Cientistas identificaram a origem física da ansiedade no cérebro

Por , em 14.05.2018

Um novo estudo americano investigou a base neurológica da ansiedade no cérebro, identificando células que regulam o comportamento ansioso no hipocampo.

Conhecer a origem física e o papel dessas células oferece esperança de criação de melhores tratamentos para milhões de pessoas que sofrem com ansiedade clínica.

O Brasil é o país com a maior taxa de pessoas com transtornos de ansiedade no mundo todo. Segundo estimativas da Organização Mundial da Saúde, divulgadas ano passado, 9,3% dos brasileiros têm a condição marcada por sintomas como dificuldade de concentração, problemas de sono e preocupação excessiva.

Os resultados foram publicados na revista científica Neuron.

Identificando as células

Para “olhar” dentro do cérebro dos ratos, a equipe de pesquisa usou uma técnica chamada de imagem de cálcio. Em resumo, eles inseriram microscópios em miniatura no cérebro dos animais, para registrar a atividade dos seus neurônios.

Essa atividade foi analisada enquanto os animais percorriam labirintos especiais. Alguns caminhos levavam a espaços abertos e plataformas elevadas – ambientes expostos conhecidos por induzir ansiedade nos ratos, devido ao aumento de sua vulnerabilidade a predadores.

Longe da segurança das paredes, os neurônios dos ratos dispararam, especialmente células em uma parte do hipocampo chamada CA1 ventral (ou simplesmente vCA1). Quanto mais ansiosos os ratos se comportavam, maior era a atividade desses neurônios.

“Chamamos essas células de ‘células da ansiedade’ porque elas só são acionadas quando os animais estão em lugares que lhes são inerentemente assustadores”, explicou o principal pesquisador do estudo, Rene Hen, da Universidade de Columbia (EUA).

Controlando as células

A origem dessas células foi traçada até o hipotálamo, uma região do cérebro que regula, entre outras coisas, os hormônios que controlam as emoções.

Como o mesmo processo de regulação ocorre nas pessoas, os pesquisadores supõem que os mesmos “neurônios da ansiedade” também poderiam fazer parte da biologia humana.

“Agora que encontramos essas células no hipocampo, isso abre novas áreas para explorar ideias de tratamento que não conhecíamos antes”, disse Jessica Jimenez, outra pesquisadora da Universidade de Columbia.

Ainda mais emocionante é que os cientistas já descobriram uma maneira de controlar essas células da ansiedade, pelo menos nos ratos, o que de fato alterou o comportamento observável dos animais.

Manipulação

Usando uma técnica chamada optogenética para apontar um feixe de luz sobre a região vCA1, os pesquisadores conseguiram silenciar as células de ansiedade e estimular uma atitude confiante nos roedores.

“O que descobrimos foi que os animais ficaram menos ansiosos. Na verdade, eles tendiam a querer explorar mais os espaços abertos do labirinto”, afirmou outro membro da equipe de pesquisa, o neurocientista Mazen Kheirbek, da Universidade da Califórnia (EUA).

Alterando as configurações de luz do feixe, os pesquisadores também foram capazes de aumentar a atividade das células de ansiedade, fazendo os animais tremerem de medo mesmo quando seguramente abrigados em ambientes fechados.

Isso provou que esses neurônios de fato desempenham um papel na ansiedade, mas os cientistas não acreditam que a vCA1 é a única região cerebral envolvida nessa condição.

Esperança de tratamento

Os pesquisadores creem que essas células são provavelmente apenas uma parte de um circuito maior pelo qual aprendemos informações relacionadas à ansiedade, o que justifica a necessidade de estudos adicionais.

De qualquer maneira, o próximo passo é descobrir se a mesma chave de controle regula a ansiedade em seres humanos.

Se isso acontecer, os resultados poderão abrir novos caminhos de pesquisa para tratar condições clínicas, por exemplo, ao desenvolvimento de uma droga que silencie os neurônios corretos no cérebro para eliminar a ansiedade. [ScienceAlert, Estadao]

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