Estudo sugere que criatividade e neuroticismo são dois lados da mesma moeda

Vários estudos têm encontrado uma ligação entre criatividade e neuroticismo, que é uma tendência à ruminação e ao pensamento negativo. Agora, pesquisadores britânicos propuseram que essas características podem ser duas faces da mesma moeda.

Gênios da criatividade neuróticos

Isaac Newton formulou as leis da gravidade, construiu telescópios e mergulhou em teorias matemáticas. Ele também era propenso a crises de depressão e teve um colapso mental. Charles Darwin, autor da famosa teoria da evolução, tinha náuseas e desconforto gastrointestinal em resposta ao estresse. Psicólogos modernos sugerem que ele possuía um transtorno do pânico. Winston Churchill se referiu ao seu humor negro como seu “cão preto”, levando a especulações de que ele poderia ter tido episódios de depressão.

Seja qual for a verdade por trás da saúde mental desses homens proeminentes, o neuroticismo parece um traço de personalidade comum em pessoas criativas.

Pessoas neuróticas são mais suscetíveis à doença mental e piores em profissões de alto risco, como aviação militar, que exigem frieza sob pressão. Por outro lado, são mais ligadas a atividades criativas. Estudos descobriram, por exemplo, que artistas e outras pessoas criativas fazem maior pontuação em testes de neuroticismo do que as pessoas que não estão em campos inventivos.

“Isso é algo que me incomodou por um longo tempo”, disse Adam Perkins, professor de neurobiologia da personalidade do Kings College London, no Reino Unido.

O bom é também o ruim

Perkins ouviu uma palestra de Jonathan Smallwood, psicólogo e especialista em sonhar acordado na Universidade de York, na Inglaterra, onde ele mencionou que as pessoas que relatam altos níveis de pensamentos negativos têm grande ativação em uma região do cérebro chamada córtex pré-frontal medial, mesmo quando estão apenas descansando. Esta área, que fica atrás da testa, está envolvida na avaliação de ameaça.

“Essas pessoas podem estar deitadas na cama ou sentadas em uma poltrona em um ambiente perfeitamente neutro, e ainda assim sentir que estão sob ameaça”, explica Perkins.

Estes “pensamentos autogerados” podem, obviamente, deixar as pessoas infelizes, por imaginarem problemas que não existem. Estudos mostram que os neuróticos também têm amídalas sensíveis, estruturas cerebrais envolvidas no processamento do medo e ansiedade. Assim, não só inventam dificuldades, mas tendem a ficar muito estressados com elas.

Mas pensamentos autogerados também estão ligados a habilidades de planejamento e capacidade de adiar a gratificação. “As pessoas neuróticas tendem a ser melhores em criar soluções para as coisas”, afirma Perkins. Assim, a tendência neurótica de se debruçar sobre as coisas poderia ser a própria raiz da sua criatividade e habilidade de resolução de problemas.

Genialidade e ansiedade, dois lados da mesma moeda

No novo artigo de Perkins e seus colegas, eles teorizam que os cérebros de pessoas neuróticas podem ter uma “rede de modo padrão” persistente, um circuito no cérebro ativado quando elas não estão fazendo nada em particular. O córtex pré-frontal medial é parte desse sistema.

Se as pessoas neuróticas têm dificuldade para desligar esta rede geradora de pensamento, isso pode torná-las mais propensas a cismar e a remoer problemas, tanto reais quanto imaginários.

Isso tem desvantagens – uma tendência a ficar em pânico por causa de problemas imaginados -, e vantagens – como ser mais propenso a se deparar com uma solução do que uma pessoa que vive no momento e nunca parou para pensar nos obstáculos.

Provas

Essa é uma hipótese interessante, mas fazer um trabalho experimental para prová-la vai ser difícil. De acordo com Perkins, é complicado medir a criatividade em laboratório. A maioria dos testes envolve dar aos participantes um objeto comum e pedir-lhes para listar o maior número de usos para esse objeto que conseguirem. Isso pode não ser ideal ou abrangente o suficiente para identificar pessoas realmente criativas, que são raras.

Um passo concreto em direção a provar o elo poderia ser estudar a atividade pré-frontal medial no córtex de pessoas com altos níveis de neuroticismo.

“Espero que [a hipótese] dê algum impulso para as pessoas que são mais inteligentes do que nós para inventar alguns bons testes”, brinca Perkins. [LiveScience]

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