Raiva contra as máquinas ganha nova interpretação

Por , em 17.04.2012

A preocupação com a dominação das máquinas não é de hoje. Nos tempos de escola, aprendemos que o movimento ludista (se lembra?) foi um movimento operário contrário à mecanização do trabalho que estava acabando com os trabalhos de muitos operários. Por isso, os ludistas invadiram fábricas e destruíram máquinas. E dois dos incidentes mais notórios aconteceram há exatos 200 anos, quando 150 rebeldes invadiram o Moinho de Rawfold e assassinaram o proprietário local, William Horsfall, perto do condado de York, Inglaterra.

Para historiadores de todo o mundo, a revolta foi divisora de águas, na qual a classe trabalhadora se fez presente e fez as outras classes sentirem sua força política pela primeira vez. Isso acabou levando a posteriores reformas, como a criação dos sindicatos, por exemplo.

Contudo, uma recente pesquisa de Richard Jones sugere que não foi bem assim. Segundo ele, o ludismo é celebrado pelos motivos errados. Ele defende que o movimento não representava as verdadeiras preocupações das classes operárias, mas somente as preocupações de profissionais mais privilegiados, que tinham interesses locais.

Na indústria têxtil, investigada pelo estudo, por exemplo, de um milhão de empregados, os aderentes ao movimento nunca passaram 12 mil.

“Para os historiadores, o ludismo é encarado como um fenômeno social histórico”, explica Jones. “Os ludistas eram vistos como trabalhadores que se faziam ouvir, mas esses não eram as massas tiranizadas de trabalhadores: eram as ‘elites’ dessas massas”.

O foco de Jones recaiu sobre o condado de York, aonde ele examinou testemunhos orais, documentos legais, papéis do parlamento e relatórios. De acordo com ele, os grupos envolvidos nas quebras das maquinarias sempre variavam de 4 a 10 pessoas, e a rebelião não se tornou um movimento nacional, pois era diferente de lugar para lugar. Em Nottinghamshire, por exemplo, não havia violência. Os trabalhadores só removiam as engrenagens. Mas, em Lancashire, pelo contrário, houve ondas de movimentos radicais, que levou a greves maduras e bem organizadas.

A pesquisa também desmistifica os ataques ao Moinho de Rawfold e a William Horsfall. “Ambos eram profundamente impopulares com o operariado, e os ataques parecem estar ligados a essa reputação, e não ao ludismo”, esclarece Jones.

O pesquisador admite que o ludismo permanece como um aspecto importante para a identidade local de algumas regiões do país. “O problema é que, às vezes, interpretações ficcionais de alguns eventos podem ser encaradas como história, e devemos olhar para a história de maneira apropriada. Dois séculos depois dos levantes, parece ser o tempo exato para entendermos o que era, de fato, o movimento”, ressalta Jones. [Cambridge]

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6 comentários

  • D.D versao 2.0:

    Ser a minoria de uma maioria ou a maioria de uma minoria, sinceramente, não muda tanto assim as coisas.

  • eduardo:

    As máquinas vieram para somar… as pessoas é que se julgam obsoletas e não aceitam serem substituídas…

  • Vielmond:

    Foi esquecido o navio-hospital alemão que foi torpeado por um submarino russo, no mar Báltico, no fim da 2ª guerra, deixando um saldo de mais de 9000 mortos (crianças, mulheres e soldados feridos). Provavelmente o comandante do submarino recebeu uma medalha.

    • Jean P. Carvalho:

      Mas aí não se trata de “raiva contra a máquina”, e sim de ódio racial…

  • Andhros:

    Eu lembro que foi aí que aconteceu aquela história, na França. Os operários, revoltados com as más condições de trabalho, retiraram seus confortáveis sapatos de madeira – sabots – e arremeçaram entre os mecanismos em movimento, que não tiveram a menor chance contra os requintados. Daí veio a palavra “sabotagem”, que nem se importaram depois em traduzir para “sapatagem”. Hoje não ouvi falar mais dos sabots, mas ouvi casos de pessoas introduzindo partes do corpo (dedos) em máquinas (moedor de carne) pra receber indenização de “acidente” de trabalho… Que voltem os sabots!

    • D.D versao 2.0:

      Gostei, não sabia essa curiosa origem da palavra.

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