich, Sir Ludwig Guttman, Sir Peter Hirsch, Sir Otto Kahn-Freund, Sir Bernard Katz, Sir Hans Kornberg, Sir Hans Krebs, Sir Claus Moser, Sir Rudolf Peierls, Sir Nikolaus Pevsner, Sir Karl Popper, Sir Francis Simon.[/box]

Segundo a associação de refugiados judaicos, cerca de 70 mil refugiados judeus chegaram à Grã-Bretanha antes da eclosão da guerra em 1939.

Max Born e sua família foram primeiro para Cambridge e, em seguida, para a Universidade de Edimburgo. Max pagou por isso escrevendo um livro acadêmico de ciências, que se tornou padrão em escolas.

Outros cientistas se mudaram para os Estados Unidos. O matemático Richard Courant foi para Nova York, onde um dos principais centros de matemática aplicada, o Instituto Courant de Ciências Matemáticas, é nomeado em sua homenagem.

Perder essas potências intelectuais foi uma ferida autoinfligida para o esforço de guerra nazista.

Na corrida para desenvolver armas atômicas, refugiados alemães desempenharam um papel fundamental no sentido de assegurar que os Estados Unidos cruzassem a linha de chegada primeiro.

Por motivos morais, Max Born se recusou a trabalhar em pesquisas de armas atômicas, mas o nascido americano Robert Oppenheimer, o “pai da bomba atômica”, foi doutorando de Born em Gottingen.

Há sinais de que os nazistas perceberam seu erro na época. Em 1934, Max Born e sua família foram visitados em Cambridge por Werner Heisenberg, outro ganhador do Prêmio Nobel e antigo colega que continuou trabalhando em Gottingen. Heisenberg trouxe uma mensagem do governo nazista que convidava Max a retornar para continuar seu trabalho científico na Alemanha. O convite deixou Max “fora de si de fúria”, seu filho lembra.

Mas Born e sua esposa acabaram realmente voltando para a Alemanha, depois do fim da guerra, quando ele se aposentou. Max morreu lá em 1970 e está enterrado no mesmo cemitério em Göttingen que Max Planck e Max von Laue.

Gustav, que se tornou professor de farmacologia na Kings College London, afirma que seus pais se comprometeram a tentar reconstruir a Alemanha de uma forma que impedisse o retorno de tal extremismo político.

O problema ainda existe

Gustav continua a ser um forte defensor da campanha para resgatar acadêmicos, que agora está marcando o seu 80ª ano.
Ele faz parte do Conselho para Assistência de Refugiados Acadêmicos (CARA, na sigla em inglês) e sua atual presidente, Anne Lonsdale, diz que, depois de 80 anos, a organização “gostaria de estar sem utilidade”, mas os problemas no Zimbabwe, Irã, Iraque e Síria significa que acadêmicos ainda precisam de ajuda em lugares onde “a sociedade civil não funciona mais”.

“Há uma necessidade urgente de estudiosos de todo o Oriente Médio de chegar ao exílio em um lugar de segurança”, diz Lonsdale.
O trabalho contínuo de CARA é um lembrete para não fazermos julgamentos apressados sobre refugiados e do que eles podem ser capazes de alcançar.

Gustav é muito consciente de que é agora uma das poucas pessoas que podem falar em primeira mão sobre tal legado. “Estou triste que quase acaba comigo. Eu quero que eles não esqueçam que coisas como esta, a supressão de um país por uma gangue de bandidos assassinos e a vitimização de pessoas de boa índole e boa intenção, pode acontecer de novo”. [BBC]

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3 comentários

  • Rodrigo Almeida:

    não seria “O trabalho contínuo DA CARA”?

    • Brian Carvalho:

      Realy que o unico comentário que você pode fazer sobre um texto tão legal é uma correção de portugues?

    • Jonathan Marins:

      Brother,pra que isso?
      Leia o texto e só

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