“Dedos de Lúcifer”, a iguaria potencialmente mortal e caríssima de Portugal

Por , em 1.10.2018

Na Costa Vicentina, em Portugal, mergulhadores arriscam a vida para colher percebes, uma iguaria também conhecida como “dedos de Lúcifer”.

Por quê?

Aparentemente, é tão rara e gostosa que um restaurante pode cobrar € 100 (cerca de R$ 470, no câmbio atual) por um prato desse crustáceo parente das cracas.

Exclusivamente perigosa

O apelido vem da aparência da iguaria. Os percebes lembram os dedos grossos do diabo, com estruturas estranhamente semelhantes a garras.

O que é realmente particular sobre eles, no entanto, é que só podem crescer e se multiplicar em rochas na zona entremarés, a área entre a água alta e baixa do mar, onde ondas quebrando os alimentam com plâncton.

Esses crustáceos não podem ser cultivados, e o mar agitado torna notoriamente perigoso para os mergulhadores colhê-los.

É possível coletá-los descendo as falésias com uma corda, ou mergulhando a partir de um barco. Há pouco consenso sobre qual técnica é a menos perigosa. Aqueles que descem por penhascos de 100 metros na maré baixa correm o risco de cair ou serem esmagados contra as rochas pelas fortes ondas.

A alternativa é ancorar a uma distância segura do paredão quando a maré estiver um pouco mais alta, e depois nadar em direção à face do penhasco, cronometrando cada esforço para colher os percebes ao ritmo do oceano.

Contra a fúria do mar

Por causa das riquezas culinárias e monetárias que essa iguaria oferece ao mercado, os mergulhadores aproveitam ao máximo qualquer clima mais ameno para caçá-la.

“Até um dia ruim no mar é melhor que um bom dia no escritório”, disse Fernando Damas à BBC, um mergulhador que deixou sua lucrativa carreira como designer industrial há 19 anos para mergulhar em busca de percebes em tempo integral.

Na Costa Vicentina, um ditado alerta: “Nunca dê as costas a Deus quando mergulhar por dedos de Lúcifer”. Segundo João Rosário, mergulhador comercial, Deus, neste caso, se refere ao poder do mar.

“Quando você mergulha por percebes e vira as costas para a imprevisibilidade do oceano, você provavelmente será ferido ou morto. Há muitos casos de mergulhadores ficando inconscientes e se afogando. Os ‘sortudos’ apenas quebram um braço ou perna ou sofrem escoriações onde as pedras cortam seus trajes de mergulho”, afirmou.

Trabalho em grupo

Os mergulhadores trabalham geralmente em pares por razões de segurança. Damas explica que é preciso confiar em seu parceiro com sua vida, como faz com Tiago Craca, seu sócio há mais de seis anos.

Eles formam a equipe perfeita, compartilhando decisões sobre quando é seguro mergulhar e quando devem encerrar o dia.

“Ele tem metade da minha idade e já salvou a minha vida. Naquele dia, minha cabeça estava cheia de outros pensamentos. Você não pode se preocupar com outras coisas – é perigoso perder o foco. Meu pé ficou preso em uma fenda. Felizmente Tiago percebeu que eu estava debaixo d’água por muito tempo e veio me procurar”, contou à BBC.

Regulamentação

Em Portugal, a colheita de percebes é altamente regulamentada. Todas as atividades de mergulho são controladas pela Associação dos Marisqueiros da Vila do Bispo. Apenas 80 licenças de mergulho são emitidas por ano, com a maioria dos mergulhadores vivendo na região, ou na cidade costeira vizinha de Sagres.

O mercado de peixe em Sagres é o único local onde os mergulhadores podem legalmente vender os crustáceos a proprietários e fornecedores de restaurantes. A colheita diária é restrita a 15 kg por mergulhador, com preços entre 30 e 60 euros por kg, dependendo da qualidade e tamanho dos percebes.

Apesar dessas leis rigorosas, a caça furtiva de percebes continua abundante; é um negócio lucrativo e a polícia marinha não pode patrulhar todos os lugares. É também um negócio secreto; nem mesmo os mergulhadores licenciados compartilham onde mergulharam ou planejam mergulhar por causa da raridade da iguaria.

Um mergulhador da cidade costeira de Portimão, 55 km a leste de Sagres, abriu o jogo com a BBC: “Não me importo com as regras. A Costa Vicentina pertence ao povo – não ao governo. Os percebes são nosso caixa eletrônico no mar. Temos o direito de sacar nosso dinheiro”.

A iguaria vale tudo isso?

Enquanto outras espécies de percebes podem ser encontradas em algumas partes do mundo, como o Canadá, eles são considerados uma iguaria rara na Espanha e Portugal, onde são muito apreciados.

Dado a aparência bizarra e o perigo envolvendo a coleta dessa iguaria, é justo se perguntar se ela vale tanto a pena assim.

De acordo com Piet van Niekerk, repórter da BBC, sim. “Imagine uma tarde preguiçosa em um feriado na praia: o sol está começando a se pôr e uma leve brisa traz o cheiro do mar. Esse é o sabor dos percebes”, escreveu.

Só há uma maneira de comer os “dedos de Lúcifer” – com os próprios dedos. Sergio Meudes, gerente do restaurante Marisqueira Azul em Lisboa, esclarece que é preciso agarrar com firmeza o crustáceo, e rasgar a carne de seu invólucro borrachudo para comê-la.

Também há um consenso entre os portugueses da melhor (ou única) maneira de cozinhar percebes: em água fervente com sal por não mais do que o necessário para rezar um Pai Nosso. “Mesmo que você ore devagar, nunca deve levar mais de um minuto”, disse Adriano Lemes, chef do Marisqueira Azul. “Não adicione temperos e especialmente nenhum molho”, enfatizou. [BBC, OddityCentral]

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