Adolescentes que pulam o café da manhã podem desenvolver obesidade

Por , em 1.08.2019

Pesquisadores da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e de seis países europeus descobriram que o hábito de muitos adolescentes de pular o café da manhã antes de ir para escola está relacionado à obesidade. Em um artigo publicado na revista “Scientific Reports”, eles destacam que há relação direta entre dispensar a primeira refeição do dia e o aumento da circunferência abdominal e o aumento do índice de massa corporal (IMC) nessa faixa etária.

“O principal achado de nosso estudo indica que pular o desjejum está associado a marcadores de adiposidade em adolescentes, independentemente de onde vivem, do tempo de sono ou do sexo”, disse a epidemiologista do Departamento de Medicina Preventiva da FMUSP Elsie Forkert, em entrevista ao repórter Peter Moon, da agência de notícias do Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Isso se dá porque não tomar café da manhã antes de sair de casa pode levar a uma dieta desequilibrada e tem ligação com hábitos alimentares que não são saudáveis.

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“Ao dispensar o café da manhã, milhões de crianças e adolescentes em todo o mundo podem substituir uma alimentação mais saudável dentro de casa (lácteos, cereais integrais e frutas) pelo consumo, em cafeterias e lanchonetes escolares, de alimentos industrializados muitas vezes hipercalóricos e de baixo valor nutricional, como salgadinhos, doces e refrigerantes, o que está diretamente ligado ao desenvolvimento da obesidade”, explica.

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Colaboração internacional

No estudo, Forkert contou com a colaboração de cientistas da Alemanha, Áustria, Bélgica, Espanha, Grécia e da ItálAdolescentes que pulam o café da manhã podem desenvolver obesidadeia. Eles partiram dos dados de dois grandes estudos, um europeu e outro brasileiro, para avaliar se os comportamentos relacionados adotados por adolescentes estariam associados a marcadores de adiposidade total e abdominal.

O estudo europeu é o Healthy Lifestyle in Europe by Nutrition in Adolescence Cross-Sectional Study (Helena-CSS), conduzido entre 2006 e 2007, que avaliou 3.528 adolescentes de dez grandes cidades europeias (composto por 52,3% de meninas e 47,7% de meninos, entre 12,5 e 17,5 anos). Já o estudo brasileiro, intitulado Saúde Cardiovascular do Adolescente Brasileiro (BRACAH Study), utilizou uma metodologia semelhante para avaliar 991 adolescentes (54,5% de meninas e 45,5% de meninos, com idade entre 14 e 18 anos) e foi conduzido em 2007 na cidade de Maringá, no Paraná.

O novo estudo analisou peso e altura, índice de massa corporal (indicador de obesidade geral), circunferência abdominal e relação cintura-altura (indicadores de obesidade abdominal).

“Os comportamentos relacionados ao equilíbrio energético foram medidos por meio de questionário que avaliou, entre outros fatores, o nível de atividade física dos adolescentes (na escola, em casa, nas horas de lazer, no transporte), sendo que um mínimo de 60 minutos por dia de atividade física de moderada a vigorosa foi considerado adequado, enquanto atividade física inferior a 60 minutos ao dia foi considerada insuficiente”, conta a pesquisadora.

A avaliação do comportamento sedentário dos adolescentes, tanto em dias úteis quanto em fins de semana, foi feita com base no tempo diário despendido na frente da televisão, do computador ou jogando videogames. O tempo de sono dos adolescentes pesquisados também foi examinado.

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Para avaliar o consumo de café da manhã, foi utilizado o questionário de Escolhas e Preferências Alimentares, que explora atitudes e preocupações quanto a alimentação, estilo de vida e alimentação saudável entre os adolescentes. Nesse quesito, foi levada em consideração o grau de concordância (em uma escala de 1 a 7) com a afirmação “Eu muitas vezes pulo o café da manhã”.

Com essas informações os cientistas puderam analisar se os adolescentes que dispensavam o café da manhã apresentavam, em média, valores maiores nos marcadores de adiposidade em relação aos adolescentes que tomavam o café da manhã. “Dos comportamentos analisados, relacionados ao equilíbrio energético, o que mais apresentou associação com os marcadores de obesidade foi o comportamento de pular o café da manhã”, afirma a cientista.

Menos atividade física e mais calorias

Nos dois estudos utilizados na nova pesquisa, os meninos se mostraram em média mais pesados e mais altos do que as meninas – e também tinham uma circunferência abdominal maior. Em média, quando pulavam o café da manhã, os meninos europeus mostravam um aumento de 2,61 centímetros na circunferência abdominal, enquanto no caso dos brasileiros o aumento era de 2,13 centímetros.

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“Por outro lado, quando usamos o tempo de sono influenciando a associação entre os outros comportamentos e os marcadores de obesidade, observou-se que os meninos europeus e brasileiros que pularam o café da manhã, mesmo dormindo adequadamente [oito horas por dia ou mais], aumentaram em média 1,29 kg/m² e 1,69 kg/m² o índice de massa corporal, respectivamente”, disse Forkert. Pular o café da manhã foi o comportamento predominante entre meninos europeus e brasileiros.

As mesmas relações apareceram nas meninas europeias: mesmo dormindo adequadamente, aquelas que pulavam o café da manhã mostraram uma associação com os marcadores de obesidade geral e abdominal. “A circunferência abdominal aumentou em média 1,97 centímetro e a relação cintura-altura 0.02”, aponta a pesquisadora.

As meninas brasileiras se mostraram mais sedentárias do que os meninos. As europeias, apesar da menor prevalência de comportamentos sedentários, eram menos fisicamente ativas quando comparadas aos meninos europeus – porém, mais ativas do que os adolescentes brasileiros. O comportamento sedentário nas adolescentes europeias se refletiu em um aumento na circunferência abdominal (em média de 1,20 cm), mesmo tendo um tempo de sono adequado.

Por outro lado, os meninos brasileiros que dormiam menos de oito horas por dia, apresentaram “uma proteção quanto à obesidade geral”: em média uma diminuição de -0,93 kg/m².

Segundo a Forkert, embora tais comportamentos não tenha sido contemplados pelo estudo, “pode-se imaginar que, entre os adolescentes de comportamento mais sedentário e que passam mais tempo diante da televisão, no computador ou brincando com eletrônicos, eles podem estar se alimentando inadequadamente enquanto assistem televisão ou jogam. O sedentarismo associado ao maior consumo calórico é um caminho direto para a obesidade”. [Agência Fapesp]

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