Prosopagnosia: mulher não reconhece rostos de marido ou filhos

Publicado em 23.09.2012

Leitor, se você se sentiu incomodado quando alguém (um colega da faculdade, talvez) o cumprimentou na rua e você simplesmente não o reconheceu, imagine se você fizesse isso com seus pais ou seus irmãos. Acredite se quiser: tem gente que não reconhece sequer os próprios filhos.

Não estamos falando de um nível extremo de distração, mas sim de uma condição médica relativamente rara, chamada prosopagnosia (ou “cegueira para feições”), que, estima-se, afeta uma a cada 50 pessoas (2% da população mundial), tanto homens como mulheres. É o caso de Sandra O’Connor, que tem dificuldade para reconhecer o marido, os filhos e a si mesma, e se surpreende sempre que se olha no espelho. “Vejo minhas feições claramente mas não percebo o rosto como se fosse meu. Vejo apenas uma mulher comum, de meia idade, me encarando de volta”, conta.

Causada por uma alteração em uma estrutura do cérebro chamada lobo occipital (que pode ser de nascença ou consequência de um dano neurológico), a prosopagnosia gera ansiedade e, em grande parte dos casos, isolamento social. “Quando fiz 50 anos, só recebi dois cartões de aniversário que não eram de familiares – ambos de velhos colegas que já não encontro. Agora evito contato visual com outras pessoas, para não ser acusada de ‘cortá-las’”, relata Sandra. Por falta de conhecimento sobre a condição, muitos veem portadores de prosopagnosia como gente “distraída” ou “mal-educada”.

Recentemente, a professora de psicologia Sarah Bate, da Universidade de Bournemouth (Reino Unido), recebeu financiamento para fundar um centro de estudo de prosopagnosia. “No começo achamos que era uma condição extremamente rara, mas depois de pedir que as pessoas se manifestassem, ficamos sabendo de 700 casos”, conta. “Mas isso não é algo que um clínico geral vai reconhecer, e há uma grande falta de suporte e compreensão em escolas e locais de trabalho”.

Sozinhos na multidão

“O primário foi ruim, mas o ensino médio foi pior”, lembra Sandra. “Eu passei boa parte do meu tempo tentando encontrar a sala de aula certa, porque não conseguia reconhecer os colegas ou os professores”. Seus poucos amigos criaram uma estratégia para ajudá-la: na hora do almoço, sentavam sempre no mesmo lugar, para que Sandra soubesse onde encontrá-los.

Durante décadas, a professora aposentada Valerie Haden ficava irritada consigo mesma por não reconhecer seus estudantes ou seus amigos. A “cegueira” causou muitas situações sociais complicadas, baixou sua autoestima e a levou a se casar com um homem “totalmente inadequado”, do qual se divorciou mais tarde.

“Durante toda a minha carreira eu fiquei em salas de aula cheias de pessoas que me pareciam iguais, e me senti muito infeliz por jamais conhecê-las”, conta Valerie. “Meus colegas achavam que eu era condescendente com os encrenqueiros, mas na verdade eu não fazia a menor ideia de quem eram”.

Dispensando o reconhecimento facial

A despeito das muitas dificuldades causadas por sua condição, diversos portadores de prosopagnosia acabam encontrando formas de reconhecer os outros mesmo sem se lembrar de seus rostos. “Da mesma maneira que pessoas cegas podem desenvolver um elevado senso de reconhecimento de voz, pessoas com ‘cegueira facial’ aprendem a encontrar pistas na linguagem corporal que as ajudem a identificar os outros”, explica a Dra. Bate.

Foi graças ao Serviço Rádio do Cidadão (conhecido como PX no Brasil) de seu país (Escócia) que Sandra conheceu o marido, Derek, nos anos 80. Juntos há 27 anos, Sandra e Derek aprenderam a driblar a prosopagnosia: nos encontros, ele sempre ia buscá-la em horários combinados, para que ela soubesse que era ele. Derek sempre usa uma jaqueta vermelha para facilitar o reconhecimento e, quando alguém conhecido se aproxima de Sandra, ele a avisa discretamente.

Sua filha, Beki, sempre usa uma roupa verde para que a mãe possa encontrá-la, e o filho, Josh, avisa seus amigos sobre a condição da mãe, para que eles não fiquem chateados pensando que Sandra os “ignora”.

A analista de negócios Sara Wingman é capaz de reconhecer seu noivo, Stuart Galloway, pelo jeito de andar, “rápido e curvado para frente”. Em seu mundo, explica Sara, aparência é irrelevante como forma de atração. “Quando conheci Stuart, o que me atraiu foi sua conversa e sua inteligência”, conta. Diagnosticada em 2010, sentiu alívio ao saber que não estava apenas sendo “distante”, mas que era portadora de uma condição neurológica. No trabalho, se esforça para reconhecer os colegas pela voz, pelas roupas que usam, pela cor de pele ou pelo local de suas mesas no escritório.

No caso de Valerie, o diagnóstico tirou um grande peso de seus ombros, oito anos atrás. Para compensar a “cegueira”, passou a buscar pistas sobre a identidade das pessoas enquanto conversa com elas. “Meu mecanismo de superação é sorrir e dizer ‘olá’ a todo mundo: é assim que eu lido com a prosopagnosia”.

Embora a condição ainda não tenha cura, com a ajuda de familiares e amigos os portadores de prosopagnosia conseguem, de alguma forma, superar essa estranha “cegueira”.[Daily Mail UK]

Autor: Guilherme de Souza

É jornalista empenhado e ilustrador em treinamento. Curte ciência, cultura japonesa, literatura, seriados, jogos de videogame e outras nerdices. Tem alergia a música sertaneja e acha uma pena que a Disco Music tenha caído no esquecimento.

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