Fizemos, sem querer, uma bolha protetora em volta da Terra

Por , em 5.04.2018

A NASA detectou uma “bolha” maciça, criada pelos seres humanos, no espaço ao redor da Terra.

Essa barreira tem um efeito no clima espacial que vai muito além da atmosfera do nosso planeta. Isso significa que não estamos apenas mudando a Terra, mas o espaço também.

Os cientistas acreditam que uma nova era geológica, provocada pela humanidade, deveria ser nomeada.

A pesquisa foi publicada na revista Science Space Reviews.

A surpresa

A boa notícia é que, ao contrário da nossa influência no próprio planeta, essa bolha que criamos no espaço é benéfica para nós.

Em 2012, a NASA lançou duas sondas espaciais para observar os cinturões de Van Allen. Nosso planeta é cercado por dois desses cinturões de radiação (e um terceiro temporário): o interno se estende por 640 a 9.600 quilômetros acima da superfície da Terra, enquanto o externo está a uma altitude de aproximadamente 13.500 a 58.000 quilômetros.

No ano passado, as sondas detectaram algo estranho enquanto monitoravam a atividade das partículas carregadas presas no campo magnético da Terra: essas descargas solares perigosas estavam sendo mantidas à distância por algum tipo de barreira de baixa frequência.

Quando os pesquisadores investigaram mais a fundo, descobriram que essa barreira estava afastando ativamente os cinturões de Van Allen da Terra nas últimas décadas, e que as correntes de radiação estavam realmente mais distantes de nós do que nos anos 1960.

VLF

A barreira era formada por um certo tipo de comunicação de rádio chamado de frequência ultrabaixa (em inglês, “very low frequency” ou VLF).

Esse sinal tornou-se muito mais comum agora do que nos anos 1960, e pode influenciar como e onde certas partículas no espaço se movem.

Em outras palavras, graças ao VLF, temos agora um clima espacial antropogênico, ou seja, criado pelo homem.

“Várias experiências e observações descobriram que, sob as condições certas, os sinais de comunicação de rádio na faixa VLF podem de fato afetar as propriedades do ambiente de radiação de alta energia ao redor da Terra”, disse Phil Erickson, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (EUA).

A formação da bolha

Os sinais de VLF não têm grande papel na nossa vida cotidiana, mas são um dos pilares de muitas operações científicas, militares e de engenharia.

Frequências entre 3 e 30 kilohertz são fracas demais para transmissões de áudio, mas são perfeitas para transmitir mensagens codificadas através de longas distâncias ou águas profundas.

Um dos usos mais comuns desses sinais é para comunicação em submarinos, por exemplo. Como seus grandes comprimentos de onda podem se difundir através de grandes obstáculos, como montanhas, também são usados para fazer transmissões em terrenos acidentados.

Tais sinais não são supostos a ir a qualquer lugar que não a Terra, mas estão vazando para o espaço ao redor do nosso planeta – e em quantidade o suficiente para formar uma gigantesca bolha protetora.

Influências humanas no espaço

Quando os pesquisadores da NASA compararam a localização da bolha de VLF aos limites dos cinturões de radiação, inicialmente pensaram que era apenas uma coincidência interessante o fato da extensão externa da bolha corresponder quase exatamente à borda interna dos cinturões.

Uma vez que perceberam que os sinais de VLF podiam influenciar o movimento das partículas carregadas dentro desses cinturões de radiação, concluíram que essa barreira feita sem querer pelo homem estava progressivamente empurrando-os para longe.

Embora a bolha protetora não intencional seja provavelmente a melhor influência que já fizemos no espaço, certamente não é a única – temos deixado nossa marca lá fora desde o século XIX e particularmente nos últimos 50 anos, graças aos testes com explosões nucleares.

Essas explosões criaram cinturões de radiação artificiais perto da Terra que já resultaram em grandes danos a vários satélites. Outros impactos antropogênicos no ambiente espacial incluem experimentos químicos e aquecimento da ionosfera por ondas de alta frequência. [ScienceAlert]

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