Japoneses desenvolvem pele realista em laboratório

Por , em 11.04.2016

Cientistas no Japão transplantaram com sucesso em ratos uma pele cultivada em laboratório que possui mais funções do órgão do que nunca. Partindo de células-tronco feitas a partir das gengivas de um rato, eles conseguiram criar uma pele com múltiplas camadas – como os folículos capilares e as glândulas sudoríparas.

Quando implantada em um “rato nu” com um sistema imunitário suprimido, o órgão se integrou bem e germinou pelos. Os pesquisadores dizem que esse sucesso vai levar de 5 a 10 anos para se traduzir em benefício para os seres humanos. Mas, eventualmente, a equipe espera seu sistema levará a uma pele perfeitamente funcional que poderá ser cultivada a partir de células de vítimas de queimaduras e transplantadas de volta para elas.

Órgãos personalizados

Isso seria muito superior às técnicas de cultivo e de enxerto que estão atualmente disponíveis, que produzem uma pele sem muitos dos componentes biológicos e funcionalidades que estamos acostumados. A técnica também poderia ser adaptada para a fabricação de amostras de pele realistas que a indústria farmacêutica ou empresas de cosméticos poderiam usar para testar os seus produtos – em vez de usar animais. As descobertas, relatadas na revista Science Advances, foram recebidas com entusiasmo por outros cientistas que trabalham neste campo.

Takashi Tsuji é o autor sênior do artigo. Ele afirma que o sonho de fazer voltar a crescer órgãos personalizados estava começando a se materializar: “Até agora, o desenvolvimento da pele artificial tem sido dificultado pelo fato de que a pele não tinha partes importantes, como folículos pilosos e glândulas exócrinas, que permitem que desempenhe o seu importante papel de regulação. Com esta nova técnica, temos desenvolvido com sucesso pele que replica a função do tecido normal. Estamos chegando cada vez mais perto do sonho de ser capazes de recriar órgãos reais no laboratório para transplante”, se anima.

Tsuji, que é do Centro Riken de Biologia do Desenvolvimento, em Kobe, no Japão, conduziu a pesquisa com colegas em Tóquio, Sagamihara e Sendai. Eles começaram seus experimentos pegando células da gengiva de um rato e as convertendo em “células-tronco pluripotentes induzidas” ou iPSCs. Esta é uma técnica popular e promissora na investigação sobre células estaminais, descoberta em 2006, que banha as células em produtos químicos para “fazer o relógio andar para trás”. As células resultantes, como as de um embrião, podem dividir uma e outra vez, e ser guiadas por muitas vias de desenvolvimento para se tornar praticamente qualquer tipo de célula do corpo.

A verdadeira conquista da equipe foi “persuadir” essas células a formar as diferentes camadas e estruturas da pele – o “órgão tegumentar” que protege nossos corpos, desenvolve o sentido do tato, regula o calor e tem várias outras funções.

“Um time inteiro interagindo”

John McGrath, professor de dermatologia molecular do Kings College de Londres, afirma que este estudo era algo que os pesquisadores em seu campo estavam procurando – e foi um substancial passo em frente. Ele disse à BBC que o novo sistema nos levou “até o meio do caminho” para o desenvolvimento de pele funcional para pacientes humanos – os esforços anteriores tinham tropeçado em fases muito mais precoces.

“É uma recapitulação da arquitetura normal da pele”, diz o professor McGrath. “Então, ao invés de ter pedaços isolados, aqui nós realmente temos uma caixa inteira de coisas. Para lhe dar uma analogia de futebol: qualquer um pode ter Wayne Rooney, mas agora temos o Manchester United todo. Há toda uma equipe em campo, de jogadores que interagem”, empolga-se.

E isso significa que há esperança, acrescenta, para uma pele realista cultivada em laboratório.

“Os enxertos de pele funcionam, mas eles não se parecem ou se comportam realmente como pele. Se você não tem os folículos pilosos e você não tem as glândulas sudoríparas e as outras coisas, isso não vai funcionar como pele”, compara.

McGrath disse também que muitos outros laboratórios estariam agora tentando reproduzir essas descobertas – e adaptá-las para diferentes fins, como a recriação de doenças de pele para experimento de tratamentos. “Haverá muitos benefícios para uso imediato, bem como para a ciência translacional (pesquisa que tem seu início na ciência básica e sua conclusão na aplicação prática do conhecimento aprendido)”, afirma ele. [BBC]

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