A bizarra, perigosa e solitária vida do mergulhador de saturação

Por , em 10.05.2018

Durante 52 dias seguidos, Shannon Hovey acordou na companhia de cinco outros homens em um tubo de metal de 6 metros de comprimento e 2 metros de diâmetro, dentro de um navio no Golfo do México.

Tomou seu café da manhã que veio por uma escotilha e ouviu uma voz incorpórea dizer-lhe quando era hora de colocar sua roupa de borracha e trabalhar.

A vida no tubo era repetitiva e perigosa – qualquer violação não intencional dessa casa temporária de metal significaria uma morte rápida e agonizante.

Isso porque Hovey tem uma das profissões menos conhecidas e mais perigosas e bizarras da Terra: ele é um mergulhador de saturação.

Doença da descompressão

Por enquanto, apenas alguns poucos homens desempenham essa função no mundo todo. Os trabalhos geralmente têm a ver com construção e demolição em profundidades de até 300 metros ou mais abaixo da superfície do oceano.

Nessa profundidade, é preciso respirar ar pressurizado. Para voltar à superfície, esse gás precisa de tempo para se difundir lentamente. Caso um mergulhador disparasse diretamente para a superfície, o gás formaria bolhas, como em uma lata de refrigerante agitada. Dentro do corpo de uma pessoa, isso seria como se milhões de minúsculos explosivos começassem a detonar.

Conhecida como “doença da descompressão”, a condição é catastroficamente dolorosa e debilitante e, dependendo da profundidade, quase impossível de sobreviver. Mergulhar a 80 metros de profundidade por uma hora, por exemplo, exige uma subida de cinco horas para evitar até os menores problemas.

A fatalidade foi descoberta pela primeira vez no século 19, quando homens em tubos pressurizados usados para escavar túneis e construir pontes misteriosamente adoeceram e começaram a morrer.

Vivendo em uma câmera pressurizada

Experimentos nos anos 1930 mostraram que, depois de um certo tempo sob determinada pressão, os corpos dos mergulhadores ficam totalmente saturados com gás inerte, e eles podem permanecer nessa pressão indefinidamente, desde que tenham uma longa descompressão no final.

Em 1964, aquanautas navais ocuparam o primeiro Laboratório Marítimo – um alojamento de metal em uma profundidade de 60 metros. Eles podiam mover-se sem esforço entre a casa subaquática pressurizada e a água circundante, demonstrando o enorme potencial comercial do mergulho de saturação.

A indústria de petróleo e gás é a que mais precisa de mergulhadores comerciais como Hovey, que pode ir ao leito marinho para executar as delicadas manobras necessárias para montar, manter e desmontar poços, plataformas e oleodutos, lidando com válvulas flutuantes e apertando parafusos com macacos hidráulicos em espaços apertados que previnem explosões.

Veículos operados remotamente não têm a mesma flexibilidade ou julgamento para realizar delicadas funções. Graças a 1964, ficou claro que seria mais fácil e mais barato monitorar e apoiar mergulhadores em alojamentos pressurizados no fundo do mar.

Preparativos

Neste momento, em todo o mundo, há mergulhadores vivendo sob pressão dentro de sistemas de saturação, principalmente em navios, mas ocasionalmente em plataformas ou barcaças.

Além dos mergulhadores, outras pessoas trabalham nesses navios, fora da câmera de saturação – como gerentes submarinos, supervisores de mergulho e técnicos de suporte de vida. Eles estão lá para controlar o que os mergulhadores respiram e comem, suprir suas necessidades pessoais e até mesmo ajudar a dar descarga na privada remotamente (isso é necessário, pois dar descarga em uma câmara pressurizada pode ser uma tarefa um tanto perigosa, o que torna ir ao banheiro uma situação sempre pouco privada para os mergulhadores).

Antes de fixar residência na câmara de saturação, todo mergulhador deve passar por um exame médico incluindo, entre outras coisas, uma busca por qualquer sinal de infecção. Mesmo um resfriado simples pode ser incrivelmente perigoso – orelhas entupidas e cavidades nasais prendem o ar que os mergulhadores não conseguirão igualar ao ar pressurizado, podendo causar danos permanentes que podem terminar uma carreira.

Em seus últimos momentos antes de um trabalho, os mergulhadores costumam ligar para suas famílias, embora possam usar telefones celulares na câmara. Isso não é interessante, no entanto: uma vez que estão sob pressão, todos soam como o Pato Donald depois de sugar balões de hélio.

Problemas – graves – de comunicação

Em certas profundidades, mergulhadores respirando ar comprimido, incluindo mergulhadores recreativos, podem desenvolver o que é conhecido como narcose por nitrogênio. A condição imita a sensação de estar bêbado. Quanto mais fundo você vai, mais bêbado e incapacitado se sente. A 90 metros, você pode desmaiar.

Para evitar a narcose por nitrogênio e outras condições ligadas a toxicidade de gases, mergulhadores precisam respirar uma mistura de hélio e oxigênio. Um coquetel chamado heliox foi desenvolvido para esse fim. Os mergulhadores de saturação respiram heliox durante todo o tempo em que estão trabalhando.

Isso não complica apenas telefonemas familiares. O hélio é cerca de sete vezes mais leve que o ar e as ondas sonoras viajam muito mais rapidamente através dele. O resultado é que os mergulhadores, muitas vezes ex-militares realizando trabalhos sérios e mortais, soam como personagens de desenho animado.

Os mergulhadores e suas equipes de apoio se adaptam rapidamente à distorção vocal, mas isso ainda pode dificultar a comunicação – especialmente quando há sotaques envolvidos. Uma equipe pode conter um americano, um inglês, um sul-africano e um belga, por exemplo.

As embarcações de apoio geralmente são equipadas com uma espécie de decifrador para quando os mergulhadores precisam estar em constante comunicação com a equipe de suporte a bordo, mas o equipamento é notoriamente não confiável, e muitos supervisores preferem não usá-lo.

Outros desafios

A comunicação e o perigo iminente de morte não são os únicos desafios desse trabalho. Nos primeiros parágrafos, contamos que Hovey viveu por seis semanas em um tubo de metal de 6 metros de comprimento por 2 de diâmetro.

Sim, os mergulhadores passam suas horas acordadas ou sob centenas de metros de água no fundo do oceano, ou espremidos em uma área do tamanho de uma mesa de restaurante.

Há mais coisas extremamente incômodas envolvidas na profissão. Por exemplo, quando falamos que eles respiram ar pressurizado, pulamos a explicação da etapa em que a câmara se torna pressurizada. O processo pode levar horas e os mergulhadores precisam trabalhar constantemente para equalizar os ouvidos, bocejando, engolindo etc. Sem contar que a pressurização os deixa doloridos por horas ou até dias. “Qualquer coisa que não seja líquida ou sólida é afetada pela física do gás”, conta Hovey. “A cartilagem nas articulações é porosa e encolhe por alguns dias. Todas as suas articulações doem ou estralam com o movimento”.

Depois disso, o termostato dentro da câmara é ajustado para mantê-la sempre quente, porque as propriedades térmicas do hélio deixam os mergulhadores sentindo frio perpetuamente. Seus trajes de mergulho à prova d’água também são equipados com sistemas de circulação de água quente para evitar a hipotermia.

Quanto ao dia-a-dia, é necessário consumir até 6.000 calorias por dia (mais que o dobro da ingestão normal recomendada) para aguentar as tarefas exigentes na água. Mergulhadores ainda tomam doses de multivitaminas, com ênfase na D, para compensar a falta de luz solar. A comida em si não é afetada pela pressão, mas as papilas gustativas tendem a ficar amortecidas. Molho picante é um item popular, que precisa ser aberto com cuidado para não explodir.

E depois tem o problema de trabalhar debaixo d’água a tal profundidade, desempenhando tarefas dificílimas – que podem requerer ferramentas como serras e soldas – com visibilidade zero. Não morrer da descompressão é só um dos obstáculos fatais dessa profissão.

Acidentes

Com tantos perigos envolvidos, não é de se admirar que existam tristes registros de fatalidades na profissão.

Um dos piores acidentes de mergulho de saturação ocorreu em 1983, quando um sino de mergulho foi retirado do tubo de transferência (entre navio e água) antes de ser completamente selado. Quatro mergulhadores e um técnico de mergulho morreram instantânea e horrivelmente. Hoje, os sistemas de saturação possuem mecanismos de bloqueio para impedir que isso aconteça.

Por conta de todos os desafios, ninguém trabalha nas profundezas do oceano sem um extenso conhecimento em mergulho e diversos cursos avançados. Mesmo totalmente certificado, pode ser difícil ser contratado para um trabalho sem indicações confiáveis que garantam que você é capaz de desempenhar em condições tão extremas sem perder a cabeça.

Por mais forte que alguém seja, no entanto, Hovey supõe que, de cada 20 indivíduos que se formam em um programa de treinamento, talvez um ainda esteja fazendo esse trabalho depois de cinco anos. Alguns caem fora por causa da dificuldade ou longas semanas longe de casa, mas certamente não há boas estatísticas envolvidas: um relatório de 1998 dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA estimou que a taxa de mortalidade para mergulhadores comerciais é 40 vezes a média nacional para outras profissões. Imagina um mergulhador de saturação.

Muitos escapam da morte por um fio e se convencem de que o risco não vale a pena. Hovey recorda momentos de profundo pânico. Neles, “você tem que se acalmar, respirar algumas vezes e dizer: ‘Você é o único que pode se ajudar. Ninguém vai descer aqui e ajudá-lo’”. O mergulhador também já perdeu colegas durante trabalhos, o que não é nada fácil.

Voltando para casa

Uma vez selados na câmara de saturação, mesmo que estejam em um barco, a poucos metros da tripulação de apoio e do ar fresco, os mergulhadores ficam tão isolados que é como se estivessem na Estação Espacial Internacional.

Ainda mais longe, na verdade: leva cerca de 3,5 horas para um astronauta voltar do espaço. Os mergulhadores de saturação têm que se descomprimir por dias, no mínimo.

Em um mergulho no início de sua carreira, quando Hovey estava a uma profundidade de 200 metros, ele descobriu que sua esposa havia abortado. Levaria 11 dias de descompressão para que ele saísse da câmara. Como a família precisava de seu salário (não surpreendentemente, mergulhadores de saturação são bem pagos e podem receber até US$ 1.400 por dia, mais de R$ 5 mil), sua esposa lhe disse para ficar e terminar o trabalho.

Quando os mergulhadores finalmente saem da câmara, precisam de ajuste tanto emocional quanto físico. Solitários, pálidos e desorientados, precisam se adaptar a uma nova dieta comendo menos e se preparar para ver uma família que continuou crescendo e evoluindo longe deles.

Difícil? Muito além disso. Mas, quando o telefone tocar para o próximo trabalho, eles estarão prontos. Talvez sejam atraídos pela ideia de trabalhar nas margens da capacidade humana, enfrentando o perigo com calma e planejamento, membros de um clube muito exclusivo com pouquíssimos membros. Eles são, de muitas maneiras, como astronautas; com a diferença de que ninguém nunca ouviu falar deles. [AtlasObscura]

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