Um vírus comum pode estar causando um novo tipo de doença de Alzheimer: estudo

Pesquisadores desvendaram uma possível relação entre uma infecção crônica no intestino causada por um vírus amplamente disseminado e o desenvolvimento do Alzheimer em certas pessoas. O protagonista dessa descoberta é o citomegalovírus (CMV), um membro da família dos herpesvírus que, embora geralmente adormecido, pode ser um fator inesperado no avanço dessa doença devastadora.
O que é o citomegalovírus e como ele age no corpo
A maioria das pessoas encontra o citomegalovírus durante a infância. Uma vez infectado, o vírus permanece no organismo de forma latente, geralmente sem causar danos evidentes. Aos 80 anos, cerca de 90% da população apresenta anticorpos característicos do citomegalovírus em seu sangue. Esse patógeno se espalha por fluidos corporais, como leite materno, saliva, sangue e sêmen, mas apenas quando está ativo.
No entanto, um pequeno grupo de pessoas pode apresentar um padrão atípico. O estudo aponta que o vírus pode explorar um “atalho biológico” – o nervo vago, uma via que conecta o intestino ao cérebro. Uma vez no sistema nervoso central, o citomegalovírus pode desencadear uma reação imunológica exacerbada, aumentando o risco de danos neuronais associados ao Alzheimer.
Microglia: os guardiões do cérebro sob pressão
As microglias, células imunológicas cerebrais, desempenham um papel fundamental na manutenção da saúde neural. Elas patrulham o cérebro, removendo placas, detritos e neurônios danificados. Contudo, quando acionadas constantemente, essas células podem se tornar destrutivas, liberando respostas inflamatórias que comprometem o tecido nervoso.
Pesquisadores da Universidade Estadual do Arizona identificaram um subtipo de microglia, associado à doença de Alzheimer, caracterizado pela presença do marcador CD83(+). Essas células também estavam ligadas a níveis elevados de imunoglobulina G4 no cólon transverso, sugerindo uma infecção intestinal persistente.
O estudo analisou amostras de tecidos doados por 101 indivíduos, incluindo intestino, nervo vago, cérebro e líquido espinhal. Em 66 desses casos, os doadores tinham Alzheimer. A equipe detectou anticorpos do citomegalovírus nos intestinos desses doadores e traçou a presença do vírus desde o cólon até o cérebro, confirmando padrões semelhantes em um grupo independente de estudo.
Implicações terapêuticas e novos horizontes
A descoberta de que o citomegalovírus pode estar envolvido em um subtipo de Alzheimer abre possibilidades promissoras. O cientista Ben Readhead, líder do estudo, acredita que cerca de 25% a 45% dos casos de Alzheimer podem pertencer a essa categoria específica, caracterizada por placas amiloides, emaranhados de tau e um perfil imunológico distinto envolvendo vírus e anticorpos.
Uma perspectiva empolgante é o uso de medicamentos antivirais para tratar infecções ativas do citomegalovírus no intestino, potencialmente prevenindo a progressão dessa forma de Alzheimer. A equipe também está desenvolvendo um teste de sangue para detectar rapidamente a infecção intestinal, possibilitando intervenções precoces.
Embora quase todos entrem em contato com o citomegalovírus em algum momento da vida, apenas uma minoria parece estar em risco devido a fatores biológicos específicos. Essa descoberta sublinha a importância de estudos que considerem a interação entre sistemas corporais, em vez de focar exclusivamente no aspecto neurológico.
O estudo foi publicado no periódico Alzheimer’s & Dementia: The Journal of the Alzheimer’s Association.
