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Omeprazol e antiácidos aumentam risco de doença crônica no fígado

Por , em 11.10.2017

Aproximadamente 10% da população toma remédios compostos por inibidores da bomba de prótons (IPP), como o Omeprazol, para bloquear as secreções de ácido estomacal e aliviar os sintomas de azia, refluxo ácido e refluxo gastroesofágico. Essa porcentagem pode ser até sete vezes maior para pessoas com doença hepática crônica. Porém, em um estudo publicado hoje (10), pesquisadores da Escola de Medicina da Universidade da Califórnia, nos EUA, descobriram evidências em camundongos e seres humanos que a supressão ácida do estômago altera bactérias intestinais específicas, promovendo lesão hepática e a progressão de três tipos de doenças hepáticas crônicas.

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“Nossos estômagos produzem ácido gástrico para matar micróbios ingeridos e tomar uma medicação para suprimir a secreção de ácido gástrico pode mudar a composição do microbioma intestinal”, explica o autor principal, Bernd Schnabl, professor associado de gastroenterologia na Escola de Medicina da Universidade de San Diego. “Uma vez que descobrimos anteriormente que o microbioma intestinal – comunidades de bactérias e outros micróbios que vivem lá – pode influenciar o risco de doença hepática, nos perguntamos o efeito que a supressão do ácido gástrico pode ter na progressão da doença hepática crônica. Descobrimos que a ausência de ácido gástrico promove o crescimento da bactéria Enterococcus nos intestinos e a translocação para o fígado, onde exacerbam a inflamação e pioram a doença hepática crônica”.

A cirrose hepática é a 12ª principal causa de morte em todo o mundo e o número de pessoas com doença hepática crônica está aumentando rapidamente nos países ocidentais. O aumento é em parte devido à crescente prevalência da obesidade, que está associada a doença hepática gordurosa não alcoólica (NAFLD) e sua forma mais extrema, a esteatohepatite não-alcoólica (NASH) – aproximadamente metade de todas as mortes associadas à cirrose são relacionadas ao álcool.

Os IPPs, que incluem nomes de marca como Omeprazol, estão entre os medicamentos mais comumente prescritos no mundo, particularmente entre pessoas com doença hepática crônica. Eles também são medicamentos relativamente baratos – é possível encontrar genéricos de Omeprazol com 30 cápsulas por cerca de R$10 a R$20.

Alteração no microbioma intestinal

Para determinar o efeito da supressão do ácido gástrico na progressão da doença hepática crônica, a equipe de Schnabl observou ratos que tinham doenças que imitavam doenças hepáticas alcoólicas, NAFLD e NASH em seres humanos. Em cada um deles, eles bloquearam a produção de ácido gástrico através da engenharia genética ou com IPP. Eles sequenciaram genes específicos de micróbios coletados das fezes dos animais para determinar a composição do microbioma intestinal de cada tipo de rato, com ou sem produção de ácido gástrico bloqueado.

Os pesquisadores descobriram que os ratos com supressão de ácido gástrico desenvolveram alterações em seus microbiomas intestinais. Especificamente, eles tinham mais espécies de bactérias Enterococcus. Essas mudanças promoveram inflamação hepática e lesão hepática, aumentando a progressão de todos os três tipos de doença hepática nos camundongos: doença hepática induzida pelo álcool, NAFLD e NASH.

Para confirmar que foi o número elevado de Enterococcus que agravou a doença hepática crônica, a equipe de Schnabl também colonizou ratos com a bactéria intestinal comum Enterococcus faecalis para imitar o crescimento excessivo de enterococos intestinais que haviam observado após a supressão do ácido gástrico. Eles descobriram que o Enterococcus sozinho era suficiente para induzir esteatose leve e aumentar a doença hepática induzida por álcool nas cobaias.

A equipe também examinou a ligação entre o uso de IPP e a doença hepática alcoólica entre pessoas que abusam de álcool. Eles analisaram 4.830 pacientes com diagnóstico de abuso crônico de álcool – 1.024 (21%) eram usuários ativos de IPP, 745 (15%) eram usuários anteriores e 3061 (63%) nunca usaram IPPs.

Os pesquisadores observaram que a ingestão de IPP entre esses pacientes aumentou as concentrações de Enterococcus nas fezes. Além disso, o risco de um diagnóstico de doença hepática alcoólica dentro de 10 anos foi de 20,7% para usuários ativos de IPPs, 16,1% para usuários anteriores e 12,4% para não usuários. Em outras palavras, a taxa de doença hepática em pessoas que abusam do álcool cronicamente foi 8,3% maior naqueles que usam ativamente IPPs em comparação com aqueles que nunca usaram os medicamentos que bloqueiam o ácido gástrico.

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Os pesquisadores concluíram que existe uma associação entre o uso de IPP entre pessoas que abusam de álcool e risco de doença hepática. No entanto, eles ainda não podem excluir a possibilidade de que haja outros fatores não identificados que diferem entre os pacientes que tomam e não tomam IPPs, o que pode confundir a relação entre o uso de IPP e a doença no fígado.

Métodos não-farmacológicos

Embora este estudo dependa de modelos usados em ratos, de uma base de dados de pacientes e um ensaio clínico grande, randomizado e controlado seria necessário para mostrar definitivamente a causalidade entre o uso de IPP e o risco de doença hepática crônica em seres humanos, Schnabl diz que os dados iniciais devem pelo menos fazer as pessoas pensarem em reduzir o uso dos IPPs nos casos em que eles não são uma necessidade.

Existem alternativas de baixo custo e prontamente disponíveis para IPPs. Contudo, mesmo os antiácidos não baseados em IPP ainda suprimem o ácido gástrico em menor grau. Embora esses outros tipos de antiácidos não tenham sido testados neste estudo, Schnabl disse que qualquer medicação que suprima o ácido gástrico de forma eficaz poderia causar alterações nas bactérias intestinais e, portanto, potencialmente afetar a progressão da doença hepática crônica. Alternativamente, métodos não-farmacológicos para combater a azia são uma opção para alguns pacientes, incluindo perda de peso e redução da ingestão de álcool, cafeína e alimentos gordurosos e picantes.

“Nossas descobertas indicam que o aumento recente do uso de medicamentos de supressão de ácido gástrico pode ter contribuído para o aumento da incidência de doença hepática crônica”, diz Schnabl. “Embora a obesidade e o consumo de álcool predisponham uma pessoa ao refluxo ácido que requer medicação antiácida, muitos pacientes com doença hepática crônica tomam medicamentos supressores de ácido gástrico sem a indicação apropriada. Acreditamos que os clínicos devem considerar a retenção de medicamentos que suprimem o ácido gástrico a menos que haja uma forte indicação médica”.

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Esta nova informação também pode fornecer uma nova linha terapêutica que os pesquisadores poderiam explorar como um meio para reduzir o risco de lesões hepáticas em algumas pessoas.

“Podemos algum dia ser capazes de manipular o microbioma intestinal, e em particular o Enterococcus faecalis, para atenuar a doenças do fígado relacionadas ao álcool associadas à supressão do ácido gástrico”, prevê Schnabl. [Medical Xpress]

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