O sangue deste homem parece leite

Por , em 19.03.2019

Parece o roteiro de alguma série sobre os mistérios da medicina, mas aconteceu na vida real: um homem de 39 anos na Alemanha foi até um hospital sentindo náuseas, vômitos, dores de cabeça e muita agonia. Logo os médicos perceberam que o problema era mais grave do que aparentava: o paciente tinha no lugar do sangue uma substância branca e espessa como o leite. Na verdade, o homem tinha muita gordura em seu sangue, uma condição que poderia tê-lo matado se os médicos não tivessem recorrido a um tratamento há muito tempo abandonado, iniciado e utilizado por curandeiros milhares de anos atrás.

A condição com a qual o paciente se apresentou ao hospital é conhecida como hipertrigliceridemia extrema: uma doença marcada por altos níveis de moléculas de triglicerídeos gordurosos no sangue. Normalmente, os médicos tratariam essa condição com uma técnica chamada plasmaférese, que extrai o plasma sanguíneo do corpo, remove o excesso de triglicerídeos (ou outros componentes tóxicos) e retorna o sangue limpo e filtrado para o paciente.

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Houve apenas um problema: quando os médicos do Hospital Universitário de Colônia tentaram essa abordagem, o sangue extremamente espesso e gorduroso do homem entupiu a máquina de plasmaférese por duas vezes. Quando os médicos do departamento de terapia intensiva prenderam o homem ao filtro de plasmaférese do hospital, seu sangue viscoso entupiu o equipamento, e uma segunda tentativa ficou igualmente obstruída.

Este caso bizarro, algo que os pesquisadores dizem nunca ter visto antes, pediu uma abordagem diferente para de alguma forma sugar o nível extremo e perigoso de gordura do sangue do homem – um nível normal de triglicerídeos no sangue de uma pessoa seria inferior a 150 miligramas por decilitro (mg / dl), enquanto uma leitura alta seria entre 200 a 499 mg / dl e 500 mg / dl seria considerado “muito alto”. Nesse caso, porém, o sangue do paciente estava completamente congestionado, com sua contagem de triglicerídeos chegando a 36 vezes mais alta do que a muito alta, a cerca de 18.000 mg / dL.

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Os sintomas com os quais o paciente se apresentou no hospital são típicos de uma condição conhecida como síndrome de hiperviscosidade, que acontece quando o sangue anormalmente espesso pode, em casos graves, desencadear convulsões e coma.

Voltando no tempo

O homem desenvolveu essa condição rara e bizarra provavelmente a vários fatores relacionados à obesidade, dieta, resistência à insulina e uma possível predisposição genética – sem mencionar o fato de que, enquanto estava sob medicação para diabetes, ele admitiu que nem sempre tomava.

Os médicos supõem que a “cascata de eventos” do paciente poderia ter sido inicialmente desencadeada pela cetoacidose, uma condição grave derivada da diabetes, quando o corpo começa a produzir perigosos ácidos sanguíneos. O caso havia se tornado particularmente grave – o homem estava apenas um ponto acima do estado vegetativo na escala usada para avaliar e medir o nível de consciência de uma pessoa, chamada de escala de coma de Glasgow.

Como não era possível realizar a plasmaférese, os médicos se voltaram para uma opção muito mais antiga e agora desacreditada, um tratamento praticamente esquecido que em grande parte não é praticado na medicina tradicional desde os séculos 18 e 19: a famosa sangria.

Essa antiga técnica, que intencionalmente retira o volume sanguíneo do corpo, pode ser rastreada até o antigo Egito há cerca de 3.000 anos, e já foi uma das formas mais comuns de operação “médica”. Naqueles tempos, entretanto, a medicina em si era um conceito completamente diferente do que é hoje, e atualmente a sangria é vista principalmente como uma forma anacrônica de pseudociência que causava muito mais mal do que bem aos pacientes.

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O que não quer dizer que não tenha usos extremamente raros – como salvar a vida de um homem cujo sangue está perigosamente saturado de gordura. Na unidade de terapia intensiva, os médicos acabaram retirando dois litros de sangue do homem, substituindo-o por um suprimento de concentrados de hemácias, plasma fresco congelado e uma solução fisiológica salina.

Apesar das histórias de horror que você ouve sobre a sangria, a técnica funcionou, diminuindo com sucesso os níveis de triglicerídeos do paciente. No quinto dia após o início do tratamento, ele estava livre de sintomas neurológicos residuais.

Além disso, sua equipe médica diz que esse caso estranho, possivelmente sem precedentes, demonstra como a sangria ainda pode preencher um nicho estranho na medicina do século XXI quando não há outras opções disponíveis. “Se a plasmaférese não pode ser feita devido à extrema hiperviscosidade, nossa experiência demonstra que a sangria convencional com reposição de fluidos pode ser uma alternativa eficaz. Até onde sabemos, este é o primeiro relatório (médico) a descrever este procedimento”, explicam os pesquisadores em uma nota sobre o tratamento do homem. [Live Science, Science Alert]

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