O que é matéria escura e energia escura?

Publicado em 13.01.2013

A matéria escura e a energia escura são soluções propostas para explicar alguns fenômenos gravitacionais, e, até onde sabemos, são coisas distintas.

Embora juntas respondam por mais de 95% do nosso universo, só sabemos de sua existência por meios indiretos, observando seus efeitos sobre o universo e tentando deduzir suas propriedades a partir deles.

Matéria escura

A matéria escura foi proposta nos anos 1930 por Fritz Zwicky para explicar a diferença entre a massa gravitacional e a massa luminosa de aglomerados de galáxias (Fritz Zwicky estava trabalhando com curvas de rotação de galáxias).

A massa gravitacional de um objeto é determinada pela medida da velocidade e raio da órbita de seus satélites, um processo igual à medição da massa do sol usando a velocidade e distância radial dos planetas.

A massa luminosa é determinada pela soma de toda luz e convertendo este número em uma estimativa de massa, baseado na nossa compreensão sobre como as estrelas brilham. Esta comparação de massa-para-luz indica que a energia na matéria luminosa contribui com menos de 1% da densidade média de energia do universo.

Certamente existe mais matéria nas galáxias que não emite luz, mas as evidências indicam que há um limite máximo para a matéria normal (aquela feita de átomos) presente no universo. Evidências vindo da medição da radiação cósmica de fundo, por exemplo, apontam que no máximo 5% da densidade de massa-energia do universo e 20% da massa dos aglomerados está na forma de átomos.

Mas do que é feita a matéria escura? Muitos físicos e astrônomos acham que a matéria escura é provavelmente uma nova partícula que ainda não foi detectada em aceleradores de partículas ou em raios cósmicos.

Para ser uma partícula de matéria escura, ela tem que ter bastante massa, provavelmente mais que um nêutron, e interagir muito fracamente com a matéria normal, de forma a dificilmente reagir produzindo luz.

O protótipo do candidato é algo parecido com um neutrino, só que todos os tipos de neutrinos conhecidos são muito leves e muito raros para explicar a matéria escura.

E como a matéria escura afeta o universo? Aparentemente, ela é responsável pelas estruturas que vemos no universo, como galáxias e aglomerados; é ela que “segura” estes objetos imensos, não deixando que se desfaçam.

Como curiosidade, a proposta de uma matéria escura na década de 1930 por Fritz Zwicky não foi levada a sério porque o suíço tinha entrado em atrito com muitos colegas na comunidade astronômica. Em 1962, a astrônoma Vera Rubin fez a mesma descoberta, que novamente não foi levada à sério, desta vez porque ela era uma mulher. Ela persistiu e conseguiu atenção da comunidade em 1978, com um estudo profundo de 11 galáxias, inclusive a nossa.

Energia escura

A energia escura tem sua origem nos trabalhos para entender a expansão acelerada do universo. Basicamente, a teoria atual não consegue explicar essa aceleração. Uma das especulações é que a aceleração é consequência de uma nova forma de matéria, apelidada “energia escura”, que também não foi detectada até agora.

É chamada de “escura” porque deve interagir muito fracamente com a matéria, como a matéria escura, e é chamada de energia porque uma das coisas de que estamos certos é que ela contribui com cerca de 70% da energia total do universo. Se descobrirmos o que é, podemos então trocar o nome para algo menos misterioso.

Com o estabelecimento do modelo cosmológico do Big Bang, acreditava-se que a expansão inicial de 13,7 bilhões de anos atrás estaria diminuindo com o tempo, mas duas equipes de pesquisadores independentes descobriram em 1998 que a expansão estava acelerando.

A aceleração é determinada pela medida dos tamanhos relativos do universo em diferentes eras. De uma forma específica, os astrônomos medem o redshift ou desvio para o vermelho do espectro e a distância da luminosidade de explosões estelares chamadas supernovas tipo 1a.

O tempo que a luz da supernova leva para chegar aos telescópios é descoberto examinando a distância da luminosidade, enquanto a mudança do tamanho do universo entre a explosão e a observação é determinada pelo desvio para o vermelho. Uma comparação destes tamanhos em uma sequência de tempo revela que o universo está crescendo cada vez mais rápido. Desde esta descoberta, os equipamentos ficaram mais sensíveis e os dados foram confirmados pela medição de outros fenômenos cosmológicos.

A teoria da relatividade prevê que a aceleração cósmica é determinada pela densidade média de energia e pressão de todas as formas de matéria e energia no universo. Só que as quantidades da matéria normal, da energia normal, e da matéria escura não respondem pela densidade de energia necessária para a aceleração – tem que ser outra coisa.

Uma das hipóteses mais aceitas é que o universo é preenchido por um mar de energia quântica de ponto zero, que exerce uma pressão negativa, como uma tensão, fazendo com que o espaço-tempo sofra uma repulsão gravitacional. É a chamada constante cosmológica, introduzida por Einsten em outro contexto (e referida por ele como seu maior erro).

E como a energia escura afeta o universo atualmente? Ela é responsável pela aceleração cósmica, e equipes internacionais de astrônomos estão trabalhando para refinar a medida desta aceleração. Dela depende o julgamento da constante cosmológica de Einstein, uma possível compreensão da teoria fundamental da natureza (gravidade quântica e o estado quântico do universo), e o destino do universo (Big Chill ou Big Rip?).

Diferenças entre as duas

As duas, matéria escura e energia escura, possuem diferenças enormes. A matéria escura atrai e a energia escura repele, ou seja, a matéria escura é usada para explicar uma atração gravitacional maior que o esperado, enquanto a energia escura é usada para explicar uma atração gravitacional negativa.

Além disso, os efeitos da matéria escura se manifestam em uma escala de 10 megaparsecs (um megaparsec corresponde a 3,2 milhões de anos luz, aproximadamente) ou menor, enquanto que a energia escura parece que só se torna relevante em escala de 1.000 megaparsecs ou mais.

Finalmente, é importante questionar se os fenômenos da matéria escura e da energia escura podem ter uma explicação gravitacional. Talvez as leis da gravidade sejam diferentes do que desenhou a teoria de Einstein. Esta é uma possibilidade, só que até hoje a teoria da relatividade não falhou em nenhum teste. Além disto, novas imagens de aglomerados revelaram um comportamento que é inconsistente com teorias gravitacionais alternativas, como a MOND – ou seja, a matéria escura está ali.

Nossas melhores mentes estão trabalhando no problema e nossa melhor tecnologia está examinando o cosmos, e, por enquanto, não há outra explicação para os efeitos que observamos: a matéria escura e a energia escura são reais. A composição do universo atual, até onde sabemos, é de 4,2% matéria normal, 24% matéria escura e 71,6% energia escura.[en.Wikipedia 1 2, Nasa Ask an Astronomer, How Stuff Works, Nasa Astrophysics, Dummies, National Radio Astronomy Observatory, Scientific American, Space.com, WMAP's Universe]

Autor: Cesar Grossmann

Formado em Engenharia Elétrica, é funcionário público, gosta de xadrez e fotografia. Apesar de se definir como "geek", não tem um smartphone, e usa uma câmera fotográfica com filme (além da digital).

Quer copiar nosso texto? Siga estas simples instruções e evite transtornos.
Compartilhe este artigo

19 Comentários

  1. Energia escura ainda não e comprovado, acredito mais na rotação do universo. ver blog olhandoouniverso

    Thumb up 3
    • não me levem a mal, só nao acredito no “big-bang” pra mim isto ajuda a explicar como o universo se movimenta hoje,.. mas só isso.. rsrs
      então seguindo a mesma linha de raciocínio: energia escura = energia inicial? …

      Thumb up 4
    • enfim.. tudo evolui de certa maneira e eu não consigo enfiar na minha cabeça que o universo tenha evoluído de outra forma…

      Thumb up 0
  2. É claro que a ciência ainda está engatinhando no conhecimento do Cosmo.
    Neste mosaico cósmico ela pode um dia chegar à conclusão que 4% é consciência, 26% é intuição e 70% é o inconsciente.

    Thumb up 10
    • O legal é que estes numeros não são imutaveis!Pode estar aí o canal para a nossa felicidade.

      Thumb up 0
    • Afonso

      Nesse dia, estaremos todos de volta no ponto inicial, quando eramos “animistas”!!! (será pós-IV Guerra Mundial???)

      Thumb up 0
  3. Legal! Este universo é muito misterioso e podem haver muitas outras coisas completando o seu mecanismo, como por exemplo a Razão Áurea.

    Thumb up 0
  4. matéria eu compra com aguá doce potável, e matéria escura com o mar salgado.

    Thumb up 0
  5. Nessa hora eu posso citar o prof. Girafales em relação com Einsten e seu maior erro!

    Einsten: Eu só errei uma vez!
    Cientistas: Quando?
    Einsten: Quando achei está errado!

    :D

    Thumb up 5
  6. Sem chances disso ser verdadeiro. Como sempre, os cientistas só criam explicações que estejam bem longe no tempo e distância, onde ninguém vai conseguir encontrar nada. Assim como fizeram da hipotética Nuvem de Oort. Nuvem hipotética de cometas hipotéticos.

    Essas duas só foram criadas para explicar os braços simétricos das galáxias, mas a bagunça teria sido bem menor se os cientistas permitissem a existência de fluxos elétricos no espaço.

    Thumb up 5
  7. Outro dia conseguiram superar a temperatura 0º Absoluto, e descobriram que as partículas reagiam de forma similar à energia escura (se nao me engano) e que ao invés de ficarem congelados, ocorria superaquecimento…

    Não seria a energia escura algo do tipo? Materia ou Anti-Materia em estado abaixo de 0º Absoluto ?

    Pode nao ter nada a ver, mas achei que seria valido levantar a questão.

    Abração!

    Thumb up 0
  8. Eu defino como uma interação de gravidade entre universos paralelos. Ao seu lado tem outro universo ou dimensão que interage com sua realidade. Esta influencia explicaria de onde vem a materia universal ou de onde vem quando aparece nos fenomenos do alto vacuo.

    Thumb up 0

Envie um comentário

Leia o post anterior:
effelsberg-radio-telescope-night
Ufa! Constante física continua constante há 7 bilhões de anos

Astrônomos descobrir...

Fechar