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Criatividade e insanidade andam de mãos dadas

Por , em 17.10.2012

Virginia Woolf

Normalmente vistos com um misto de preocupação e desconfiança, transtornos psicológicos podem, de certa forma, ajudar pessoas que trabalham em áreas que exigem criatividade constante (como literatura, dança, fotografia e publicidade). Para o psiquiatra Simon Kyaga, a ideia de que certos fenômenos relacionados à doença do paciente podem ser benéficos “abre novos caminhos para o tratamento”.

O interesse restrito e intenso de uma pessoa com autismo, por exemplo, poderia ajudá-la a manter o foco e a determinação necessários para se fazer um trabalho criativo. Da mesma forma, os pensamentos desordenados de um esquizofrênico poderiam ajudar na busca por originalidade.

“Na psiquiatria e na medicina, há uma tradição de se ver a doença em preto-e-branco e tratar o paciente removendo tudo o que é considerado mórbido”, explica Kyaga. No caso de traços potencialmente benéficos, “médico e paciente devem chegar a um acordo em relação àquilo que deve ser tratado, e a que custo”.

A mente dos escritores

Em estudo publicado recentemente, depois de analisar dados clínicos de mais de 1,17 milhões de pessoas. Kyaga e outros pesquisadores demonstraram que pessoas que trabalham com criatividade têm mais chances de desenvolver transtorno bipolar.

Entre escritores, contudo, a situação se mostra mais complicada: “Ser um escritor estava especificamente associado com um maior risco de esquizofrenia, transtorno bipolar, depressão, transtorno de ansiedade, abuso de drogas e suicídio”, escrevem os autores. Casos como os de Virginia Woolf e Ernest Hemingway, célebres escritores que cometeram suicídio, vêm à mente.

“É importante que nós não ‘romantizemos’ pessoas com problemas de saúde mental, que são muitas vezes retratadas como esforçados gênios criativos”, ressalta Beth Murphy, da entidade de apoio a pessoas com doenças psicológicas Mind. “Sabemos que uma em cada quatro pessoas será diagnosticada esse ano com um problema de saúde mental, e que essas pessoas virão dos mais diferentes cenários, profissões e caminhos”. Murphy não descarta a visão otimista defendida por Kyaga, mas destaca a importância da informação e do apoio de que as pessoas precisam para lidar com doenças da mente.[BBC] [Mind]

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8 comentários

  • Gil Cleber:

    A frase “É importante que nós não ‘romantizemos’ pessoas com problemas de saúde mental, que são muitas vezes retratadas como esforçados gênios criativos” é essencial nesse contexto: existe uma tendência, sim, de tratar loucos como artistas. Virgínia Woolf, a grande escritora inglesa, era depressiva, mas não doida. Bispo do Rosário era doido de pedra, mas foi transformado em “grande artista” por críticos de arte imbecis.

  • Eduardoa Dallabrida:

    A loucura move o mundo,a loucura move a literatura…imagine o que uma mente tomada pela insânia pode pensar!

  • Lucas Noetzold:

    sim, mente não pode ser vista como algo “preto no branco”.

  • Navi Csa:

    Ter uma idéia revolucionária é ser insano? ou precisa ser insano para ser um revolucionário?
    Loucura se dá em usar esta insanidade para cometer algo ruim que pode prejudicar alguém. Muitos cientistas foram considerados loucos com as suas teses que logo mais foram comprovadas verdadeiras cientificamente, não se pode descartar qualquer tipo de insanidade, pois nunca sabemos qual a tendência da pessoa na sua ”viagem” de momentos insanos.

  • Alberto Campos:

    Não acho isto muito certo. Talvez os criativos sejam um pouco insanos, mas os insanos não são nada criativos.

  • Lucas Noetzold:

    Insanidade é um ponto de vista, não vejo como algém pode julgar uma consciência como certa ou errada se este algém não detiver todo o conhecimento do universo, ainda assim, não existe nenhuma diretriz que dita qual deve ser o objetivo maior de uma mente pensante, o que novamente nos leva a afirmação que não se pode julgar um modo de raciocínio como correto ou não.

    • Dennis Pinheiro:

      Ponto de vista? Todos os estudos em Psiquiatria e Psicologia são o quê? “Ausência de evidência não significa evidência de ausência” – Sagan.

    • Lucas Noetzold:

      Todos os estudos de psiquiatria são baseados no “normal” (o que é mais comum), mas por que isso necessariamente significa que um jeito de pensar é errado, apenas por que não se encaixa na visão padrão de mundo de outros. Como falei, a única forma de se julgar uma maneira de pensamento como certa ou errada é quando analisada sobre um objetivo, isto é, existem visões de mundo que podem ser julgadas erradas caso o objetivo maior destas seja definido. A prpópria linha de pensamento que leva uma pessoa a cometer suicídio só pode ser considerada errada caso se definisse que um dos objetivos de uma consciência no universo seja preservar-se (é um fato estranho de se assimilar mas nem por isso deixa de ser verdade). Quem se acha no direito de julgar algo certo ou errado também deve achar que sabe a razão de todos estarmos aqui, que na verdade, se filosofarem o suficiente, concluirão que não pode existir.

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