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Quando “se matar de trabalhar” é uma realidade

Por , em 27.10.2009

Uma série de suicídios de empregados da empresa de telecomunicações francesa, a Telecom France, trouxe à tona mais uma vez a discussão sobre o stress no ambiente de trabalho e o impacto devastador que ele pode ter sobre os trabalhadores. Desde o início de 2008, houve 24 casos de suicídios e 13 tentativas entre os 100 mil empregados da Telecom.

No início de outubro, um homem de 51 anos, pai de duas crianças, pulou de uma ponte. Na sua carta de despedida, ele afirmava que a sua morte acontecia devido à “atmosfera” no seu trabalho. Sindicatos culpam a reestruturação dos postos de trabalho e as condições precárias de trabalho como os principais causadores do stress.

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Na mesma época, Louis-Pierre Wenes um dos executivos-chefe da Telecom pediu demissão do seu cargo, e afirmou que nada justifica que homens e mulheres tirem a própria vida por causa do trabalho. “Agora, como antes, não posso aceitar isso”, disse.

Patricia Pegg Jones trabalha como consultora de bem-estar e saúde na Fundação Work (trabalho, em inglês), que oferece consultoria para melhorar as condições de trabalho em vários locais. Jones afirma que a recessão econômica aumentou muito a pressão sobre os trabalhadores. “Na situação atual as pessoas têm menos controle, o futuro é mais incerto e elas ficam inseguras” diz.

Ela aponta que uma das evidências que os trabalhadores podem sofrer mais com o stress na recessão é fato de muitos irem ao trabalho mesmo quando não têm condições por estarem doentes, por exemplo. Jones também diz que a falta de autonomia no ambiente de trabalho pode comprometer a saúde dos empregados.

De acordo com Jones, empregadores podem ajudar a diminuir o stress dos trabalhadores comunicando a eles e explicando as mudanças que podem ocorrer no ambiente de trabalho. “É importante reconhecer que nem todos trabalhadores reagem do mesmo modo às reestruturações que ocorrem devido à recessão”, lembra a consultora.

Morte por excesso de trabalho

Stress no ambiente de trabalho pode ser muito prejudicial à saúde dos trabalhadores, mas trabalhar demais também tem seu perigo. No Japão, mortes entre empregados são tão comuns que existe até mesmo uma palavra para definir a morte por excesso de trabalho, “karoshi”.

O advogado Toshiro Ueyanagi é especializado em casos de “karoshi”, e revela que grande parte dos casos ocorrem devido a ataques cardíacos e derrames. Ele também aponta que o excesso de trabalho pode levar a doenças mentais. Ueyanagi afirma que é muito difícil provar que uma morte ocorreu por este motivo, o que leva o problema a ser subnotificado. O governo japonês registra 377 casos de “karoshi” em 2008, mas o advogado acredita que o número pode chegar a dez mil trabalhadores.

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“Acredito que o fenômeno é forte no Japão porque temos uma tradição de trabalhar muito e também temos leis e regulamentações trabalhistas muito fracas”, diz Ueyanagi. Ele acrescenta que, apesar da conscientização sobre o problema de excesso de trabalho, a desregulamentação das profissões e o aumento da competição global faz com que os empregados japoneses trabalhem mais que nunca. “Muitos trabalhadores perderam o emprego, então aqueles que permanecem trabalhando têm que se esforçar mais que antes”, diz.

Ueyanagi também afirma que os motivos para levar esta luta a sério são pessoais, e mostram que o “karoshi” pode ocorrer mesmo quando é indireto: “Acredito que meu pai morreu de câncer porque estava muito ocupado para ir a um médico”. Por isso, além de atender casos de famílias de trabalhadores que morreram por excesso de trabalho, o advogado também montou um atendimento telefônico especializado para explicar como prevenir problemas sérios como o “karoshi” e como lidar com o stress. [CNN]

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1 comentário

  • Michel:

    Por isso que digo: “Melhor ser um pobre vivo à ser um defunto rico.”

    …. ou será que não?!

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