Estes são nossos arrependimentos que mais perduram

Por , em 2.06.2018

De acordo uma nova pesquisa liderada pela Universidade de Cornell (EUA), os arrependimentos humanos mais duradouros são aqueles que derivam de nossa incapacidade de viver de acordo com nossos “eus ideais”.

Em outras palavras, não cumprir expectativas, objetivos e aspirações assombram as pessoas mais do que não cumprir seus deveres, obrigações e responsabilidades.

“Quando avaliamos nossas vidas, pensamos se estamos indo em direção ao nosso eu ideal, nos tornando a pessoa que gostaríamos de ser. Esses são os arrependimentos que perduram, porque são o que você olha através do para-brisa da vida”, disse o principal autor do estudo, Tom Gilovich, professor de psicologia na Universidade de Cornell.

Os três “eus”

A pesquisa baseia-se na ideia de que três elementos compõem o senso de identidade de uma pessoa: o eu real (quem você é), o eu ideal (quem gostaria de ser) e eu conveniente (quem você deveria ser).

O eu real é constituído pelos atributos que uma pessoa acredita possuir. O eu ideal são os atributos que uma pessoa gostaria de possuir idealmente, como esperanças, objetivos, aspirações ou desejos. O eu conveniente é aquilo que uma pessoa acha que deveria ser baseada em seus deveres, obrigações e responsabilidades.

“Certamente, há certos fracassos em viver de acordo com nossos eus convenientes que são extremamente dolorosos e podem assombrar uma pessoa para sempre. Tantas grandes obras de ficção recorrem precisamente a esse fato. Mas, para a maioria das pessoas, esses tipos de arrependimentos são menores em relação aos fracassos do seu eu ideal”, explica Gilovich.

Por exemplo, como o “eu conveniente” diz respeito a quem você acha que deveria ser, você pode considerar um fracasso não frequentar a academia, se pensa que deveria ser uma pessoa mais saudável que se exercita mais. Um fracasso do “eu ideal” é geralmente mais amplo e profundo, como nunca ter feito a faculdade dos seus sonhos.

Inações

O novo estudo é um desenvolvimento de pesquisas anteriores feitas por Gilovich nos anos 1990, que indicaram que as pessoas tendem a se arrepender mais das coisas que não fizeram, em vez das coisas que fizeram.

“No curto prazo, as pessoas se arrependem mais das suas ações do que das inações. Mas, a longo prazo, a inação é um arrependimento que dura mais tempo”, resume Gilovich.

Com base nessas ideias, Gilovich e seu colega Shai Davidai levantaram a hipótese de que os remorsos mais duradouros da vida provêm de discrepâncias entre os eus reais e ideais. “O fracasso em ser seu eu ideal é geralmente uma inação. É ‘desperdiçar’ seu tempo e nunca conseguir aprender a codificar ou tocar um instrumento musical”, exemplifica Gilovich.

Resultados

Através do curso de seis estudos que descreviam as diferenças entre o eu conveniente, atual e ideal, os pesquisadores pediram aos participantes para listar e categorizar seus arrependimentos.

As pessoas experimentaram arrependimentos sobre seu eu ideal com muito mais frequência do que o eu conveniente (72% versus 28%).

Mais da metade dos indivíduos mencionou mais arrependimentos ideais do que arrependimentos condizentes com seus deveres quando solicitados a listar seus remorsos.

E, quando os participantes tiveram que nomear seu maior arrependimento na vida, 76% mencionaram um arrependimento relacionado ao seu eu ideal.

Idealizando e remoendo

Por que os fracassos do eu ideal geram esse arrependimento duradouro?

“As pessoas são mais propensas a tomar medidas ativas para corrigir os arrependimentos relacionados ao seu eu conveniente, então esses arrependimentos são mais propensos a serem arquivados como resolvidos e, portanto, parecem menos incômodos com o tempo”, disse Gilovich.

Além disso, as expectativas do eu conveniente geralmente são mais concretas e envolvem regras específicas – é simples criar a meta de ir mais na academia – e, portanto, são mais fáceis de cumprir.

Já os arrependimentos relacionados ao eu ideal tendem a ser mais gerais: ser um bom pai, ser um bom mentor etc. O que isso significa, realmente? “Não há pistas claras. E você sempre pode fazer mais”, argumenta Gilovich.

Apenas faça!

Segundo os cientistas, a pesquisa tem implicações práticas. Em primeiro lugar, costumamos supor que precisamos de inspiração antes de podermos nos esforçar para alcançar nossos eus ideais.

Diversas pesquisas psicológicas mostraram que isso não é verdade, no entanto.

“Como o slogan da Nike diz: ‘Just Do It’ [em português, ‘apenas faça’]. Não espere por inspiração, isso é uma desculpa. A inspiração surge do seu envolvimento na atividade”, sugere Gilovich.

As pessoas muitas vezes não conseguem atingir suas metas ideais porque ficam preocupadas com questões de aparência. Por exemplo, uma pessoa pode querer aprender a cantar, mas ter vergonha de que outros a achem ruim.

“As pessoas são mais caridosas do que pensamos e também não nos notam tanto quanto pensamos. Se isso é o que te prende – o medo do que as outras pessoas vão pensar e perceber -, então pense mais em apenas fazê-lo”, conclui o pesquisador.

Um artigo detalhando a pesquisa foi publicado na revista científica Emotion. [Futurity]

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