Pornografia e ciência: saiba como assistir a pornô pode afetar seu cérebro e comportamento

Por , em 7.01.2020

A internet chegou para facilitar muita coisa, inclusive o consumo de pornografia. Mas como todo esse acesso e exposição mudou nosso comportamento e cérebro?

De algumas formas, explica a doutoranda em neurociência Rachel Anne Barr, da Universidade Laval (Canadá).

Por exemplo, um estudo da Universidade do Texas descobriu que a pornografia está correlacionada com a erosão do córtex pré-frontal, uma área do cérebro ligada a funções como moralidade, força de vontade e controle do impulso.

Essa região é subdesenvolvida em crianças – é por isso que elas têm dificuldade em controlar suas emoções e impulsos. Logo, embora o cérebro possa “regredir” a um estado mais juvenil com a pornografia, essa não é uma condição desejada por adultos, uma vez que leva a uma predisposição a comportamentos compulsivos e más decisões.

Acesso à pornografia

Os cientistas estão apenas começando a entender os efeitos da pornografia no cérebro e comportamento humanos.

Não que ela seja algo novo – pinturas e esculturas com temas pornográficos já foram encontradas diversas vezes ao longo da história humana, como na cidade de Pompeia, congelada no tempo após uma erupção do Monte Vesúvio em 79 dC.

Na era da internet, no entanto, assistir a pornô se tornou carne de vaca. De acordo com o Science Alert, o maior site de pornografia grátis do mundo, Pornhub, recebeu mais de 33,5 bilhões de visitas apenas em 2018.

Com tanta facilidade de acesso e anonimidade, o consumo de pornografia tem sido mais frequente e deixado as pessoas mais vulneráveis a seus efeitos superestimulantes. E o que a ciência tem a dizer sobre isso?

Fora do mundo real, dentro do mundo pornô

Alguns dos principais efeitos potenciais a longo prazo da pornografia são disfunções sexuais (especialmente a incapacidade de atingir a ereção ou o orgasmo com um parceiro) e o declínio na qualidade conjugal e comprometimento com um parceiro romântico.

Estes efeitos estão ligados ao papel de um neurotransmissor chamado dopamina, liberado pelo cérebro como resposta ao estímulo sexual. Ele é associado com o sistema de recompensa do nosso organismo – ou seja, produz uma sensação de prazer e satisfação.

O que acontece com usuários pesados de pornografia é que, ao invés de procurarem um parceiro romântico para satisfazerem seus desejos, eles recorrem mais frequentemente a vídeos no celular e laptop.

A pornografia pode ser hiper estimulante e levar a explosões tão grandes de recompensa e prazer que acaba “viciando” o cérebro. Isso, por sua vez, pode deixá-lo “insensível” a níveis de dopamina secretados por fontes naturais de prazer.

“A pornografia atende a todos os pré-requisitos para a mudança neuroplástica [do cérebro]. Quando os pornógrafos se gabam de introduzir temas novos e mais hardcore, o que eles não dizem é que precisam fazer isso porque seus clientes estão construindo uma tolerância ao conteúdo”, explica o psiquiatra Norman Doidge.

Saúde mental

Isso não deve ser uma coisa boa, certo? Certíssimo. Além de deixar a pessoa sem vontade de realmente fazer sexo com um parceiro, tanto estímulo e vício podem ter outras consequências ruins, como uma propensão a condições mentais.

Por exemplo, estudos indicaram que mudanças na transmissão de dopamina no cérebro podem aumentar a probabilidade de depressão e ansiedade.

De fato, uma pesquisa dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA concluiu que consumidores de pornografia relatam mais sintomas depressivos e pior qualidade de vida e saúde mental do que pessoas que não assistem a pornô.

Uma escalada para pior

O problema é que quanto mais pornô alguém assiste, mais quer assistir – só que com a desvantagem de não atingir mais a satisfação desejada. Essa “desconexão” causa uma desregulação no sistema de recompensa do cérebro.

Pesquisadores do Instituto Max Planck em Berlim, na Alemanha, descobriram que o consumo constante de pornografia está correlacionado com menor ativação do cérebro em resposta à pornografia convencional.

Em linha com esse achado, uma análise do Pornhub indicou que o interesse dos usuários em sexo convencional está diminuindo, enquanto cresce em temas como incesto e violência. Opa, isso não deve ser bom mesmo!

Embora não seja fácil de comprovar, tal perpetuação da violência sexual online pode ter consequências na vida real. Isso porque temos células cerebrais chamadas de “neurônios espelho” que são ativadas quando realizamos uma ação ou observamos alguém realizando a mesma ação. Por exemplo, as áreas do cérebro ativadas quando assistimos pornô são as mesmas ativadas quando realmente fazemos sexo.

Talvez esse mecanismo cerebral possa levar a um aumento no comportamento violento na vida real, especula o professor de psiquiatria Marco Iacoboni, da Universidade da Califórnia em Los Angeles (EUA).

Isso seria obviamente péssimo, mas nem é necessário irmos a tais extremos para saber que assistir a pornografia demais não é a melhor escolha – como este artigo deixou claro, o conteúdo pode nos afetar de diversas formas, então o ideal é consumi-lo com responsabilidade. [ScienceAlert]

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