Neurocientistas ainda estão obcecados com o curioso caso de Phineas Gage

Por , em 24.05.2017

Em 1848, um trabalhador de 25 anos chamado Phineas Gage estava explodindo pedras para abrir caminho para uma nova linha ferroviária em Cavendish, uma cidade dos Estados Unidos.

O procedimento era o seguinte: primeiro, ele fazia um buraco, depois colocava uma carga explosiva nele, e por fim enchia a abertura de areia, usando uma barra de metal.

Em um fatídico dia, no entanto, a barra de metal criou uma faísca que empurrou o metal para cima e para fora do buraco. A barra passou através de sua bochecha esquerda e atrás de sua órbita ocular, saindo pelo topo de sua cabeça.

Gage não morreu. Mas o ferro destruiu grande parte do lóbulo frontal esquerdo do seu cérebro, o que transformou dramaticamente sua personalidade, antes bem equilibrada.

O caso de Phineas Gage

Na época, John Martyn Harlow, o médico que tratou Gage após o acidente, escreveu o seguinte: “Ele está irregular, irreverente, se permitindo às vezes as profanidades mais grosseiras, o que não era anteriormente seu costume”.

Esta transformação de personalidade súbita é a razão pela qual Gage aparece em tantos livros e manuais médicos.

“Ele foi o primeiro caso em que você poderia dizer com bastante certeza de que uma lesão cerebral produziu algum tipo de mudança na personalidade”, disse Malcolm Macmillan, professor da Escola de Ciências Psicológicas de Melbourne, na Austrália, e autor do livro “An Odd Kind of Fame: Stories of Phineas Gage”.

Isso era uma coisa muito estranha em meados dos anos 1800, quando o propósito do cérebro e o seu funcionamento interno eram em grande parte um mistério. Na época, os frenólogos ainda estavam avaliando as personalidades das pessoas com base em medições de seu crânio.

O famoso caso de Gage ajudou a estabelecer a neurologia como um campo. “Se você falar sobre a neurologia e a relação entre os danos estruturais para o cérebro e mudanças específicas no comportamento, este é o marco zero. Foi um caso ideal porque é uma região do cérebro, é realmente óbvia, e as mudanças na personalidade foram deslumbrantes”, explica Allan Ropper, neurologista da Universidade de Harvard e do Brigham and Women’s Hospital.

Reverberações

Devido a sua importância, talvez não seja surpreendente que muitas gerações de cientistas que estudam o cérebro revisitem o caso até hoje. Por exemplo:

  • Na década de 1940, um famoso neurologista chamado Stanley Cobb diagramou o crânio de Gage em um esforço para determinar o caminho exato da barra de metal;
  • Na década de 1980, os cientistas repetiram esse exercício usando tomografias computadorizadas;
  • Na década de 1990, os pesquisadores aplicaram modelagem computacional 3D ao problema;
  • Em 2012, Jack Van Horn, professor de neurologia da Universidade do Sul da Califórnia, liderou uma equipe que combinou a tomografia computadorizada do crânio de Gage com exames de ressonância magnética de cérebros típicos para mostrar como o cérebro de Gage poderia ter sido afetado.

Lições

Há algo sobre Gage que a maioria das pessoas não conhece. “Essa mudança de personalidade, que sem dúvida ocorreu, não durou muito mais do que cerca de dois a três anos”, afirma Macmillan. “Gage passou a trabalhar como um motorista de diligência de longa distância no Chile, um trabalho que exigia consideráveis habilidades de planejamento e foco”.

De acordo com Van Horn, a cada seis meses, você vê algum caso parecido com o de Gage, no qual alguém foi baleado na cabeça, ou caiu de uma escada. Este capítulo da vida de Gage oferece uma poderosa mensagem para tais pacientes: “Mesmo em casos de dano cerebral e incapacidade maciços, a reabilitação é sempre possível”.

Gage viveu cerca de doze anos depois do acidente. Mas, em última análise, as lesões cerebrais que ele sofreu provavelmente levaram à sua morte.

Ele faleceu em 21 de maio de 1860, de uma crise epiléptica quase certamente relacionada a sua lesão. Seu crânio e a barra de metal que passou por ele estão em exibição no Museu Anatômico Warren em Boston, nos Estados Unidos. [NPR]

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