Descoberta: neandertais enterravam seus amados com flores, como nós

Por , em 19.02.2020

Cientistas da Universidade de Cambridge (Reino Unido) descobriram um novo esqueleto neandertal sepultado na caverna Shanidar, no Curdistão iraquiano, um sítio arqueológico muito importante para nossa compreensão desses hominídeos antigos.

O achado pode nos ajudar a entender como eles lidavam com a morte.

De propósito?

Na caverna Shanidar, existe um local com um esqueleto que ficou conhecido como “Flower Burial”, ou “sepultamento com flores”.

Nas décadas de 1950 e 1960, arqueólogos desenterraram cerca de dez fragmentos de esqueletos neandertais na região, sendo que um – um homem entre 30 a 45 anos – foi encontrado com pólen misturado com terra em volta de seus ossos.

Os cientistas interpretaram isso como uma evidência de que ele havia sido enterrado com flores, um rito funerário que até então contradizia nossa compreensão dos neandertais como uma espécie animalesca, sem cultura e sofisticação.

Mas será que um esqueleto supostamente envolto em flores significa mesmo um rito funerário? Alguns pesquisadores questionaram essa interpretação, dizendo que poderia se tratar apenas de um depósito de pólen feito por um animal, por exemplo.

Agora, os arqueólogos encontraram outro esqueleto parcial na caverna que sugere um enterro deliberado.

Reexaminando locais e evidências

O esqueleto não significa necessariamente a descoberta de um novo indivíduo – pode ser os restos de um dos dez neandertais inicialmente achados, do qual apenas pequenos fragmentos haviam sido recuperados anteriormente.

Este é o primeiro esqueleto neandertal articulado escavado nos últimos 20 anos, e o primeiro encontrado em Shanidar em 50 anos. Ele recebeu o nome de Shanidar Z.

De acordo com a arqueóloga Emma Pomeroy, da Universidade de Cambridge, boa parte da pesquisa sobre como os neandertais lidavam com seus mortos envolve retornar a descobertas de 60 ou 100 anos atrás, quando as técnicas arqueológicas eram mais limitadas e os cientistas não podiam examinar todos os detalhes dos achados.

Hoje em dia, os arqueólogos possuem muito mais evidências de que os neandertais não eram tão animalescos assim, e sim muito mais espertos do que pensávamos. Logo, um novo olhar em locais de sepultamento neandertal é bem-vindo.

“Ter evidência primária de tal qualidade deste famoso sítio de neandertais nos permitirá usar tecnologias modernas para explorar tudo, desde o DNA antigo até perguntas antigas sobre os costumes de morte dos neandertais, se eram semelhantes aos nossos”, completou.

A descoberta

Os ossos foram descobertos por acidente. Os arqueólogos esperavam apenas escavar sedimentos da região para datá-los. Esse trabalho começou em 2014, mas só em 2016 os pesquisadores encontraram um osso da costela, e em 2018 um crânio esmagado. A extensão total do esqueleto foi escavada principalmente em 2019.

Análises iniciais indicam que os ossos têm 70.000 anos. Os dentes do esqueleto, por sua vez, sugerem que o neandertal estava na meia-idade quando morreu.

Ao ser enterrado, o esqueleto foi posicionado deitado de costas, com a mão do braço esquerdo apoiada sob a cabeça, como se a pessoa estivesse dormindo, conforme mostra a ilustração abaixo.

Havia uma pedra próxima da cabeça, o que pode ter servido como uma “lápide” extremamente rudimentar para marcar o local.

Sim, de propósito

O Shanidar Z está em uma pose diferente do esqueleto das flores, que foi arranjado em uma posição fetal. Apesar disso, eles estão um ao lado do outro, possivelmente se sobrepondo.

Por conta dessa proximidade e por eles estarem em disposições que parecem planejadas (ao invés de terem simplesmente morrido desta forma), os pesquisadores acreditam que os enterros foram propositais.

Outra evidência que aponta nessa direção é o próprio ponto em que foram enterrados.

“A nova escavação sugere que alguns desses corpos foram colocados em um canal no fundo da caverna criado pela água, que foi intencionalmente escavado para torná-lo mais profundo”, disse o arqueólogo Graeme Barker, também da Universidade de Cambridge.

Próximos passos

Os ossos intrigantes estão agora na Universidade de Cambridge onde serão cuidadosamente escaneados em 3D para exames mais detalhados.

As primeiras imagens revelaram que a parte petrosa do osso temporal ainda está intacta, um osso denso que pode reter DNA. Logo, os cientistas devem tentar extraí-lo para descobrir mais sobre esse neandertal, incluindo sua aparência e se ele se relacionou com outros hominídeos, como humanos.

Por fim, o trabalho no sítio arqueológico iraquiano continua. Os pesquisadores estão agora procurando sinais de carvão, outros indicativos de cozimento e pólen que possam lançar alguma luz sobre o misterioso sepultamento com flores.

“Se os neandertais de fato usavam a caverna Shanidar como um local de memória para o enterro ritual repetido de seus mortos, isso sugere uma complexidade cultural de alta ordem”, concluiu Pomeroy.

Um artigo sobre a pesquisa foi publicado na revista científica Antiquity. [ScienceAlert]

Deixe seu comentário!