Por que não paramos de comer carne?

Por , em 29.12.2018

Você provavelmente já sabe que a carne bovina é responsável por 41% das emissões de gases do efeito estufa; que a pecuária é responsável por 14,5% do total de emissões globais; que o gado produz metano, um gás do efeito estufa 25 vezes mais potente que o dióxido de carbono; que terras são desmatadas para dar lugar a gado e ao cultivo de grãos que engordam o gado, o que por sua vez leva a uma capacidade perdida de remover o dióxido de carbono da atmosfera.

Talvez você tenha até lido o alarmante relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas da ONU (IPCC, na sigla em inglês), sugerindo que mudar nossas dietas poderia contribuir com 20% do esforço necessário para impedir que as temperaturas globais subam 2° C acima dos níveis pré-industriais.

Então, sabendo de tudo isso, por que cargas d’água estamos comendo mais carne do que nunca?

Aumento do consumo

O consumo global de carne bovina deve aumentar na próxima década, de acordo com as projeções da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO).

Um relatório conjunto prevê que a produção global aumentará 16% entre 2017 e 2027 para atender à demanda. O crescimento é desigual: o consumo deve aumentar 8% nos países desenvolvidos e 21% nas regiões em desenvolvimento. O consumo na Ásia, por exemplo, está projetado para subir 24%.

A CNN seguiu os dados da OCDE-FAO em todo o mundo e selecionou cinco países nos cinco continentes para perguntar a consumidores, açougueiros, interessados na indústria e cientistas quais são seus pensamentos sobre o futuro da carne bovina.

China


Houve um tempo na China em que a carne bovina era apelidada de “carne do milionário”. Esse tempo passou.

Um boom econômico sustentado no país mais populoso do mundo resultou em um enorme aumento no consumo de carne. A carne de porco continua a ser o principal mercado, mas o consumo de carne bovina por pessoa aumentou mais de seis vezes, e o consumo global mais de sete vezes desde 1990.

De acordo com Henning Steinfeld, da FAO, o consumo chinês ainda está bem abaixo da média mundial (por exemplo, é seis vezes menor que o dos EUA) e sua taxa de crescimento está diminuindo. No entanto, dado o tamanho da população da China, essa expansão causou mudanças sísmicas na indústria mundial.

Hong Kong, como região administrativa especial com uma história colonial britânica, dá algumas pistas para imaginar a trajetória futura da China. Lá, come-se mais carne bovina do que no continente e uma dieta ocidental é mais estabelecida.

O açougueiro Tsang Tik-sheung, que trabalha no Sheung Wan Market e no Cooked Food Centre, diz que percebeu que os gostos estão se movendo em direção a produtos estrangeiros. “As pessoas (jovens) normalmente gostam de carne de churrasco, carne bovina fresca, bifes”, cortes que exigem importações estrangeiras com uma textura mais macia do que a carne localmente mais fibrosa.

David Yeung, que fundou a startup Green Monday, voltada para uma vida sustentável, afirma que o número de “flexitarianos” – pessoas que comem uma dieta em grande parte vegetariana com carne ou peixe ocasionais – em Hong Kong “aumentou dramaticamente nos últimos seis anos”, impulsionado pelo aumento da conscientização sobre saúde alimentar, sustentabilidade e disponibilidade de opções.

Na China continental, a população que procura fazer mudanças na dieta é tipicamente mais instruída e rica.

O Ministério da Saúde chinês criou diretrizes nutricionais em 2016 para reduzir pela metade o consumo de carne no país, mas não se sabe se elas terão algum impacto.

Estados Unidos


Os EUA comem mais carne do que qualquer outro país; mais do que a África, Oceania, Japão, Argentina e Filipinas juntos.

Tanto o consumo quanto a produção devem subir apenas na próxima década. O consumo por pessoa, por enquanto, continua a diminuir desde o seu pico nos anos 1970.

Em novembro, o Texas, principal estado produtor americano, tinha 2,68 milhões de cabeças de gado se empilhando em pastos confinados de larga escala. Esses confinamentos reduzem as emissões de gases por quilo de carne. São ambientes de cultivo intensivo onde grãos, silagem, feno e às vezes suplementos de proteína são usados para levar o gado até o peso de abate em um curto período de tempo. Menos terra por animal é necessária, mas o modelo traz outros desafios ambientais.

Por exemplo, fertilizantes usados para cultivar rações, junto com esterco de gado, podem produzir óxido nitroso, um gás de efeito estufa cerca de 200 vezes mais potente que o dióxido de carbono, esclarece Michael Webber, diretor interino do Instituto de Energia da Universidade do Texas.

“Eu acho que a carne é muito barata, acho que a água é muito barata. Acho que tudo é muito barato”, acrescenta. “Todos os recursos estão precificados em um ponto nos EUA que convida ao desperdício”.

Raymond Butler é dono da Nixon Livestock Commission Inc, uma casa de leilões a cerca de 72 quilômetros a leste de San Antonio. Ele é profundamente cético em relação a qualquer ligação entre as emissões de gado e o aquecimento global. “Eu não acredito que a ciência possa estar certa”, diz ele. “Nós tivemos gado nesta Terra e nós tivemos gases nesta Terra desde sempre”.

Dito isso, o ponto de vista de Butler não reflete o de todos os texanos. Um estudo de 2018 da Universidade de Yale descobriu que 70% dos texanos acreditam no aquecimento global e 56% pensam que ele é causado principalmente por atividades humanas.

Argentina


Francis Mallmann, o chef mais proeminente da Argentina, fez seu nome como um rei do churrasco, içando carcaças de animais inteiros como velas ao vento, permitindo que o calor e a fumaça dançassem sobre a carne e a gordura.

Então, foi certamente uma surpresa quando ele disse em uma entrevista recente que achava que não comeríamos mais carne em 30 anos.

“Pelo que vejo nos meus restaurantes – que, obviamente, são de alta qualidade -, sinto que a mudança será rápida”, disse ele à CNN. “Nós estaremos comendo muito menos carne ou nenhuma”.

Todos conhecem a imagem idílica do caubói gaúcho dos pampas com seu bife sangrento. Ela ficou paralisada por um bom tempo, no entanto. Após uma queda sustentada na produção, coincidindo com a crise financeira global, estima-se que a Argentina finalmente ultrapasse os níveis pré-2009 até 2027.

Além disso, o consumo anual por pessoa está projetado para diminuir, tendo caído mais de 15 kg desde 1990.

Mallmann afirma ter recebido uma reação negativa por seus comentários. Mas ele insiste que sua audiência é global e está avançando em um novo livro de culinária vegetariana e vegana.

Então, é responsabilidade dos chefs orientar os gostos dos clientes? “Claro”, diz Mallmann. Ele cita o chef francês Alain Passard, que tirou a carne vermelha do cardápio de seu restaurante L’Arpege em 2001, dizendo que estava entediado e queria explorar mais vegetais. O restaurante manteve todas as suas três estrelas Michelin.

“Eu acho que é muito importante na vida aprender a fechar as portas, gentilmente, sem batê-las”, acrescenta o argentino. “Talvez sejam necessárias muitas, muitas, muitas portas antes que eu tome uma decisão radical, mas é um novo caminho”.

França


Reza a lenda que os açougueiros medievais de Limoges eram tão ricos que emprestavam dinheiro aos reis. A cidade, no centro da França, é a casa da apreciada carne de Limousin e até hoje a capital francesa da carne, segundo o açougueiro local François Brun.

A França produz mais carne bovina do que qualquer outro país da União Europeia. Os seus cidadãos também comem cerca de 60% mais carne bovina por pessoa do que a média da UE, de acordo com dados da Comissão Europeia. Mas espera-se que o consumo, a produção e as exportações de carne caiam na próxima década em todo o continente.

Os açougues em Limoges podem não ter o mesmo poder que exerciam outrora, mas ainda fazem a maior festa da cidade, a La Frairie des Petits Ventres, um festival anual de delícias carnudas. Michel Toulet é presidente da Association Renaissance du Vieux Limoges, a instituição organizadora do evento. “Ouvi dizer que estamos criando carnívoros. Sinto muito, temos dentes caninos para comer carne. O homem é um onívoro”, disse.

Então, o que esse pessoal acha de consumir menos carne? “Posso acreditar que precisamos comer menos carne, mas por outro lado você precisa comer melhor carne”, argumenta Brun. E quais as consequências? “Se consumirmos menos carne, isso afetará os agricultores”, especula. “Isso pode trazer outra crise”.

A indústria da carne na França está certamente se defendendo. Em junho, uma confederação nacional representando açougueiros enviou uma carta ao Ministério do Interior citando atos de vandalismo cometidos por ativistas veganos, chamando os incidentes de “uma forma de terrorismo”.

“Os movimentos vegetarianos e veganos não são muito bem aceitos em Limoges ou Limousin, e isso cria uma tensão”, diz Toulet. Brun diz que os manifestantes são poucos, mas “fazem muito barulho”. “[No entanto] Eu não acho que isso realmente ameace a reputação de Limoges”, finaliza.

África do Sul


“Temos 11 idiomas oficiais. Braai é uma palavra que usamos em todos os 11”, diz Jan Scannell, o homem responsável pelo National Braai Day, uma campanha para renovar o Heritage Day, feriado de 24 de setembro na África do Sul. O braai é uma forma de churrasco e uma tradição nacional.

Os sul-africanos comem aproximadamente a mesma quantidade de carne bovina por pessoa que a média europeia e quase três vezes mais que a média africana.
“É muito mais fácil participar de iniciativas de sustentabilidade em países do primeiro mundo”, argumenta Scannell. “Não estou tentando dar desculpas para a África do Sul. Eu acho que em termos de um país de terceiro mundo muito bem desenvolvido, eu diria que nossas barras estão bem limpas”.

A África do Sul tem exemplos de produção de carne altamente industrializada e de alta intensidade. Ao sul de Joanesburgo, encontra-se uma produção confinada de carne bovina Karan, supostamente a maior do mundo, com 160.000 bovinos e 500.000 cabeças enviadas para abate anualmente.

Em toda a África Subsaariana, há ventos contrários, entretanto. De acordo com um relatório da FAO de 2013, o gado subsaariano produz a segunda maior quantidade de metano por quilo de carne, enquanto a região tem mais sistemas de produção de carne ineficientes do que qualquer outro lugar.

Vários fatores podem explicar a ineficiência da produção, incluindo gado usado para puxar equipamentos agrícolas ou mantido para ocupar terras para manter uma reivindicação sobre ela. Depois, há o ciclo de vida do gado criado a pasto, ocupando mais terras e alcançando o peso de abate mais tarde do que os animais em confinamento.

“As maiores melhorias potenciais na produtividade da criação de carne bovina estão, de fato, no mundo em desenvolvimento”, diz Richard Waite, analista do World Resources Institute. Aumentar a produtividade não significa necessariamente confinamentos intensivos; a qualidade da pastagem e a melhoria dos cuidados veterinários podem desempenhar um papel também.

Na próxima década, os dados da OCDE-FAO preveem que a produção de carne bovina em toda a África crescerá a uma taxa maior (2,34% ao ano) do que qualquer outro continente. Em 2017, o africano médio comeu apenas cerca de 3,78 quilos de carne bovina, o que é consideravelmente menos do que a média global de 6,41 quilos. [CNN]

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