Por que a maioria das pessoas que usam drogas não se viciam?

Por , em 15.01.2015

O uso de drogas é comum, a toxicodependência é rara. Por quê?

Quem já viu uma propaganda antidroga tem a ideia de que essas substâncias são maléficas e que só de chegar perto delas sua vida irá para o ralo.

No entanto, cerca de um em cada três adultos vai usar uma droga ilegal pelo menos uma vez em sua vida, e quase nenhum deles irá jogar sua vida para o ralo por causa disso.

Na Inglaterra e no País de Gales, um pouco menos de 3 milhões de pessoas vão usar drogas apenas este ano. Em comparação, existem cerca de 300.000 viciados em heroína e/ou em crack, enquanto cerca de 30.000 foram tratados com sucesso para dependência de drogas na Inglaterra em 2011 e 2012, normalmente de maconha ou cocaína.

De acordo com uma pesquisa do Centro Brasileiro de Informação sobre Drogas, em 2001, 19,4% dos entrevistados já haviam usado algum tipo de droga, sem considerar álcool e tabaco. Em 2005, este número subiu para 22,8%, o que corresponde a uma população estimada de aproximadamente 11.603.000 pessoas. Houve aumento no consumo de maconha, benzodiazepínicos, estimulantes, solventes e cocaína.

Ainda com dados de 2005, a prevalência em porcentagem e população estimada do uso de diferentes drogas psicotrópicas na vida é 22,8%, para qualquer droga. No entanto, só ocorreram 199 mortes relacionadas a qualquer substância de abuso (excluindo-se álcool e tabaco) no mesmo ano.

O vício é um quadro social

Há riscos imediatos e consequências a longo prazo para a saúde associados com o uso intenso ou prolongado de drogas, overdose e intoxicação. Por exemplo, a lesão dos pulmões do fumo de maconha ou lesões na bexiga do uso de cetamina.

No entanto, a maioria das pessoas passa incólume por um curto período de experimentação ou aprende a acomodar o uso da droga a seu estilo de vida, ajustando os padrões de uso a suas circunstâncias sociais e domésticas, como já fazem com o álcool.

O vício, ao contrário do uso, é fortemente concentrado em comunidades mais pobres. Dentro delas, os indivíduos que mais têm dificuldade são os que sucumbem. Em comparação com o resto da população, viciados em heroína e crack são: do sexo masculino, da classe trabalhadora, infratores, com baixos níveis de escolaridade, com pouco ou nenhum histórico de emprego, pouca estrutura familiar, vulnerabilidade à doença mental e mais de 40 anos com declínio de saúde física.

O consumo de maconha é menos concentrado entre os pobres, mas está intimamente associado com indicadores de estresse social e uma vulnerabilidade para o desenvolvimento de problemas de saúde mental.

Os fatores que influenciam

A maioria dos usuários de drogas são pessoas inteligentes, com recursos, boas habilidades, apoio de amigos e de uma família amorosa. Isso lhes permite gerir os riscos associados com o uso de drogas, evitando as mais perigosas e gerenciando sua frequência e escala de utilização para reduzir danos e maximizar o prazer.

Fundamentalmente, eles terão acesso ao apoio da família e dos amigos se começarem a desenvolver problemas, e uma perspectiva realista de um trabalho, uma casa e uma participação na sociedade para se concentrar e manter a sua motivação para abandonar a droga que está lhe prejudicando.

Em contrapartida, os indivíduos mais vulneráveis nas comunidades mais pobres carecem de recursos e têm redes de apoio que causam mais problemas em vez de oferecer soluções. Eles tendem a priorizar benefício imediato, em vez de consequências a longo prazo. Os desafios que enfrentam lhes dão pouco incentivo para evitar comportamentos de alto risco.

Juntos, esses fatores tornam mais provável que, em vez de calibrar cuidadosamente o seu uso de drogas para minimizar o risco, eles estarão preparados para usar as drogas mais perigosas nas formas mais perigosas. E, uma vez viciados, a motivação para se recuperar e sua probabilidade de sucesso nessa empreitada são enfraquecidos por uma ausência de apoio familiar, poucas perspectivas de emprego, habitação insegura e isolamento social.

Conclusão

Em resumo, o que determina ou não se o uso de drogas se transformará em vício, e o prognóstico de sucesso uma vez que se tornar, tem menos a ver com o poder da droga e mais a ver com as circunstâncias sociais, pessoais e econômicas do usuário.
De fato, não é impossível que um indivíduo bem sucedido e com uma boa estrutura familiar sucumba ao poder da droga. Mas isso é atípico.

Estes casos raros abafam a experiência da esmagadora maioria dos viciados com histórico de isolamento social, exclusão econômica, criminalidade e saúde mental frágil. Também torna as políticas antidrogas pouco eficazes, uma vez que se orientam por uma ideia ultrapassada. [IFLS, OBID]

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