Neurociência: como ser o próximo Batman

Por , em 23.05.2015

Voz rouca, sinal luminoso no céu, disfarce impressionante e, claro, uma fortuna invejável que vem junto com uma mansão que poderia abrigar a população de algum país pequeno. Mesmo sem contar com a glória, os affairs quentes e as festas luxuosas, não é difícil entender o encanto que o Batman tem sobre os fãs. Sem superpoderes ou qualquer influência de substâncias radioativas alterando suas habilidades, o herdeiro playboy é um daqueles personagens que parecem mais próximos de nós do que os outros. Mas será que é possível se tornar o homem morcego?

O neurocientista e cinesiológo E. Paul Zehr estudou como uma pessoa pode realmente se tornar o Batman analisando a fisiologia, treinamento e força de vontade que uma pessoa precisa para isso. O especialista garante: mesmo que você nunca faça parte da Liga da Justiça, você ainda pode se tornar mais parecido com o Cavaleiro das Trevas.

Zehr é professor de cinesiologia e neurociência na Universidade de Victoria, em British Columbia, no Canadá. Ele também é o autor de dois livros sobre a ciência de super-heróis: “Becoming Batman: The Possibility of a Superhero” (“Tornando-se Batman: A Possibilidade de Um Super-herói”, em tradução livre) e “Inventing Iron Man: The Possibility of a Human Machine” (“Inventando o Homem de Ferro: A Possibilidade de Uma Máquina Humana”, em tradução livre). Ele também escreveu um livro de ficção voltado para pré-adolescentes, “Project Superhero” (“Projeto Super-Herói”, em tradução livre).

No tatame

Ele, na verdade, passou a se interessar por ciência por meio das artes marciais. Quando era adolescente, ficava fascinado com o que seus instrutores eram capazes de fazer em termos de movimento de seus corpos, e o quanto ele mesmo era capaz de realizar treinando. Zehr queria entender melhor como o movimento físico funcionava, então estudou cinesiologia.

Eventualmente, interessou-se não apenas na mecânica do movimento, mas também em como o cérebro e a medula espinhal controlam os movimentos, e mergulhou na neurociência. Ele também desenvolveu um intenso interesse na reabilitação, porque “isso é algo sobre-humano”. Treinar para recuperar habilidades físicas depois de um acidente vascular cerebral ou outra lesão tem muito em comum com o treinamento para se destacar em uma área particular. “Os princípios são exatamente os mesmos, apenas são aplicados de forma um pouco diferente”.

Zehr combinou seu conhecimento científico do corpo humano, reabilitação e artes marciais para explorar a possibilidade de pessoas reais realizarem proezas físicas que o Batman faz nos quadrinhos, programas de TV e filmes.

A genética do Batman

Tornar-se o Batman requer uma grande quantidade de treinamento, é claro, mas Zehr reconhece que há algumas pessoas que, apenas em virtude da sua biologia, responderão melhor ao treinamento do que outras. Treinar é basicamente aplicar certas tensões ao corpo, e algumas pessoas simplesmente não respondem a essas tensões tão facilmente quanto outras. “Assim, eles tentam treinar a força, mas têm efeitos muito mínimos, por exemplo”, diz o especialista. Do outro lado do espectro, acontece exatamente o oposto.

Zehr aponta que há um componente genético para a facilidade com que as pessoas ganham massa muscular. “Se alguém tem uma deleção do gene da miostatina [miostatina é uma proteína que regula o crescimento das fibras musculares], por exemplo, ou uma regulação na expressão da miostatina que é diferente da população normal, essa pessoa vai conseguir músculos realmente grandes muito rapidamente”. Natureza e estímulo agem juntos enquanto trabalhamos para desenvolver uma vasta gama de habilidades físicas.

Mas, para o homem morcego, não é suficiente ser forte, rápido e ágil; ele também precisa evitar ficar ferido. A expressão de certos genes contribui para a nossa capacidade de evitar ou se recuperar de uma lesão. Um destes genes é o colagênio 1A1, ou COL1A1, que é, como o nome sugere, ligado à produção da proteína de colágeno. De acordo com Zehr, a diferença entre um tendão, um tecido interconectivo ou tecido ligamento, são as fibras de colágeno que os compõem. “Se você tem uma má expressão do COL1A1, você não vai ter o melhor tecido conjuntivo e é daí que as lesões vêm”.

A capacidade de evitar ferimentos e curar machucados de forma relativamente rápida é inestimável não apenas para se tornar o Batman, mas também para continuar sendo o Batman por tempo suficiente para se gabar aos amigos na mesa do bar. Afinal, é só assistir qualquer filme já feito sobre o super-herói para saber que mesmo com todas suas habilidade, ele apanha – e não é pouco. Além disso, mesmo que tudo isso dê certo, combater o crime noite após noite pesa sobre o seu corpo. “Se você não tiver um bom tecido conjuntivo ou capacidade de reparar este tecido, você vai ter um monte de lesões”.

A vontade de agir

A maior barreira para se tornar o Batman, de acordo com Zehr, não está em seu corpo, está em sua mente. Quando o pesquisador dá palestras sobre a possibilidade de se tornar um super-herói, ele pede ao público que, levantando as mãos, respondam se eles gostariam de ser Batman, Batgirl ou Batwoman. Cerca de três quartos dos participantes levantam as mãos. Em seguida, ele pergunta: “E se eu dissesse a vocês, àqueles que querem se tornar o Batman, que há um processo envolvido e este processo dá muito trabalho?”. Ele descreve o tempo e treinamento que seriam necessários. Muito menos pessoas levantam suas mãos.

O escritor e palestrante cita a cena em “Batman Begins” onde o personagem de Liam Neeson (que se chama Henri Ducard) está treinando Bruce Wayne no gelo. A cena é chamada de “A vontade de agir”. Ducard culpa Thomas Wayne pela morte dos pais de Bruce, porque ele não agiu para defender a si mesmo e a Martha. Bruce, Ducard aponta, não seria parado por um homem com uma arma. “Eu fui treinado!”, Bruce protesta. “O treinamento não é nada!”. Ducard ruge: “A vontade é tudo!”.

Se quiser relembrar (ou ver esse momento pela primeira vez), assista ao vídeo original abaixo. Para aqueles que não sabem inglês, basta clicar aqui para conferir a versão dublada.

Zehr não diria que treinamento não é nada – mas você precisa querer se comprometer com esse regime. Ele estima que seriam necessários entre 15 e 18 anos de trabalho físico para atingir o nível de Batman. “Pode-se fazer paralelos com os atletas olímpicos que gastam uma década de formação para finalmente ter a sua medalha de ouro ou obter qualquer nível de realização. É um monte de tempo e empenho e, para ser honesto, a maioria das pessoas simplesmente não têm essa força de vontade dentro delas, e essa é a grande limitação”.

Seja ótimo em tudo, mas o melhor em nada

Então, o que você fará nestes 15 ou 18 de preparação para virar o mais famoso cidadão de Gothan? Bem, parece que você precisa ser um “atleta completo, o auge do desempenho humano”. Então, será necessário desenvolver uma ampla gama de habilidades físicas e competências.

Contudo, se o seu primeiro pensamento é de que você terá que virar especialista em uma ou duas coisas, pode parar por aí. A fim de manter essa gama de habilidades, você não poderá ser o melhor em alguma coisa. “Eu dou nota máxima ao Batman em ser o Batman, mas quando se trata de suas outras habilidades? Ele não consegue a nota máxima em nada em particular. Ele ganha vários 9,5. Então, ele é bom em um monte de coisas, mas o que ele é melhor é em ser o Batman”.

Há uma razão muito boa para isso. “Um problema é que algumas habilidades são realmente contraproducentes no sentido de que elas empurram os nossos sistemas fisiológicos em uma direção, enquanto o tipo de adaptação, a resposta ao estresse que precisamos de nossos corpos para fazer outra coisa, vai na direção oposta”.

Por exemplo, o Batman vai precisar tanto da velocidade de um corredor de velocidade quanto da resistência de um corredor de longa distância. Quando você treina para a resistência, seu corpo muda em determinadas maneiras – em seus músculos, por exemplo, ou o seu sistema cardiovascular. O corpo precisa se adaptar de diferentes maneiras em relação a quando você treina para alcançar a força de um velocista. Então, se você quer se tornar Batman, você vai precisar se certificar de que não está desenvolvendo certas habilidades e, ao mesmo tempo, excluindo outras.

Treinos específicos

Zehr também lista um número de tipos especiais de treinamentos dos quais o Batman iria precisar: treinamento da agilidade, ginástica ou acrobacias, corrida livre ou parkour, e, claro, a exposição a uma variedade de artes marciais. O Cavaleiro das Trevas precisaria de treinamento marcial em tudo, desde armas projetáveis (ele precisa aprender a lançar aquele batarang) até luta de contato próximo.

Também é bastante provável que você queria começar a se preparar bastante cedo na vida. O escritor afirma que a questão de existir ou não uma “idade certa” para iniciar um esporte é, na verdade, mal compreendida pela fisiologia. Às vezes, você vai ouvir que não pode se destacar em um determinado esporte a menos que comece a praticá-lo antes de uma idade determinada, mas Zehr adverte que esses supostos modelos de desenvolvimento nem sempre são válidos. “Eles são apenas ideias gerais”.

“Você não pode realmente dizer que há alguma data de validade para tentar se tornar o Batman”, esclarece ele, mas há certas coisas a se levar em conta. “É preciso encaixar o treinamento em meio a todos os processos de maturação e desenvolvimento que estão acontecendo. [Na adolescência, principalmente] nós temos o melhor coquetel de coisas acontecendo em nossos corpos para atingir o potencial máximo”. Além disso, se levar mais de uma década para se tornar o Batman, você quer ter certeza de que alcançou o nível de habilidade necessária quando chegar aos seus 20 e poucos, 30 e poucos anos.

Se, neste momento, você está pensando: “dane-se, eu vou virar o Homem de Ferro em vez disso”, Zehr tem algumas más notícias para você. Mesmo se você já tem a roupa super-hiper-ultra-mega tecnológica, tornar-se o Homem de Ferro também vai exigir um treinamento extremo. “[A roupa especial] vai para ampliar sua capacidade, com certeza”, diz, “mas se a sua capacidade é terrível e você não tem habilidade alguma, você acabará fazendo movimentos não qualificados, mas muito poderosos. Você realmente tem que ter habilidade, treinamento. Você precisa treinar agilidade, artes marciais… fidelidade para se movimentar na armadura”. Ainda assim, o neurocientista acredita que levaria muito menos tempo de treinamento do que para se tornar o Batman – cerca de cinco a oito anos.

Aquela regra de “não matar”? Ela vai tornar as coisas mais difíceis

Esse é um clássico dos heróis mais bonzinhos: nada de matar outras pessoas. Ainda que toda aquela lógica de vigilante da sociedade seja bastante extrema, parece que esses salvadores não querem saber de “fazer justiça com as próprias mãos” se isso significar tirar a vida de alguém.

“Como alguém que vem praticando artes marciais por mais de 30 anos, [posso dizer que] é muito mais fácil de ensinar as pessoas a usar a força letal do que a não usar força letal”, explica Zehr. “Defender a si mesmo da melhor maneira possível sem matar as pessoas é muito mais difícil porque o nível de habilidade necessária é muito maior”.

Ele ressalta que, se o Batman soca alguém na garganta, por exemplo, ele tem uma boa chance de matar essa pessoa. A fim de manter seus valores e não matar ninguém, o herói teria que ser capaz de lutar sem apelar para o golpe mortal. “Você ainda causa um dano significativo às pessoas”, diz o pesquisador. “Certamente este problema de dor vs. danos surge quando, geralmente, o Batman tenta infligir dor às pessoas ao invés de causar algum dano a elas, em casos nos quais ‘dano’ significa ‘dano duradouro’. E, em última instância, danos podem acabar em morte”. Ele acrescenta: “Você ainda precisaria ser treinado em como fazer todas essas coisas, mas você estaria aplicando [as técnicas] com menos impacto”.

Aqui acrescentamos uma nota de rodapé interessante. Alguns anos atrás, Zehr foi questionado se o Coringa e Bane eram tão difíceis de derrotar porque eles não processavam a dor da mesma maneira que a maioria das pessoas. “Se você pisar no pé de alguém, isso lhes causa muita dor, então essa pessoa vai puxar o pé dolorido e vai cair. Mas e se você não sentir dor? Há uma síndrome na qual as pessoas ficam cronicamente machucadas porque são insensíveis à sinalização da dor. Como é que o Batman vai ser capaz de combatê-los?”.

Não foque em como você não pode ser como Batman, foque em como você pode

Para sermos sinceros, é improvável que qualquer um de nós vá se tornar o Batman. Não estamos propensos a desenvolver o nível de habilidade e capacidade atlética necessária para balançar e subir pelos prédios de uma cidade e combater o crime com nossas mãos enluvadas.

Mas Zehr argumenta que isso não significa que não devemos usar Batman como uma inspiração. Há sempre espaço para nós, como indivíduos, melhorarmos alguma coisa. Basta se comprometer com aquilo que está fazendo.

É por isso que ele explora a ciência da fisiologia humana e de super-heróis: “Não é sobre ser aquele super-herói. Essa não é a questão. O ponto é que existem alguns aspectos de qualquer um desses super-heróis, por exemplo Homem de Ferro e Batman, que são verdadeiros e reais. E a chave é que assim que você percebe isso, significa que você pode fazer mais. Então, o que quer que você ache que é o máximo, seja qual for o seu trabalho e qualquer que seja a atividade que você está tentando fazer, estes são alguns exemplos de pessoas que fazem mais, e de que você pode fazer mais também. Assim, a coisa é fundamental é ficar com a lição de vida real que você pode sempre fazer mais”.

Em vez de dizer que você não pode ser literalmente todas as coisas que o Batman é, pense em partes daquele todo: a vontade de agir, como nós vamos nos incentivar, dar aquele primeiro passo para mudar a nossa vida para tudo o que precisamos. Essas são as reais lições de vida em usar super-heróis como modelos. [io9]

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