Aprender ou não aprender?

Por , em 15.02.2015

De acordo com Skinner o fenômeno da aprendizagem pode ser explicado por três abordagens metafóricas características: a metáfora do “desenvolvimento”, a da “aquisição” e a da “construção”.

Na primeira abordagem, denominada metáfora do “desenvolvimento” ou do “crescimento”, o aprendiz é comparado a um terreno fértil, ou seja, possui um potencial biológico para aprender, onde um bom jardineiro, o instrutor ou o professor, poderá cultivar o conhecimento.

Na metáfora da “aquisição” o aprendiz é uma taça vazia, que será preenchida com o saber que se origina do ambiente.

Na metáfora da “construção” o aprendiz possui uma base genética(orgânica) que evolui à medida que estruturas e esquemas, mentais e/ou cognitivos, vão paulatinamente tornando-se mais elaboradas e complexas, como resultado de suas interações com o ambiente natural e social. Nesse caso, o processo não depende exclusivamente do educador. O aprendiz, ao interagir com seu universo, pode realizar, individualmente, essa construção.

Destacam-se, aí, duas questões principais. Uma questão epistemológica, por necessitar de um mundo mental como terreno para as construções, e também, uma questão ontológica, pois não explica como a evolução das estruturas cognitivas ou mentais é capaz de promover modificações no sistema biofísico, e vice e versa.

São críticas direcionadas, principalmente, à Epistemologia Genética do Conhecimento de Jean Piaget quanto ao modo e ao método utilizado para explicar a produção do conhecimento, sem invalidar, evidentemente, os dados experimentais obtidos por Piaget e sua equipe.

Tais críticas estão dirigidas à natureza da explicação dada aos fenômenos estudados quando postula a existência de estruturas internas, estágios universais de desenvolvimento e outros elementos construtores.

Em síntese os principais problemas do Construtivismo, segundo a Teoria de Skinner, são: o método de pesquisa, os pressupostos mentalistas, o dualismo “mente e corpo” e o pensamento estruturalista.

Explicar por que um ser aprende, afirmando que é pelo fato de que esse conhecimento faz sentido, é uma explicação mentalista e internalista, pois pontifica, no mundo interno, a análise dos processos de aprendizagem.

A questão determinante seria: “Por que esse conhecimento faz sentido?” Se essa pergunta for feita ad infinitum, em algum momento a análise migrará, apontando as fontes como localizadas no ambiente.

Na abordagem Behaviorista, qualquer tentativa de se explicar metaforicamente ou estruturalmente um fenômeno não é capaz de explicá-lo suficientemente, pois não considera as variáveis objetivas e relacionais do sujeito com o seu ambiente, sejam elas internas ou externas ao indivíduo, e exigirá a criação de planos não-materiais ou psíquicos para se explicar o processo de desenvolvimento da aprendizagem. Por conta disso, esse desenvolvimento apresenta um elemento biológico agregado ao incremento quantitativo e qualitativo do repertório comportamental do um indivíduo, sendo aquele, derivado da interação deste com o seu ambiente e consigo mesmo.

Os comportamentos podem ser originados e modificados através de três processos assim denominados:

  1. modelagem, através do reforço seletivo de respostas intermediárias, observa-se a inclusão de uma resposta nova no repertório do organismo, até que se alcance a resposta final desejada.
  2. modelação por contingências, caracterizada pela imitação seguida de reforço, desse comportamento imitado.
  3. controle por regras e auto-regras, como o próprio nome diz, se dá sob o controle da linguagem onde as regras podem ser, fórmulas, instruções, conselhos, ordens, máximas, etc. “Uma pessoa pode receber instruções ou regras formuladas por outros, assim como ela pode, observando seu próprio comportamento e o mundo a seu redor, formular regras para si mesma e através delas dirigir seu comportamento”.

Todo o evento capaz de aumentar a probabilidade da emissão de uma resposta é denominado de contingência de reforço, podendo se dar de três formas, que podem propiciar a aprendizagem: a situação da ocorrência do comportamento, o próprio comportamento em si, e as consequências desse comportamento.

Tais contingências possuem um efeito no indivíduo que depende, fundamentalmente, de seus potenciais, na base genética, e também do histórico de seu comportamento.

Dessa forma, ensinar é o ato de facilitar a aprendizagem, ou seja, arranjar as contingências de reforço de forma a facilitar a aquisição de uma resposta adequada; sendo que o esquema em que essas contingências surgem é o principal indicador da frequência na repetição do comportamento aprendido.

O melhor processo para favorecer a aprendizagem é o de reforço pelo sucesso na capacidade de operar no meio. O aprendizado modifica o comportamento do ser, tornando-o mais apto ao ambiente. Esse sucesso estimula um novo aprendizado, recebendo, assim, indiretamente, um reforço do próprio ambiente.

Com base nesse pressuposto, Skinner concebe o uso de máquinas de ensinar, ou seja, aparelhos que dispõe os passos que promovem a aprendizagem, em etapas graduais, na forma de modelos a serem seguidos, coroados por questionamentos específicos, onde o reforço é imediatamente emitido pela máquina a cada resposta correta. A máquina deve ser capaz de tornar o reforço contingente ao comportamento e possibilitar a modelagem e a apresentação gradual do conteúdo, auxiliando o professor nas tarefas simples e repetitivas:

“Há trabalho mais importante a ser feito, no qual as relações da professora com o aluno não podem ser duplicadas por um aparelho mecânico (…) então a professora pode começar a funcionar, não no lugar de uma máquina barata, mas através dos contatos intelectuais, culturais e emocionais daquele tipo todo especial que testemunham a sua natureza de ser humano”.

Para garantir a eficácia das máquinas de ensinar foram apontados alguns critérios norteadores de sua concepção, por exemplo:

Graduar conteúdos complexos numa sequência bem planejada de passos lógicos num crescendo, de tal forma, que o sucesso de um determinado passo sirva de apoio ao passo seguinte.

Cada passo deve ser relativamente pequeno e que não exija um grande esforço para o alcance do sucesso.

Os questionamentos, que pontificam cada passo, não devem ser resumidos em meras questões de múltiplas escolhas, pois tais questões cobram apenas o reconhecimento de uma resposta correta.

As críticas dirigidas às máquinas de ensinar, e também à instrução programada, fundamentavam-se na possibilidade da massificação desse recurso, tornando os estudantes parecidos, como consequência da redução da individualidade, da criatividade e da liberdade ou seja da capacidade de pensar por si mesmos.

Skinner contrapõe: Pensar é um comportamento, e como todo comportamento pode ser modelado e reforçado. Um aprendiz que tem conhecimento sobre os fatores desencadeadores de um determinado comportamento é capaz de selecionar quais tipos de controle aceita e quais rejeita, e é nisso que se baseia um conceito Behaviorista de liberdade.

Ainda, o comportamento inovador pode ser ensinado, modelado e principalmente reforçado, tendo como base a capacidade de resolução de situações novas pela aplicação de conhecimento anteriormente adquirido por modelagem e reforço, tendo como referencial a sua história de vida, ou seja, em quais situações, e com qual frequência, tal resposta foi reforçada anteriormente.

Resolver problemas é uma forma de pensar. Para resolver determinado problema o aprendiz desencadeia uma sequência de comportamentos que tem sua origem na capacidade de identificar o tipo de problema e, a partir daí, maximizar a probabilidade de encontrar a solução.

Ensinar um aluno a estudar é ensinar-lhe técnicas de autogoverno, que aumentem a probabilidade de que o que foi visto ou ouvido seja lembrado.

A aplicação do conceito de condicionamento operante na sala de aula é fundamentalmente uma estruturação das contingências de reforço que possibilitem ao aprendiz, um aprendizado mais rápido, mais fácil e com um número desprezível de consequências aversivas.

O que motiva um ser a estudar são as suas metas, propósitos ou o sentido pessoal do objeto do aprendizado, ou seja, formas do condicionamento operante, tendo em vista que existem vários reforços, que surgem no fim da carreira de estudo, tais como ter um emprego, promoção social, etc.

Porém, devido à grande distância temporal de tais metas, não se pode utilizá-los como reforço em uma situação de instrução. O melhor reforço é aquele contingente ao comportamento.

Alguns estímulos de reforço são criados pelo meio institucional, tais como escalas de gradação das avaliações, receber medalhas, honrarias, etc. que apenas fazem reforçar artificialmente o comportamento de estudar (ou de fraudar as avaliações) o que é completamente diferente do comportamento de aprender.

É comum, também, encontrar consequências aversivas, no comportamento de estudo, tais como a exigência da atenção constante por longas horas e a demanda de um esforço pessoal considerável, que além de cansativo pode ser enfastiante. Para que tais efeitos aversivos do ato de estudar não atuem com dificultadores, toma-se urgente um arranjo adequado dos estímulos de reforço.

Na base de uma metodologia de ensino, está a definição dos comportamentos terminais almejados, que devem coroar o processo de ensino e quais estímulos de reforço serão os mais adequados para se alcançar tais determinantes respostas. A escolha dos reforços mais adequados está intimamente relacionada com o conhecimento da história de vida do sujeito e sua genética, tendo a clareza de que para reforçar determinado comportamento é preciso que ele ocorra.

Para que exista uma tecnologia do ensino efetiva é importante que se compreenda tanto o comportamento do aprendiz quanto o comportamento dos componentes do sistema de ensino no qual ele encontra-se inserido.

A manutenção do sistema quase sempre determina a política adotada.

Para compreender um determinado sistema de ensino, é necessário conhecer as contingências e regras que o influenciam, a ponto de modificar a forma de agir e de pensar dos responsáveis por sua manutenção.

O sistema de ensino utilizado por determinado segmento social possui um valor que está intimamente relacionado à capacidade de promover sua adaptação e garantir a sua sobrevivência e também a evolução de sua cultura, agindo no sentido de maximizar as oportunidades que a cultura tem, não só de lidar com os seus problemas, mas de aumentar sua capacidade de fazê-lo.

Os grupos sociais que desenvolveram uma política de educação universal tiveram sua probabilidade de sobrevivência aumentada e se tornaram mais “fortes”.

Uma cultura será tanto mais forte quanto maior for o número de seus membros que for capaz de educar.

 
Artigo de Mustafá Ali Kanso 

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LEIA A SINOPSE DO LIVRO A COR DA TEMPESTADE DE Mustafá Ali Kanso

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Ciência, ficção científica, valores morais, história e uma dose generosa de romantismo – eis a receita de sucesso de A Cor da Tempestade.

Trata-se de uma coletânea de contos do escritor e professor paranaense Mustafá Ali Kanso (premiado em 2004 com o primeiro lugar pelo conto “Propriedade Intelectual” e o sexto lugar pelo conto “A Teoria” (Singularis Verita) no II Concurso Nacional de Contos promovido pela revista Scarium).

Publicado em 2011 pela Editora Multifoco, A Cor da Tempestade já está em sua 2ª edição – tendo sido a obra mais vendida no MEGACON 2014 (encontro da comunidade nerd, geek, otaku, de ficção científica, fantasia e terror fantástico) ocorrido em 5 de julho, na cidade de Curitiba.

Entre os contos publicados nessa coletânea destacam-se: “Herdeiro dos Ventos” e “Uma carta para Guinevere” que juntamente com obras de Clarice Lispector foram, em 2010, tópicos de abordagem literária do tema “Love and its Disorders” no “4th International Congress of Fundamental Psychopathology.”

Prefaciada pelo renomado escritor e cineasta brasileiro André Carneiro, esta obra não é apenas fruto da imaginação fértil do autor, trata-se também de uma mostra do ser humano em suas várias faces; uma viagem que permeia dois mundos surreais e desconhecidos – aquele que há dentro e o que há fora de nós.

Em sua obra, Mustafá Ali Kanso contempla o leitor com uma literatura de linguagem simples e acessível a todos os públicos.

É possível sentir-se como um espectador numa sala reservada, testemunha ocular de algo maravilhoso e até mesmo uma personagem parte do enredo.

A ficção mistura-se com a realidade rotineira de modo que o improvável parece perfeitamente possível.

Ao leitor um conselho: ao abrir as páginas deste livro, esteja atento a todo e qualquer detalhe; você irá se surpreender ao descobrir o significado da cor da tempestade.

[Sinopse escrita por Núrya Ramos  em seu blogue Oráculo de Cassandra]

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