Risco de câncer: uma garrafa de vinho equivale a 5 a 10 cigarros?

Por , em 4.04.2019

Um estudo do Hospital Universitário de Southampton, na Inglaterra, afirmou que beber uma garrafa de vinho por semana é o mesmo que fumar entre cinco e dez cigarros por semana, quando se trata de aumentar o risco de contrair câncer.

O estudo criou polêmica no meio científico. Embora tenha ganhado ampla cobertura de mídia, há críticas quanto a sua metodologia e publicidade. A bioestatística Ruth Etzioni, do Centro de Pesquisa do Câncer Fred Hutchinson (EUA), por exemplo, não está convencida de que comparar cigarros e álcool seja útil.

“Os cânceres induzidos pelo tabagismo, que são muito claros, não são os mesmos que os supostamente afetados pelo álcool – que são muito menos claros”, explica Etzioni. “Fazer essa comparação não é útil e é alarmista. Há muito mais incerteza sobre o risco induzido pelo consumo de álcool do que com o cigarro”.

A conclusão

As descobertas da pesquisa foram publicadas em um artigo na revista científica BMC Public Health.

Para as mulheres, beber uma garrafa de vinho por semana aumentou o risco absoluto de câncer ao longo da vida no mesmo nível que fumar 10 cigarros por semana, em grande parte devido a um risco maior de câncer de mama.

Entre os homens, beber uma garrafa de vinho por semana aumentou o risco absoluto de câncer ao longo da vida da mesma forma que fumar cinco cigarros.

Metodologia

Embora muitas pesquisas tenham analisado os riscos de câncer associados a cigarros e álcool, este é o primeiro estudo a compará-los. “Simplesmente realizamos um cálculo baseado em dados de grandes estudos anteriores”, disse a principal autora Theresa Hydes, pesquisadora clínica de hepatologia do Hospital Universitário de Southampton.

A equipe estimou a maior chance de contrair câncer relacionado ao consumo moderado de álcool e a comparou com o maior risco de contrair câncer por tabagismo. Os resultados mostraram que, entre os homens não fumantes, o aumento no risco de câncer ao longo da vida de beber uma garrafa de vinho por semana foi de 1%, enquanto para as mulheres não fumantes foi de cerca de 1,4%.

Nos homens, o maior risco foi principalmente de cânceres gastrointestinais (por exemplo, orofaringe, esôfago, colorretal e fígado); nas mulheres, o câncer de mama foi responsável por 55% dos casos adicionais. Os cientistas enfatizam que este achado é importante porque o tabagismo também é uma relevante causa de câncer do trato gastrointestinal, mas não de câncer de mama. Assim, se 1.000 homens e 1.000 mulheres consumissem uma garrafa de vinho por semana, cerca de 10 homens e 14 mulheres teriam câncer como resultado.

Não surpreendentemente, o risco de câncer relacionado ao álcool aumentou conforme o consumo foi maior. Beber três garrafas de vinho por semana, ou cerca de meia garrafa por dia, trouxe um aumento de 1,9% em homens e 3,6% em mulheres, ou 19 em 1.000 homens e 36 em 1.000 mulheres. Esse é o mesmo risco de fumar cerca de oito cigarros por semana para homens e 23 cigarros por semana para mulheres.

Críticas

O título do artigo inclui a frase “Quantos cigarros há em uma garrafa de vinho?”, o que, de acordo com Etzioni, mostra que foi “obviamente escrito para chamar atenção”. A especialista crê que esse estudo é um desserviço para as pessoas conscientes sobre sua saúde, acrescentando que “recomendaria dar a menor atenção possível” a ele.

Já Mark Petticrew, professor de avaliação de saúde pública da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres, na Inglaterra, diz que os autores não são “alarmistas”. “O artigo começa dizendo ‘devemos primeiro deixar absolutamente claro que este estudo não está dizendo que beber álcool com moderação é de alguma forma equivalente ao fumo'”, explica Petticrew.

De fato, Hydes esclareceu que a comparação com cigarros foi usada principalmente para chamar a atenção, no caso, para aumentar a conscientização do público sobre o risco de câncer ligado ao álcool.

Embora os riscos para a saúde do tabagismo estejam bem estabelecidos e sejam amplamente compreendidos pelo público, a situação é diferente com o álcool, especialmente no que se refere ao câncer. Em uma pesquisa de 2017 da Sociedade de Clínica Oncológica Americana, por exemplo, 70% dos americanos não reconheceram o álcool como um fator de risco para o câncer.

“O público associa o álcool a doenças do fígado, mas geralmente não tem consciência de que é a quinta principal causa de câncer e, é claro, as taxas de consumo continuam aumentando em muitos países”, disse.

O único conselho é: não beba

No geral, o estudo conclui que não há benefícios para a saúde em beber álcool, apesar de alguns estudos (“frequentemente comprados pela indústria do álcool”, de acordo com Hydes) terem sugerido isso.

“Essas descobertas agora foram desacreditadas, muitas vezes devido ao fato de que os abstêmios nesses estudos se abstiveram devido a razões de saúde e, portanto, distorceram os dados”, afirmou Hydes.

Ela acrescentou que a Agência Internacional da Organização Mundial da Saúde para Pesquisa sobre Câncer, o Fundo Mundial para Pesquisa do Câncer e o Instituto Americano para Pesquisa do Câncer todos afirmam que nenhum nível de consumo de álcool é completamente seguro.

Petticrew ainda aponta que, enquanto alguns estudos descobriram que o álcool pode ajudar a prevenir doenças cardíacas, isso não está claro, e pode haver outras explicações para a relação entre as duas coisas. “Mesmo que tal efeito protetor seja real – o que é contestado -, ele está relacionado apenas a doenças cardíacas, e existem cerca de 200 outras condições pelas quais o álcool aumenta o risco, incluindo o câncer”, argumenta. [WebMD]

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