Desculpas: elas realmente melhoram a situação?

Por , em 27.02.2012

Nos últimos dias, o presidente Barack Obama pediu desculpas ao Afeganistão pelas tropas da OTAN que queimaram Alcorões; a chanceler alemã Angela Merkel pediu desculpas aos parentes das 10 pessoas que foram mortas por um grupo neo-nazista; a Igreja Mórmon disse que vai disciplinar os membros que podem ter postumamente batizado Anne Frank; e um golfista profissional pediu desculpas por cuspir no campo.

Na melhor das hipóteses, desculpas públicas podem restaurar relacionamentos ou até mesmo melhorá-los. Na pior das hipóteses, o autor da gafe acaba tendo que pedir desculpas pela tentativa fracassada e a ofensa inicial.

Mas mesmo uma péssima tentativa de desculpas é melhor que nada. “Em muitas situações, um pedido de desculpas inicial,
mesmo que estranho, pode ser resolvido com um esforço da outra parte, especialmente se ela acredita que a pessoa que faz o pedido de desculpas está sendo sincera”, disse a advogada e especialista em ética empresarial, Lauren Bloom. “Quando algo dá errado, as pessoas muitas vezes precisam falar sobre isso mais de uma vez. Mesmo uma desculpa desajeitada pode abrir a porta a um diálogo de cura”, explica.

Os especialistas concordam: pública ou privada, a sinceridade é o elemento mais essencial de um pedido de desculpas.

Isso adiciona uma camada de complexidade a desculpas públicas: não faltam opiniões públicas para sugerir segundas intenções.

“Por exemplo, quando o astro da liga americana de futebol Michael Vick tentou se desculpar pelo abuso de animais, muitas pessoas sugeriram que ele estava apenas tentando voltar nas boas graças da liga esportiva para que pudesse jogar de novo”, disse Ryan Fehr, professor de administração na Universidade de Washington.

Tem também o caso da estrela de golfe Keegan Bradley, que se desculpou no Twitter pelo seu hábito de cuspir. “É como um reflexo, eu nem sequer sei que estou fazendo isso”, ele twittou.

O incidente tornou-se tão público que o jogador sequer acreditava em quantas pessoas se importavam com isso.

Como o mundo inteiro está assistindo, figuras públicas muitas vezes se esforçam demais em seus discursos, e o pedido de desculpas não parece sincero.

Mas, quando bem feito, os efeitos de um pedido de desculpas são esmagadoramente positivos. “O que um pedido de desculpas faz é dividir a ação e a pessoa”, disse Fehr. “Ela diz: a ação foi ruim, mas eu não sou realmente uma pessoa má, tenho boas intenções. E assim as pessoas podem recuperar o seu status na comunidade. E, para a vítima, permite que o processo de perdão comece”.

Então, qual é a desculpa perfeita? Especialistas têm suas próprias definições, mas compartilham elementos comuns:

– Momento certo: a pessoa que pede desculpas precisa esperar tempo suficiente para determinar exatamente quando o pedido de desculpas será a seu favor;
– Arrependimento genuíno;
– Expressão de lamento: a linguagem pode variar e é mais eficaz quando corresponde à da vítima;
– Fazer as pazes: ações futuras também são importantes. Se o autor mostra a vítima que fará melhor da próxima vez, o perdão é mais fácil;
– Assumir a responsabilidade;
– Conexão emocional: reconhecer a dor que você causou ajuda a vítima e o agressor a se conectar;
– Disposição para ouvir a vítima.

Ao contrário, não é interessante ficar na defensiva, negar ou usar o condicional. Por exemplo, políticos muitas vezes cometem esse erro com frases como “Eu peço desculpas se ofendi alguém”. “Sua sinceridade imediatamente entra em questão”, disse Bloom. “Você sabe que tem de pedir desculpas ou não estaria fazendo isso”.

Se um pedido de desculpas funciona ou não depende, em grande parte, da pessoa ou das pessoas que tem que lhe desculpar. Reações a desculpas variam amplamente.

“Quando pesquisamos 500 pessoas sobre o que elas querem ouvir em um pedido de desculpas, as suas respostas caíram em cinco áreas”, disse a psicóloga Jennifer Thomas. “Eu pensei que uma das cinco categorias iria ter a maioria dos votos, que é ‘Me desculpe’, mas nenhuma das cinco tem mais de 28% de interesse em ser ouvida”.

Ou seja, é difícil saber o que você tem que dizer pro pedido de desculpas dar certo. Mas se você quiser mesmo ser desculpado, sinceramente, vai arrumar um jeito de demonstrar isso, certo?[LiveScience]

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7 comentários

  • Silvio: Depende de quando, como e de quem.:

    Depende de quando, como e de quem.

    Os famosos e os importantes usam o pedido de desculpas como um marketing do “politicamente correto” para “ficarem bem” com a opinião pública, quando possuem certeza absoluta de que elas serão aceitas, mesmo que em parte.

    Nunca vi um ministro, um chefe, um juiz, um escritor, um administrador público, um policial etc., pedirem desculpas por falhas cometidas. (Políticos do mensalão, nem pensar).

    E se o fizerem, tirarão do bolso do colete os motivos mais esfarrapados possível para justificarem seus erros.

    Um louvável pedido de desculpas foi do rabino Henry Sobel, quando cometeu o furto de gravatas nos EUA.
    Ele pediu sinceras desculpas à comunidade judaica e ao povo brasileiro, dizendo que errou, não sabendo por que, na condição de rabino e de situação financeira estável, cometera aquele ato.

    Não procurou oferecer motivos para se justificar. Apenas disse que errou.
    Mais tarde sua esposa informou à comunidade israelita que Sobel andava muito estressado e tomando antidepressivos.

    Já pedi desculpas sinceras a quem ofendera e fui muito mais humilhado do que humilhei, tendo que engolir goela abaixo a frase carregada de desprezo:
    “_Nunca vou te perdoar”

    E por que isso ocorre?
    Talvez porque no momento a “fervura” estava em pleno vapor. Tivesse eu esperado que se esfriasse um pouco, a reação poderia ser diferente.

    Muitas pessoas se retraem de pedir perdão pelo medo de serem massacradas.

    Bom é pedir desculpas, sempre, pois alivia os sentimentos.
    Mas se o ofendido se achar no direito de nos pregar aquela lição de moral, a melhor política é dizer:

    “_Muito bem… eu já lhe pedi sinceras desculpas. Mas se não puder aceitá-las, o problema agora é somente seu”.

    Abs:
    Silvio

  • Flor de Lis:

    Creio que o arrependimento sincero é o primeiro passo para um pedido de desculpas, e penso que daí é possível que a outra parte conceda desculpas à outra. Mas penso que o que não vale é ficar errando a vida toda e lançando mão de pedidos de desculpas a todo instante. Penso que o melhor é tentar não errar mais.

  • Jonatas:

    Certo dia o Papa João Paulo pediu publicamente desculpas aos atos contra Galileu Galilei, isso fez diferença? Não pra Galileu, que morreu numa “prisão” católica, mas fez diferença ao seu legado, mas o mais importante é que ajudou a pelo menos um pouco mais se erguer uma bandeira de paz entre católicos e cientistas.

  • Jonatas:

    É importante pedir desculpa quando realmente há arrependimento. O mais importante que isso é o ato de perdoar, o ato de perdoar é mais satisfatório ao perdoador do que ao perdoado.

  • Rita:

    Nem sempre um pedido de desculpas é aceito, mas jamais devemos deixar de pedir.

  • Paulo Eduardo:

    Bom… Já é um começo!!

  • Celiane:

    é aquela coisa: dependendo do erro e da boa vontade do que errou, dá pra perdoar. O que não vale é sempre passar a mão na cabeça de quem errou!

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