Pedra filosofal é a Transformação primordial que a Alquimia sonhou e não realizou

Por , em 23.06.2014

A  PEDRA FILOSOFAL

Um dos assuntos preferidos nos meus tempos de faculdade de Química era, sem dúvida, a Alquimia.

Muito se escreveu e muito se tem escrito sobre essa célebre arte sagrada praticada na antiguidade, seja na Mesopotâmia, na China ou no Egito.

E seu ideário é impressionante.

Aliás, é acalentador o sonho da realização da grande obra alquímica, que é a produção da pedra filosofal ou pó de projeção — um catalisador fantástico capaz de entre outras coisas transmutar o chumbo em ouro.

Um sonho tentador.

Principalmente no que tange a essa perturbadora possibilidade de se ter esse poder de transformar qualquer material vil em algo de extremo valor e com isso conquistar riquezas extraordinárias sem depreender muito esforço.

E a alquimia nos fornece muito mais ainda em termos de possibilidades perturbadoras, além da riqueza instantânea.

Temos também outros dois sonhos acalentados há milênios: o célebre elixir da longa vida e a panaceia — ou cura para todas as doenças.

Respeitando as devidas proporções desse ideário alquímico parece que a Tecnologia Química vem obtendo êxitos significativos à medida que transforma areia em microchips e ar, petróleo e alcatrão em anti-inflamatórios, vacinas e antibióticos.

E é notório que essas suas aplicações na medicina e na bioquímica conseguiram quase que triplicar a esperança de vida da população e erradicar centenas de doenças.

A má notícia é que a riqueza instantânea conseguida pelos impérios tecnológicos é pessimamente distribuída, assim também no que tange aos avanços na medicina, na agricultura, na produção dos bens de consumo, etc. enquanto a poluição e o esgotamento dos recursos naturais ameaçam a tudo e todos.

Fica patente que a política dominante defende a privatização das benesses oriundas desse modelo de gestão da ciência enquanto que suas mazelas são coletivizadas.

Capitalizam-se os lucros — socializam-se os prejuízos.

Isso tem sido feito há milênios.

Conseguimos erradicar a peste negra, mas fomos incapazes de erradicar o orgulho ou a inveja ou a hipocrisia ou ao egoísmo, etc.

Nem mesmo conseguimos erradicar o nosso hábito secular de falar mal dos vizinhos e dos parentes ou o de fazer promessas que nunca serão cumpridas.

Criamos máquinas inteligentes que fazem cálculos rapidíssimos, porém nos tornamos a cada dia que passa, coletivamente mais imbecis e idiotas; seja no trânsito, no trabalho, no trato conjugal ou com a família; seja nos cuidados essenciais para preservar os ambientes social e natural.

Produzimos redes de comunicação em massa e ninguém se comunica de verdade e nem com a verdade.

Que comunicação é essa?

Construímos máquinas voadoras fantásticas que nos fazem ascender aos céus em extraordinárias velocidades, mas fomos incapazes de nos elevarmos moralmente um milímetro sequer.

Somos os mesmos bárbaros de sempre. Com sangue nos olhos.

– Apenas evoluímos em nosso jeito de matar.

E como mudar isso?

É preciso, então, enfatizar que o sonho alquímico teria que ser realizado por inteiro.

Um sonho que está apoiado na primeira das grandes transmutações.

A mais importante e primordial de todas.

Aquela que acontece dentro do próprio alquimista — nesse pequeno espaço de seu coração.

-o-

[Leia os outros artigos de Mustafá Ali Kanso]

 

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7 comentários

  • Cesar Grossmann:

    A transmutação do chumbo em ouro é possível e já foi feita. Só que usa aparatos de física nuclear…

    http://www.lqes.iqm.unicamp.br/canal_cientifico/pontos_vista/pontos_vista_divulgacao60-1.html

  • Juliana Almeida:

    Ótimos pontos levantados pelo texto. Me faz pensar sobre um antigo preconceito que eu tinha, de achar não poderia haver satisfação, conforto ou paz na louca cortida das descobertas científicas. Agora penso que a curiosade é não uma insatisfação contínua, mas sim uma satisfação contínua, depedendo dos valores de onde ela parte.

  • jose Senen de Alencar:

    Nem tudo está perdido. Basta as pessoas de boa vontade se apoiarem na primeira das grandes transmutações, ou seja, realizá-la em nós mesmos.

  • Lizzard Medeiros:

    Texto fantástico! Realmente uma das bases mais importantes e sutis da alquimia, que aparentava ser a mais simples, nunca foi alcançada!

  • Walter Paixão:

    Excelente matéria Mustafá Ali Kanso.

    Acrescentaria uma frase que eu vi no documentário Cosmos dita mais ou menos assim por Neil De Grasse Tyson:

    “Cientistas não tem vergonha de não saber, faz parte da curiosidade humana e nunca alguém saberá tudo sobre todas as coisas.”

    Um pensamento que deve ser levado por todas as pessoas em todos os níveis de intelectualidade, ou seja, dos leigos aos experts.

  • Raimundo Carvalho Dos Santos:

    A evolução da criatura é como o bater de asas de um pássaro. De um lado a asa do conhecimento, do outro da condição moral. Se não houver harmonia no bater das asas, o pássaro não voa.

  • Theo Miliani:

    Infelizmente eu e mais uns poucos observamos esse comportamento e mais nada, porque como lidar com a inveja, ganancia, egoismo e afins?
    Quando um ou outro mais corajoso ou mais inocente tenta ser diferente, é imediatamente excluído da sociedade, mostrando que realmente ele não querem ser nem um pouco melhores.
    Com essa visão que eu as vezes concordo com os “Fazedores de Apocalipse”, realmente que venha e acabe com tudo…
    Quem sabe na próxima vez acertamos?

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