A história bizarra da origem do ISIS, um dos grupos mais radicais existentes hoje

Por , em 2.07.2015

ISIS é a sigla em inglês para “Estado Islâmico no Iraque e na Síria”, também conhecido como “Estado Islâmico do Iraque e do Levante”, ou, hoje em dia, apenas como “Estado Islâmico” (EI).

Embora muitos se refiram ao EI como um grupo terrorista, essa é uma categorização simplista para explicar o que ele representa. Chuck Hagel, que foi secretário de Defesa dos Estados Unidos até pouco tempo atrás, disse que o EI era um projeto de Estado com armas sofisticadas, uma ideologia totalitária e recursos abundantes obtidos por meio de financiamento externo.

O grupo começou como mais um dos vários que se opunham ao regime de Bashar al-Assad na Síria, mas hoje afirma ser a autoridade religiosa sobre todos os muçulmanos do mundo e tenta impor uma versão ultraconservadora do Islã a diversos países.

E como uma organização como essa, conhecida por ser uma dissidência da Al-Qaeda, a qual acusou de não ser suficientemente radical, surgiu e se tornou tão forte tão de repente? Afinal, poucos de nós haviam ouvido a sigla “ISIS” antes de um ou dois anos atrás.

O site americano Cracked conversou com várias pessoas que estiveram no Iraque e chegou à conclusão de que, se os EUA não for o pai do ISIS, é pelo menos algum tipo de tio. Isso por que…

5. Os EUA colocaram todos os seus líderes no mesmo campo

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Durante a Guerra do Iraque, entre 2003 e 2011, soldados americanos e da coalizão passaram muito tempo lutando e capturando dezenas de milhares de combatentes insurgentes no país, colocando-os sempre no mesmo lugar: Campo Bucca, no Iraque.

O local tornou-se um importante centro de detenção de… Qualquer pessoa. Provavelmente, isso fez com que o Bucca virasse uma espécie de “escola de extremismo”.

Nove principais líderes do Estado Islâmico passaram um tempo em Campo Bucca. Uma das fontes do Cracked, que pediu para permanecer anônima, esteve lá durante o mesmo tempo que um homem chamado Abu Bakr Al-Baghdadi. Se esse nome soa familiar para você, é porque ele é o chefe da ISIS e autoproclamado califa do Estado Islâmico:

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“Não podíamos chamar o Campo Bucca de prisão, porque ninguém que estava lá havia sido acusado ou condenado de qualquer coisa”, explica a fonte. Ou seja, qualquer um pego fazendo qualquer coisa que os EUA não gostassem era jogado lá, uma maneira fácil de acabar tornando jovens irritados em extremistas violentos. Nunca saberemos quantos homens inocentes acabaram radicalizados como resultado de seu encarceramento no Campo Bucca (é possível que até 90% dos reclusos tenham sido originalmente presos por engano), mas não é à toa que um dos antigos comandantes do local o tenha descrito como uma “panela de pressão para o extremismo” – no Twitter!

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4. Os radicais aprenderam a trabalhar juntos

Scores of outposts in Iraq have closed as American forces regroup on larger bases as a prelude to withdrawing from virtually all cities by June. The United States plans to close its prison at Camp Bucca in southern Iraq and turn the inmates over to the Iraqi authorities, and commanders are considering using the base as a way station for troops heading home.
Muitos dos detidos de Bucca, longe de casa pela primeira vez em um campo de prisioneiros, estavam compreensivelmente solitários e assustados. Logo, os presos mais radicais ofereceram apoio emocional, o que facilitou a radicalização de seus companheiros mais tarde.

Além disso, uma vez que estavam dentro dos muros de Bucca, todos tinham que viver sob uma versão estrita da lei islâmica – muito em linha com a forma como o ISIS opera hoje.

A fuga de Bucca era difícil, mas, dentro das cercas, os presos tinham a liberdade para fazer cumprir muitas de suas próprias regras e até mesmo realizar punições letais em outros detidos que quebrassem essas regras. A fonte do Cracked diz que, depois de punir alguém arbitrariamente, os outros detidos simplesmente o levavam para perto das cercas do campo e diziam que o haviam encontrado assim.

Estima-se que muitos dos futuros líderes e soldados do ISIS tiveram sua primeira experiência de trabalho e planejamento de ataque juntos dentro do Campo Bucca, onde mostraram a mesma criatividade e astúcia que lhes permitiu tomar conta de pelo menos metade do Iraque nos últimos anos.

Funcionários da “prisão” tentaram segregar os mais radicalizados dos mais pacíficos, mas isso não impediu que ambos se misturassem e até mesmo esquematizassem juntos. “Eles passavam notas entre si. Um grupo fazia um motim de um lado, enquanto outro fazia uma fuga do outro”, explica a fonte.

De qualquer forma, o Campo Bucca deixou vários insurgentes violentos em contato uns com os outros, obrigando-os a trabalhar em equipe.

3. Os EUA recrutaram ex-terroristas para lutar contra terroristas

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Lembra dos “Filhos do Iraque”? Em suma, eram um bando de muçulmanos sunitas da província de Anbar que organizaram um exército financiado pelos militares dos EUA para estabilizar a região. O único problema é que muitos deles começaram suas carreiras “militantes” lutando exatamente contra soldados americanos e civis iraquianos.

Uma segunda fonte consultada pelo Cracked, um soldado americano estacionado em Anbar naquele momento, recordou sua primeira reunião com alguns dos homens que se tornariam os Filhos do Iraque. Os EUA não tinham aliados locais competentes. O novo exército iraquiano, treinado e equipado pelos americanos, não era bom. A solução foram esses caras.

Os Filhos do Iraque não eram grandes fãs dos Estados Unidos, mas eram competentes (alguns deles tinham lutado contra os EUA durante anos) e queriam dinheiro.

E como as pessoas começaram a aceitar pagar aqueles que tinham sido seus inimigos apenas algumas semanas antes? Em alguns casos, mentiu-se que os Filhos do Iraque eram apenas cidadãos locais, agricultores, preocupados com a sua comunidade. Ou dizia-se que eles lutavam contra os EUA porque Al-Mahdi lhes pagava, e os americanos começaram simplesmente a pagar melhor.

De qualquer maneira, não demorou muito para que os militares percebessem que estes extremistas perigosos armados não tinham que obedecer às mesmas regras de guerra que os soldados americanos. Ou seja…

2. Os EUA transformaram o ISIS em um organizado esquadrão da morte

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O termo “esquadrão da morte” é preciso para descrever os Filhos do Iraque. Qualquer pessoa que a ONU não deixava os EUA matar, o país alegremente passava para o “esquadrão”, o que significa que elas acabavam mortas de qualquer jeito.

Nos últimos cinco meses que a segunda fonte do Cracked passou lá, de abril a agosto de 2007, os soldados americanos não sofreram ataques. Do lado dos mais mortais, eles estavam também mais seguros.

Só que os Filhos do Iraque não tinham quaisquer regras específicas para seguir. Durante patrulhas americanas, se os americanos invadiam uma casa, as mulheres choravam. Se os Filhos do Iraque estavam junto, eram os homens que choravam, pois sabiam que iam morrer – sem dúvida alguma.

O esquadrão tinha praticamente carta branca para jogar qualquer um em qualquer vala. Se isso parece horrível, é porque era. Uma queda de 90% da violência na região foi atribuída diretamente devido aos Filhos do Iraque – pelo medo que todos tinham deles. E o que tudo isso tem a ver com o ISIS?

1. Os EUA delegaram a responsabilidade por ambos os grupos ao governo iraquiano, e logo surgiu o ISIS

Nouri Maliki

Nouri Maliki

Em 2008, o presidente Bush deu ao governo iraquiano o controle sobre todos os prisioneiros feitos na guerra, incluindo aqueles no Campo Bucca. Assim, os iraquianos libertaram Abu Bakr Al-Baghdadi em 2010, sob a suposição de que ele tinha tirado todo o terrorismo de seu sistema. Ele se tornou o líder do ISIS no mesmo ano.

Usar os Filhos do Iraque como um esquadrão da morte funcionou muito bem só para os EUA, visto que causou uma queda acentuada na violência contra seus soldados. Terminado esse propósito, em 2008, o governo americano quis se livrar deles, passando-os ao controle dos iraquianos.

Em 2011, o país caiu nas mãos do primeiro-ministro Nouri Maliki, um muçulmano xiita. Ele imediatamente mandou prender seu vice em comando, que era sunita. Em seguida, parou de pagar os Filhos do Iraque de maioria sunita.

Sem emprego, muitos deles se juntaram ISIS por, novamente, dinheiro. A maioria dos Filhos do Iraque foi na verdade assassinada pelo grupo ao invés de se tornar um aliado dele, mas o que realmente importa era que o maior obstáculo do Estado Islâmico tinha ido embora. O exército iraquiano continuou tão ineficaz quanto sempre foi, de forma que o ISIS agora controla mais de metade do país.

Conclusão: os EUA cutucaram ali, cutucaram ali, e só fizeram o cocô feder mais. Espera-se que eles aprendam a lição um dia, mas isso não deve acontecer tão cedo. Como uma última curiosidade divertida, o financiamento dos Filhos do Iraque custou aos Estados Unidos cerca de US$ 200 milhões por ano. O Pentágono estima que vai custar US$ 22 bilhões por ano para continuar lutando contra o ISIS. [Cracked, BBC]

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1 comentário

  • EvandroJGC:

    Esses acertos e bom caráter dos EUA são de uma genialidade, que só aplaudindo de pé mesmo…

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