O que as pessoas realmente dizem antes de morrer

Por , em 22.01.2019

Esqueça os filmes e livros: como as pessoas realmente se comunicam antes de morrer?

Essa é uma pergunta curiosa ainda sem resposta, mas central no livro “Words on the Threshold”, publicado no início de 2017 por Lisa Smartt, formada em linguística na Universidade da Califórnia em Berkeley (EUA).

Smartt se interessou pelo assunto pela primeira vez ao transcrever as divagações de seu pai, Mort Felix, em seu leito de morte. Para ela, apreciar sua sintaxe estranha e suas histórias surreais era uma espécie de mecanismo de enfrentamento da situação.

Por fim, Smartt se perguntou se suas anotações tinham algum valor científico, terminando com sua obra sobre os padrões linguísticos em 2.000 declarações de 181 pessoas que morreram.

Um caso interessante

Mort Felix disse uma vez que gostaria que “Ode à Alegria” de Beethoven tocasse em seu leito de morte. Mas quando o fim de sua vida chegou aos 77 anos, seu corpo tomado pelo câncer e sua consciência embalada em morfina, parecia desinteressado em música e recusava comida. “Chega”, ele disse a sua esposa Susan. “Obrigado, e eu te amo, e chega”. Quando ela o encontrou na manhã seguinte, estava morto.

Durante as últimas três semanas de sua existência, Felix conversou. Ele era um psicólogo clínico que passara a vida toda escrevendo poesia. Embora seu discurso muitas vezes não fizesse sentido, seu uso da linguagem era interessante.

Por exemplo, Felix disse em um ponto: “There’s so much so in sorrow”, o que significa, literalmente, “Há tanto ‘tanto’ na tristeza”. Em língua inglesa, há um trocadilho envolvido na afirmação: “so” (“tanto”) é uma sílaba integrante de “sorrow” (“tristeza”).

Para a surpresa de seus familiares, o ateu Felix também começou a alucinar anjos e reclamar de uma sala lotada, mesmo que não houvesse ninguém ali. Lisa Smartt acompanhou todas essas declarações, anotando-as enquanto se sentava ao lado da cama do pai.

O que já foi estudado?

Apesar das limitações do livro de Smartt, ele é único – é um dos poucos trabalhos publicados sobre como as pessoas realmente falam quando morrem. Para encontrar qualquer tipo de rigor nesse campo de pesquisa, é preciso remontar a 1921, ao trabalho do antropólogo americano Arthur MacDonald.

Para avaliar a “condição mental das pessoas pouco antes da morte”, MacDonald decidiu criar “antologias de últimas palavras”, dividindo as pessoas em 10 categorias ocupacionais (estadistas, filósofos, poetas etc.) e codificando suas últimas palavras como sarcásticas, contentes e assim por diante.

MacDonald descobriu, por exemplo, que militares faziam mais “pedidos, orientações ou admoestações”, enquanto os filósofos (que incluíam matemáticos e educadores) tinham mais “perguntas, respostas e exclamações”. Os religiosos e a realeza usavam o maior número de palavras para expressar contentamento ou descontentamento, enquanto artistas e cientistas usavam o menor número.

A obra de MacDonald “parece ser a única tentativa de avaliar as últimas palavras quantificando-as, e os resultados são curiosos”, escreveu o acadêmico alemão Karl Guthke em seu livro “Last Words”. Um argumento de Guthke é que as últimas palavras, como antologizadas em várias línguas desde o século 17, são artefatos das preocupações e fascinações de uma época sobre a morte, não “fatos históricos de status documentário”. Ou seja, podem nos contar muito pouco sobre a capacidade real de uma pessoa se comunicar logo antes de sua morte.

Vamos descobrir?

Depois que seu pai morreu, Lisa Smartt ficou com perguntas intermináveis sobre o que ela tinha ouvido dizer e se aproximou de alguns pesquisadores propondo-se a estudar essas últimas palavras academicamente, mas não obteve reações positivas.

No fim das contas, começou a entrevistar familiares e equipes médicas por conta própria. Isso a levou a colaborar com Raymond Moody Jr, um psiquiatra mais conhecido por seu trabalho sobre “experiências de quase morte” em um livro best-seller de 1975, “Life After Life”.

Um padrão comum que ela notou foi que, quando seu pai usava pronomes como “isso” e “aquilo”, eles não se referiam claramente a nada. Uma vez ele disse: “Eu quero puxar isso de volta para a terra de alguma forma”, sem explicar o que era “isso”. Sua percepção de seu corpo no espaço também parecia estar mudando. “Eu tenho que ir até lá. Eu tenho que descer”, falou, embora não houvesse nada abaixo dele.

Felix ainda repetia palavras e frases que não faziam sentido, como “A dimensão verde! A dimensão verde!” Smartt descobriu que as repetições frequentemente expressavam temas como gratidão e resistência à morte. Mas também havia tópicos inesperados, como círculos, números e movimento. “Eu tenho que sair, desça! Fora desta vida”, Felix notoriamente murmurou.

Smartt diz que ficou mais surpresa com narrativas que pareciam se desdobrar ao longo de dias. Logo no início, um homem falou sobre um trem preso em uma estação; dias depois se referiu ao trem consertado e, em seguida, semanas mais tarde, a como o trem estava se movendo para o norte.

Ela imagina que rastrear essas histórias poderia ser clinicamente útil, particularmente à medida que avançam em direção à resolução, o que poderia refletir o sentido de uma pessoa do fim iminente.

Interações

Algumas abordagens contemporâneas ao assunto vão além dos monólogos oratórios e focalizam em emoções e relacionamentos.

Livros como “Final Gifts”, publicado em 1992 pelas enfermeiras de cuidados paliativos Maggie Callanan e Patricia Kelley, e “Final Conversations”, publicado em 2007 pelas pesquisadoras Maureen Keeley e Julie Yingling, tem como objetivo aprimorar as habilidades dos vivos para ter conversas importantes e significativas com os que estão morrendo.

“À medida que a pessoa fica mais fraca e adormecida, a comunicação com os outros geralmente se torna mais sutil”, escrevem Callanan e Kelley. “Mesmo quando as pessoas estão fracas demais para falar ou perderam a consciência, elas podem ouvir; a audição é o último sentido a desaparecer”.

No final da vida, a maioria das interações é não verbal, pois o corpo se “desliga” e a pessoa não tem a força física e, muitas vezes, a capacidade pulmonar para longos enunciados. “As pessoas sussurram, são breves, soltam frases de uma palavra – é para isso que têm energia”, explica Keeley. Medicamentos muitas vezes limitam a comunicação. O mesmo acontece com boca seca e falta de dentadura.

Muitas pessoas morrem em silêncio, particularmente se tiverem demência avançada. Para aqueles que falam, parece que seu vernáculo é muitas vezes banal. Por exemplo, últimas palavras frequentes de pacientes são os nomes de esposas, maridos, filhos ou até um pedido pela “mamãe”.

Delírio

Na literatura científica, o maior detalhe linguístico que existe é sobre o delírio, que envolve perda de consciência, incapacidade de encontrar palavras, inquietação e uma retirada da interação social.

O delírio atinge pessoas de todas as idades após cirurgias e também é comum no final da vida, um sinal de desidratação e sedação excessiva. É de fato tão frequente que o psiquiatra neozelandês Sandy McLeod escreveu que “pode até ser considerado excepcional que os pacientes permaneçam mentalmente sãos durante os estágios finais de doenças malignas”.

Cerca de metade das pessoas que se recuperam do delírio pós-operatório recordam suas experiências de medo e desorientação.

A falta de estudos

Temos uma visão rica do início da linguagem, graças a décadas de pesquisa científica com crianças, bebês e até fetos no útero.

Já no que diz respeito à linguagem no fim da vida, não há quase nada. Segundo os especialistas, um estudo detalhado das mudanças na comunicação poderia ajudar a combater o medo da morte nas pessoas e proporcionar-lhes algum senso de controle.

Também poderia nos oferecer uma noção de como nos comunicarmos melhor com os que estão morrendo. Diferenças em metáforas culturais, por exemplo, podem ser incluídas no treinamento de enfermeiras de cuidados paliativos que podem não compartilhar o mesmo quadro cultural de seus pacientes.

Mas estudar a linguagem e a interação no final da vida continua sendo um desafio, por causa de tabus culturais sobre a morte e preocupações éticas de ter cientistas no leito de uma pessoa que está falecendo. Pesquisadores também apontam que cada morte é única, o que apresenta uma variabilidade com a qual a ciência tem dificuldades em lidar.

Além disso, este tipo de pesquisa não é prioridade no campo da saúde. Trabalhos mais focados na descrição de padrões e comportamentos de comunicação são muito mais difíceis de ser financiados do que pesquisas que reduzem diretamente o sofrimento de doenças como o câncer, por exemplo.

Possibilidade de sistematização

Apesar das falhas do livro de Smartt, que não controla coisas como medicação, por exemplo, é um avanço no sentido de construir um corpo de dados e procurar padrões. É o mesmo tipo de primeiro passo que os estudos de linguagem infantil tomaram em seus primeiros dias.

Esse campo não decolou até que historiadores naturais do século XIX, mais notavelmente Charles Darwin, começaram a escrever as coisas que seus filhos diziam e faziam. Tais “estudos de diário”, como eram chamados, levaram eventualmente a uma abordagem mais sistemática.

A comunicação no fim da vida só se tornará mais relevante à medida que a própria vida se alongar e as mortes acontecerem com mais frequência em instituições. Mais conhecimento sobre como as pessoas se comunicam nesse momento daria aos pacientes mais controle por um período maior de tempo.

Embora as “últimas palavras” das pessoas sejam uma espécie de pedra angular de uma visão romântica da morte, geralmente não acontecem como nos filmes. Estamos apenas começando a entender como essas interações finais de fato se parecem. [TheAtlantic]

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