Ossos encontrados em estacionamento são do rei Ricardo III da Inglaterra

Por , em 5.02.2013

Há cinco meses, arqueólogos britânicos conseguiram determinar o local, em Leicester (Inglaterra), onde havia uma modesta capela durante a Idade Média. Com radares de penetração no solo, eles foram em busca de ossadas humanas – e encontraram, cavando no terreno onde hoje existe um estacionamento. Agora, apontam a quem pertencia o esqueleto: o rei Ricardo II.

Os cientistas são taxativos ao afirmar que têm certeza que o esqueleto pertence ao antigo monarca, que reinou durante o século XV, por uma série de razões. A mais conclusiva é que o exame de DNA dos ossos (que agora estão guardados em local seguro na Universidade de Leicester) encontrados bate com o de dois descendentes da 17ª geração de Ricardo III. Um deles preferiu não ter o nome revelado. O outro, Michael Ibsen, é canadense, e foi convidado a acompanhar as escavações que revelaram o esqueleto de seu nobre ancestral.

Testes da radiocarbono, por sua vez, indicam que o esqueleto pertence a um homem que morreu entre 1455 e 1540 e que tinha cerca de 30 anos ao falecer. O Rei Ricardo, que foi desta para uma melhor aos 32 anos de idade em agosto de 1485, bate com ambas as descrições.

Mas o que faz a descoberta ser notória não são tanto estas evidências científicas, mas uma histórica. O crânio e outros ossos estão cheios de marcas do que parecem ser ferimentos. Os pesquisadores acreditam que o Rei Ricardo arranjou a maior parte delas na luta que pôs fim à sua vida – a Batalha de Bosworth Field. A morte e derrota de Ricardo marcaram o fim da dinastia Plantageneta, da casa de York, que governara os rumos do país por mais de 300 anos.

As marcas de ferimentos no esqueleto são representativas porque contam muito sobre Ricardo III. Soberano belicista, morreu jovem no campo de batalha, governou a Inglaterra por apenas dois anos em um reinado que ficou marcado pela violência.

Quem foi este rei?

Ricardo III se tornou rei da Inglaterra quase por acaso. Não sendo o primogênito, ele assistiu o irmão mais velho, Eduardo IV, ostentar a coroa por 22 anos, um tempo consideravelmente longo para a época. Quando o monarca faleceu, quem tinha direito natural ao trono não era Ricardo, mas sim seu sobrinho, o até então príncipe Eduardo V. Como ele tinha apenas 12 anos à época da morte do pai, Ricardo foi promovido a “Lorde Protetor” até que Eduardo V pudesse assumir.

A roda do destino girou, porém, e o casamento de Eduardo IV com a mãe do menino, Elizabeth Woodville, foi considerado inválido, o que tornou Eduardo V ilegítimo para reinar. Ricardo III foi guinado dessa forma ao poder, e sua coroação aconteceu em um momento de grande tensão política na nobreza da Inglaterra.

Para começar, há fortes indícios de que foi o próprio Ricardo quem tramou a invalidez do casamento do irmão, pelo motivo óbvio de usurpar o poder de seu sobrinho. A maior evidência disso é o fato de que Eduardo V e seu irmão mais novo, também chamado Ricardo, foram dados por desaparecidos. Quase cem anos depois, foi descoberto que ambos morreram na Torre de Londres (hoje local de intenso turismo na capital britânica), apenas um mês depois de Ricardo III assumir a coroa.

Uma parcela da nobreza britânica, que era a favor da manutenção do jovem Eduardo V no poder, considerou Ricardo III culpado pelos desaparecimentos. A luta entre as duas facções deu início a duas rebeliões violentíssimas que ceifaram milhares de vidas de ambos os lados envolvidos. No dia 22 de agosto de 1485, Ricardo III foi derrotado e seu corpo sepultado em uma capela que deixou de existir há séculos.

Sobre um rastro de mortos e feridos de ambos os lados, o inimigo de Ricardo III, Henry Tudor, assumiu a coroa da Inglaterra. Mas o drama do rei morto em combate só ganhou notoriedade mais de cem anos depois, em 1592, quando William Shakespeare escreveu um de seus mais famosos roteiros. Intitulada “Ricardo III”, a obra conta com tons românticos a ascensão e queda do monarca cujo esqueleto foi encontrado hoje, mais de cinco séculos depois. [The New York Times / O Globo]

Reconstrução 3D da face de Ricardo III baseada no crânio encontrado

Reconstrução 3D da face de Ricardo III baseada no crânio encontrado

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2 comentários

  • Wesley Nathan Medeiros Sa:

    pela foto…ele ta meio tortinho ali vcs nao acham?

  • Rowan:

    Li sobre esta descoberta em vários jornais. Nas tvs e rádios que costumo ver e ouvir o assunto mereceu algumas notas. Embora o tema seja, jornalísticamente falando, riquíssimo, permitindo abordagens criativas e interessantes, tudo o que vi foi enfadonho e repetitivo com base em material de agências. Por isso, cara Stephanie te parabenizo. Você preocupou-se em explicar quem foi Ricardo III indo além de lembrar que Shakespeare lhe dedicou uma tragédida. Além disso, a foto do esqueleto é elucidativa para compreensão da corcunda do rei. Afinal, nem todo mundo é obrigado a saber o que é escoliose e muito menos quem foi o personagem real. Tua reportagem tem a qualidade de um jornalismo que, a cada dia, parece perder-se nas brumas das redações.
    PS: Pelo que li do teu texto penso que tuas poesias deveriam rebelar-se contra o encarceramento das gavetas.

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