A melhor dieta para a saúde do planeta versus a melhor dieta para a saúde humana

Por , em 29.01.2019

Dieta e saúde estão interligadas – tanto a nível pessoal quanto ambiental. Nos últimos anos, a tese central que tem sido debatida é a seguinte: se comermos menos carne, é melhor para ambos.

Quão menos?

Um novo relatório da Comissão EAT-Lancet, compilado por alguns dos principais nomes da ciência nutricional mundial, fez a seguinte recomendação: menos de 15 gramas de carne vermelha por dia.

Isso é cerca de 100 gramas – ou uma única porção de carne vermelha – por semana. E muito menos do que grande parte do mundo ocidental consome, em média.

“Analisamos todas as evidências sobre dieta e saúde” e determinamos que a carne vermelha deve ser limitada “a um hambúrguer por semana”, disse o Dr. Walter Willet, professor de nutrição e epidemiologia da Universidade de Harvard (EUA) e principal autor do relatório da Comissão EAT-Lancet. “Isso pode parecer um pouco extremo para muitos americanos, mas está de acordo com a dieta mediterrânea tradicional, quando os gregos eram as pessoas mais saudáveis do mundo”, completou.

Saúde planetária

O argumento ambiental é o seguinte: a agricultura é responsável por até 30% das emissões de gases do efeito estufa no mundo, e grande parte das emissões vem da produção de carne vermelha. Muita terra e água são necessárias para cultivar os grãos para alimentar o gado.

Conforme estima o World Resources Institute, a produção de carne bovina usa 20 vezes mais terra e emite 20 vezes mais gases do que a produção de grãos por grama de proteína. Se todas as pessoas nos EUA trocassem sua ingestão de carne bovina por feijão, isso por si só seria mais de meio caminho para o país cumprir as metas de redução de gases causadores do efeito estufa estabelecidas durante o governo Obama.

O relatório também pede limites sobre o consumo de outros produtos animais, como leite e frango.

Saúde humana

Mas a saúde climática não é a saúde humana. As recomendações apresentadas no relatório provocaram controvérsia e geraram a ira das indústrias da carne e da agricultura animal.

“As recomendações radicais da Comissão [EAT-Lancet] para limitar drasticamente o consumo de carne e produtos lácteos teriam sérias consequências negativas para a saúde das pessoas e do planeta”, disse Kay Johnson Smith, presidente e CEO da Animal Agriculture Alliance.

O grupo divulgou sua própria análise em resposta ao relatório, concluindo que carne e laticínios fornecem “uma nutrição inigualável para corpos, cérebros e ossos saudáveis”.

Por sua vez, o relatório do EAT-Lancet apontou os malefícios da carne, argumentando que “altos riscos de doenças cardiovasculares e outros resultados associados ao alto consumo de carne vermelha são provavelmente devidos em parte a múltiplos constituintes dos alimentos de fontes animais de proteína”, incluindo gordura saturada e carcinógenos induzidos pelo calor.

Troque carne por…

A chave para continuar a ter uma dieta saudável sem carne está na substituição – é preciso escolher os alimentos certos para ocupar esse lugar vazio. O relatório da Comissão conclui que as pessoas devem comer mais nozes, frutas, verduras e legumes, como feijões, ervilhas e lentilhas.

“É tudo sobre o substituto”, diz Willett. “Se substituirmos a carne vermelha por um monte de amido branco, como arroz branco, pão branco, batata e açúcar, isso não será uma vitória”.

Willett cita ainda um estudo que descobriu que pessoas que comem proteínas vegetais (como nozes e feijões) em vez de proteína animal têm menor risco de morte por doença cardíaca.

Por fim, o relatório sugere que, se as pessoas ao redor do mundo mudarem para este padrão de dieta, com menos carne vermelha, grãos refinados e açúcar e mais alimentos saudáveis como frutas, legumes e verduras, 11 milhões de mortes prematuras por ano poderiam ser evitadas.

De qualquer forma, diga não à carne processada

Enquanto a associação da carne vermelha a doenças não é definitiva, uma vez que é difícil separar o efeito independente que a carne pode ter sobre a nossa saúde, há uma área em que a ciência é mais clara: a ligação entre carnes processadas e riscos graves à saúde.

Carnes processadas – como bacon, salsicha e frios – já foram relacionadas principalmente a um risco maior de doença cardíaca e diabetes tipo 2. Os culpados parecem ser os conservantes e o processamento industrial desses alimentos.

No geral, as conclusões da Comissão se alinham ao que muitos especialistas em saúde vêm dizendo há algum tempo: um padrão saudável de alimentação engloba uma ampla gama de alimentos – incluindo frutas, verduras, grãos integrais, legumes, gorduras e nozes saudáveis e sementes, e não só um monte de carne.

Ainda que o debate sobre quanta carne vermelha é realmente boa para nós não esteja finalizado, há indícios de que o “menos” está vencendo. Por exemplo, nos EUA, as vendas de substitutos para a carne à base de plantas estão crescendo e já ultrapassam US $ 3,7 bilhões.

O relatório da Comissão EAT foi publicado na revista científica The Lancet. [NPR]

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