Plantas se extinguem ao menos 500 vezes mais rápido quando próximas de humanos

Por , em 13.06.2019

Um novo estudo botânico, o mais exaustivo do seu tipo já feito, quadruplicou a taxa estimada de espécies de plantas que têm perecido nos tempos modernos.

Anteriormente, as estimativas provavelmente seriam menor que 150. Agora, os pesquisadores descobriram que, desde 1753, quando Carolus Linnaeus (conhecido em português como Carlos Lineu), “o pai da taxonomia moderna”, reuniu sua classificação de espécies de plantas, cerca de 571 delas foram extintas.

Além disso, desde 1900, uma média de três espécies de plantas desaparece a cada ano. Essa é uma taxa de extinção pelo menos 500 vezes mais rápida do que se esperaria naturalmente, e duas vezes o número total de extinções observadas em anfíbios, mamíferos e pássaros juntos.

Os dados e a falta de precisão

O estudo abrangente é a primeira análise global sobre as taxas de extinção modernas das plantas – e ainda não é preciso o suficiente.

Graças à absoluta falta de dados, os pesquisadores têm “certeza” de que subestimaram a realidade. “Sofremos de cegueira de plantas”, contou a bióloga Maria Vorontsova ao jornal The Guardian.

Analisando as extinções das quais têm conhecimento em vez das estimativas, os pesquisadores do Jardim Botânico Real de Kew, um órgão público do Reino Unido, descobriram que menos da metade de todas as extinções de plantas relatadas são realmente precisas.

A Lista Vermelha de Extinção, mantida pela União Internacional para a Conservação da Natureza, por exemplo, é tudo menos exata. Das 122 espécies de plantas extintas atualmente nesta lista, nada menos que 50 foram redescobertas ou precisam ser reclassificadas. Ainda pior, 491 extinções não estão documentadas no tal inventário.

Subestimativa

Os resultados da nova estimativa são baseados em um banco de dados de extinção de plantas mantido pelo Jardim Kew, que incorpora três décadas de revisões de literatura científica e relatórios de campo sobre o assunto.

Na superfície, os dados sugerem que apenas 0,2% das espécies de plantas foram extintas, em comparação com 5% das aves e mamíferos. Isso, no entanto, não é o quadro completo. Ao contrário dos animais, o tempo médio de extinção das plantas é muito maior, o que significa que leva mais tempo para se tornarem totalmente (e não apenas funcionalmente) extintas.

“Isso é consistente com 89% das espécies redescobertas com alto risco de extinção, com várias sendo conhecidas apenas por conta de alguns indivíduos sobreviventes”, explicam os pesquisadores. “Portanto, nossa taxa estimada de extinção, embora elevada, ainda é provavelmente uma subestimativa da extinção em curso da diversidade de plantas”.

Plantas endêmicas

Hoje, parece que a maioria das extinções de plantas está ocorrendo nos pontos de alta biodiversidade nos Trópicos e no Mediterrâneo, incluindo lugares como Austrália, Índia e Havaí. De todas as espécies de plantas extintas, metade viviam em ilhas e 18% floresciam no Pacífico.

“Isso provavelmente reflete a alta proporção de espécies únicas (endêmicas) em biotas insulares e sua vulnerabilidade à invasão biológica”, sugerem os autores do estudo.

Os padrões, no entanto, também podem ser devidos ao viés humano. Afinal de contas, nosso conhecimento até agora é quase inteiramente baseado em plantas que têm sido historicamente úteis para os seres humanos.

Descobertas e redescobertas igualmente caminham para a extinção

Nas últimas três décadas, cerca de 300.000 espécies de plantas foram adicionadas ao banco de dados de Kew e, a cada ano, encontramos cerca de 16 plantas que pensávamos que haviam sido extintas.

Ainda assim, é improvável que a redescoberta de espécies diminua as taxas “assustadoras” de extinção apresentadas por pesquisadores, bem como a redescoberta nas ilhas é muito menos provável do que nos continentes.

Encontrar ou classificar novas espécies não significa muita coisa. Muitas novas espécies estão sem dúvida encaminhadas para a extinção. Com a perda de habitat, a mudança climática e a exploração humana, as plantas recém-descritas podem ter taxas mais altas de extinção, e algumas poderiam até desaparecer antes de sabermos que elas existem.

“Os cientistas não estudaram a grande maioria das plantas do mundo em nenhum detalhe, então os autores do novo estudo estão certos em pensar que os números que eles produziram são muito subestimados e provavelmente haverá extinções que foram negligenciadas”, concorda Alan Gray, ecologista que não esteve envolvido no estudo.

Como milhões de outras espécies, incluindo a nossa, dependem das plantas para sobreviver, Gray diz que precisamos mudar urgentemente nossa narrativa: começar a perguntar o que podemos fazer pela biodiversidade, e não o que ela pode fazer por nós.

A pesquisa foi publicada em um artigo na revista científica Nature Ecology & Evolution. [ScienceAlert]

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