Este transplante de rosto é o mais bem sucedido até agora

Por , em 30.11.2018

Cameron Underwood passou por 25 horas de cirurgia em janeiro de 2018 para receber um novo rosto. Ele foi o paciente que recebeu este transplante com mais agilidade até agora, e isso significou uma ótima recuperação. “Eu tenho um nariz, uma boca e consigo sorrir, falar e comer alimentos sólidos de novo”, comemora ele.

O médico responsável pelo procedimento e que acompanha a recuperação do rapaz norte-americano, Eduardo D. Rodriguez, conta que a rapidez em receber o novo rosto fez toda a diferença. A cirurgia aconteceu apenas 18 meses depois da tentativa de suicídio do jovem de 26 anos, o período mais curto entre ferimento e cirurgia já registrado nos EUA.

Ele entrou para a fila de transplante em julho de 2017 e um doador compatível foi identificado apenas seis meses depois.

“Cameron não viveu com este ferimento por uma década ou mais como a maior parte dos nossos transplantados. Como resultado, ele não teve que lidar com muitos problemas psicossociais que frequentemente acabam em depressão severa, vício em drogas e outros comportamentos potencialmente destrutivos”, explica ele.

Rodriguez realizou este procedimento pela terceira vez em sua carreira, com a ajuda de 100 profissionais de várias áreas diferentes. A enorme operação aconteceu no centro de saúde NYU Langone, em Manhattan, Nova York. Detalhes sobre a recuperação de Cameron foram anunciados na última semana pelo hospital.

Durante a cirurgia, o médico transplantou e reconstruiu a mandíbula superior e inferior do jovem, incluindo seus 32 dentes e gengiva. O céu da boca, pálpebras inferiores e nariz foram substituídos e sua língua passou por reconstrução. Ele recebeu uma rede metálica abaixo dos globos oculares, para reconstruir o assoalho da órbita.

Uma técnica pioneira do procedimento foi a impressão em 3D de uma guia que ajudou na retirada das estruturas necessárias do rosto do doador e na inserção dos tecidos, ossos e nervos nos pontos corretos do rosto do transplantado.

Confira no vídeo abaixo uma animação publicada pelo centro de saúde NYU Langone sobre o procedimento:

Ferimento

Cameron Underwood (direita) antes do incidente

Cameron é da cidade de Yuba, na Califórnia, e enfrentava depressão desde o final da adolescência. Em junho de 2016, aos 24 anos, a doença progrediu, e depois de recorrer ao álcool para tentar amenizar suas dores, ele acabou se ferindo com uma arma de fogo.

Ele sobreviveu, mas ficou sem a maior parte da mandíbula, nariz e dentes. Apesar de passar por várias cirurgias de reconstrução convencional, ele continuava impedido de ter uma vida normal. Cameron não conseguia falar e se alimentava por um tubo.

Um dia, sua mãe, Beverly Baily-Potter, leu uma matéria jornalística sobre um programa de transplante de face do centro de saúde NYU Langone. Ela imediatamente entrou em contato com o diretor do programa, Rodriguez, e conseguiu agendar uma consulta. Beverly e seu filho atravessaram os EUA para realizar o procedimento em Nova York.

Recuperação

Cameron ficou 60 dias internado no hospital depois sua grande cirurgia. Depois, passou por mais oito meses de reabilitação em que recuperou os movimentos dos músculos do novo rosto, passou por mais procedimentos para alinhar os dentes e reaprendeu a falar e comer alimentos sólidos.

Sua reabilitação em Nova York durou um mês, e ele finalmente pode continuar a luta em casa. Mesmo assim, ele ainda viaja uma vez por mês para Nova York para acompanhamento médico. Cameron ainda vai passar por três a cinco anos de fisioterapia.

A sensação no seu rosto ainda é limitada, e o médico a comparou com estar sob efeito de novocaína. Este anestésico é muito utilizado em cirurgias locais e cirurgias odontológicas. Seu corpo ainda precisa aceitar seu novo rosto e seu cérebro precisa se adaptar a ele.

“Sou muito grato por ter um transplante de rosto porque isso me dá uma segunda chance na vida. Eu tenho conseguido voltar para atividades que amo, como ficar ao ar livre, praticar esportes e passar tempo com meus amigos e familiares”, descreveu ele na coletiva de imprensa organizada pelo hospital em que a cirurgia aconteceu.

Rodriguez elogiou a atitude do jovem, que ajudou em sua rápida recuperação: “no final, tudo depende do paciente. Cameron se esforçou e cumpriu os compromissos necessários”.

“Espero conseguir voltar a trabalhar logo e algum dia começar uma família”, concluiu Cameron.

Confira abaixo o vídeo que mostra o processo de recuperação pós-transplante de Cameron:

O doador

Will Fisher

Esta história também é especial por conta da ligação entre a mãe do doador e Cameron. Sally Fisher diz que só conseguiu sobreviver à dor de perder o filho por saber que ele continuaria a viver através de Cameron.

As leis nos Estados Unidos permitem o contato entre a família do doador e o receptor, e Sally pediu para conhecer Cameron logo após a morte de seu filho, em janeiro de 2018. O reencontro entre as duas famílias só aconteceu depois de terminada a primeira fase de recuperação de Cameron, em novembro de 2018.

Will Fisher era campeão de xadrez e um aspirante a escritor e diretor de cinema. Ele estudava na Universidade Johns Hopkins e faleceu inesperadamente no último dia de 2017. Will havia se cadastrado como doador de órgãos.

“A morte do meu filho foi uma tragédia”, afirmou Sally na coletiva de imprensa. “Ser parte dessa experiência tem sido uma fonte de força para mim durante um momento muito difícil”, continuou ela.

Cameron tentou expressar a gratidão que sente pelo presente que recebeu de Will. “Eu quero que Sally e sua família saibam o quanto minha família e eu apreciamos o presente deles. Eu sempre vou honrar o legado de Will”, afirmou ele.

Veja abaixo a jornada de Cameron desde o seu ferimento em 2016 até a recuperação em novembro de 2018:

Transplantes de rosto

Desde o primeiro transplante de rosto em 2005, mais de 40 deles já foram realizados no mundo todo. Eles já aconteceram na França, Estados Unidos, Espanha, Turquia e China.

A primeira pessoa a receber um transplante de rosto no mundo foi a francesa Isabelle Dinoire, que foi atacada por seu labrador quando estava desacordada ao tomar uma overdose de remédios para dormir em uma tentativa de suicídio. Seu cão ficou desesperado ao vê-la inconsciente e acabou ferindo gravemente o seu rosto.

Claro que em 13 anos de procedimentos muitos avanços técnicos aconteceram, e os médicos conseguem lidar com os casos mais complexos com maior precisão e melhores resultados funcionais e estéticos.
[BBC, USA Today, Health.com]

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