Como os cogumelos alucinógenos rearranjam seu cérebro

Por , em 3.11.2014

Uma nova maneira de olhar para a atividade cerebral pode dar dicas sobre como as drogas psicodélicas, como os cogumelos alucinógenos, produzem os seus efeitos alterando a nossa consciência.

Nos últimos anos, o foco em estruturas e regiões do cérebro deu lugar a uma ênfase em redes neurológicas: os cientistas passaram a se interessar mais em como as células e regiões interagem, com a consciência não moldada por um determinado conjunto de regiões cerebrais, mas por sua interação.

Compreender as redes, no entanto, não é tarefa fácil. Os pesquisadores estão desenvolvendo formas cada vez mais sofisticadas de caracterizá-las. Uma abordagem desse tipo, descrita em um novo estudo, envolve não simplesmente redes, mas redes de redes.

Talvez alguns aspectos da consciência surjam a partir dessas meta-redes. Para investigar essa proposição, os pesquisadores analisaram exames de ressonância magnética de 15 pessoas depois de serem injetadas com psilocibina, o ingrediente ativo dos cogumelos alucinógenos, e comparou-as a exames de sua atividade cerebral depois de receber um placebo.

Investigar a psicodelia não era o objectivo direto do experimento, segundo o coautor Giovanni Petri, matemático do Instituto Italiano para Intercâmbio Científico. Melhor do que isso, a psilocibina é um sistema de teste ideal: ela é uma maneira infalível de alterar a consciência.

“Em um cérebro normal, muitas coisas estão acontecendo ao mesmo tempo. Você não sabe o que está havendo, ou o que é responsável por qual coisa”, explica Petri. “Então você tenta perturbar o estado de consciência um pouco, para ver o que acontece”.

A representação do que é visto está na imagem abaixo. Cada círculo representa relações entre redes – os pontos e cores correspondem não a regiões do cérebro, mas a redes especialmente ricas em conexões – com o cérebro em estado normal na esquerda, e cérebros influenciados pela psilocibina à direita.

cogumelos alucinogenos

Em termos matemáticos, de acordo com Petri, cérebros normais têm um estado de correlação bem ordenado. Não há muitas conexões cruzadas entre as redes. Isso muda após a dose de psilocibina. De repente, as redes se cruzam como loucas, mas não de forma aleatória. Novos tipos de ordem emergem.

“Podemos especular sobre as implicações de tal organização”, escreveram os pesquisadores, que foram liderados pelo neurobiólogo Paul Expert do King College de Londres. “Um possível subproduto dessa maior comunicação por todo o cérebro é o fenômeno da sinestesia” – o “mix sensorial” comum durante as experiências psicodélicas: a degustação de cores, sentir os sons, ver os cheiros, e assim por diante.

Petri observa que a representação da rede acima ainda é uma abstração simplificada, com a análise mapeada em um suporte circular e bidimensional. A forma mais verdadeira de visualizar isso, segundo ele, seria em três dimensões, com ligações entre as redes que formam uma topografia semelhante a uma esponja.

Esse nível de interpretação ainda está para além da matemática dos pesquisadores, diz Petri. Eles esperam refinar seus métodos em pesquisas futuras, para acompanhar as flutuações das redes durante longos períodos de tempo e com diferentes drogas.

“A grande questão da neurociência é saber de onde a consciência vem”, conta Petri. Por enquanto, diz ele, “nós ainda não sabemos”. [Wired]

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