Do trigo às cerejeiras – Uma rápida reflexão

Por , em 11.11.2013

 

DO TRIGO ÀS CEREJEIRAS – UMA RÁPIDA REFLEXÃO

Tenho defendido a importância da educação científica no Brasil, principalmente no que tange a busca por soluções determinantes, tais como a erradicação da miséria, das doenças endêmicas, bem como a defesa e conservação do ambiente natural, só para citar aqui alguns poucos exemplos.

Entendo que é através do conhecimento científico e tecnológico que alternativas serão encontradas para se realizar o tão propalado crescimento sustentável, bem como, a extensão dos benefícios do progresso tecnológico para toda a população.

Busco demonstrar que o analfabetismo científico, a exemplo de todo o analfabetismo, é historicamente destrutivo, à medida que põe por terra todo o esforço para a melhoria da qualidade de vida de todos nós.

Entre os casos mais gritantes, podemos enumerar a título de exemplificação, no item “depredação ambiental”:

  • poluição de mananciais;
  • consumismo desenfreado;
  • descarte irregular de lixo;
  •  instalação de esgotos clandestinos,
  • desperdício de alimentos e de água;
  • exaustão de recursos naturais;
  • etc.

Coisa que uma população educada cientificamente não faria.

No entanto, não sou ingênuo a ponto de pensar que só ciência e tecnologia seriam suficientes.

Esse processo passa pela famosa educação de base: uma educação que contemple todos os aspectos do indivíduo, incluindo aí a concepção de uma conduta ética voltada ao bem comum.

Por outro lado, sabemos que a maioria de nossa população luta diariamente pelo simples direito de sobreviver.

É terrível admitir essa dura realidade, mas cerca de quarenta milhões de brasileiros não conseguem ter sequer três refeições por dia.

E se falarmos então sobre o acesso à água tratada, ao saneamento básico, à energia elétrica ou à saúde — ou a já citada educação de base — o quadro é simplesmente desesperador.

Isso em pleno século XXI.

Como discutiremos nossos ideais tão elevados se a realidade das diferenças sociais no Brasil é ainda uma ferida aberta?

Percebo a indiferença de alguns, que até se justificam, pois tem a clara convicção de que os mais pobres estão nessa situação por que simplesmente não querem trabalhar.

Será?

Tenho viajado muito por esse Brasil — e o que mais tenho visto, desde as primeiras horas da manhã, são terminais de trens, metrôs, ônibus, etc. lotados.  Apinhados. Um mar de pessoas embarcando nessas conduções.

Quem serão eles? Seriam esses os mais ricos do Brasil?

E para onde estarão indo, assim tão cedo? Para a praia, para o clube?

Ironia à parte, através dos dados da ONU pode-se constatar que a jornada de trabalho brasileira está entre as maiores do mundo, ao mesmo tempo, que o respectivo salário figura entre os menores. Por quê?

Outro dado alarmante:

O trabalhador brasileiro está entre os menos nutridos do mundo.

Abrindo um parêntesis:

É evidente que existe gente desonesta, preguiçosa e aproveitadora.

Mas isso não é exclusividade dos mais pobres.

Eu quero chamar a atenção a esse processo de reflexão, que cada um deve realizar dentro de si mesmo, quando condena a todos pelo mau exemplo de alguns.

Fechando o parêntesis:

Cada vez que falo em educação científica me recordo que a miséria é ainda a principal causa mortis das crianças do meu país — simplesmente não me conformo.

Como prodigalizar às nossas crianças o pão do espírito — que é a educação — se o pão do corpo lhe é ainda negado?

— Lembrando sempre que o trigo antes de virar pão precisa ser cultivado.

Também é uma saída fácil atribuir a exclusiva culpa e responsabilidade ao governo, afinal eu pago meus impostos para que esses problemas sejam resolvidos.

Todo o mês é descontado 27,5% do meu salário. Isso sem contar IRPF, IPTU, IPVA, etc. etc. etc. (e mais os impostos embutidos em todos os serviços e produtos que consumo).

Qual é a parte que me cabe nesse latifúndio?

Entra governo, sai governo e o quadro desesperador persiste.

E mesmo ficando indignado, mesmo indo às ruas protestar, mesmo votando consciente, mesmo cumprindo com todas as minhas obrigações sociais, isso não tem atenuado o sofrimento da maioria da nossa população.

Como dizia Betinho: – Quem tem fome tem pressa.

Então, qual é a solução?

Um dos caminhos que eu encontrei é o de unir minha força de trabalho ao de outras pessoas que, assim como eu, resolveram fazer alguma coisa e não apenas reclamar.

[Sim! Existem muitas pessoas assim no Brasil. Inclusive em sua cidade, basta procurar].

São voluntários que doam algumas horas de seu mês para trabalhar pelos mais necessitados. Temos médicos, dentistas, professores, engenheiros, operários, donas de casa, e tantos outros cidadãos, todos unidos em torno desse mesmo ideal.

Tenho encontrado uma chance de fazer parte da solução, e, sinceramente acredito que só a sociedade civil organizada em uma democracia tem essa liberdade.

Evidentemente uma coisa não exclui a outra.

Continuo lutando por meus ideais, seja nas urnas, seja participando de protestos nas ruas, seja no exercício pleno de minhas funções sociais como profissional e como cidadão.

Mas entendo que posso fazer mais um pouco, enquanto estiver por aqui.

Algo que tenha transcendência.

Mesmo que seja construir um pequeno regato perante o oceano da eternidade.

Mas como diz um grande amigo que atua no voluntariado há mais de vinte anos.

É como plantar uma cerejeira.

É bem provável que você nunca se sentará à sua sombra ou colherá de seus frutos.

É um simples gesto de generosidade às gerações futuras.

 

-o-

[Leia os outros artigos de Mustafá Ali Kanso]

 

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Navegando entre a literatura fantástica e a ficção especulativa Mustafá Ali Kanso, nesse seu novo livro “A Cor da Tempestade” premia o leitor com contos vigorosos onde o elemento de suspense e os finais surpreendentes concorrem com a linguagem poética repleta de lirismo que, ao mesmo tempo que encanta, comove.

Seus contos “Herdeiros dos Ventos” e “Uma carta para Guinevere” foram, em 2010, tópicos de abordagem literária do tema “Love and its Disorders” no “4th International Congress of Fundamental Psychopathology.”

Foi premiado com o primeiro lugar no Concurso Nacional de Contos da Scarium Megazine (Rio de Janeiro, 2004) pelo conto Propriedade Intelectual e com o sexto lugar pelo conto Singularis Verita.

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7 comentários

  • Regina Motta:

    Excelente reflexão, clara e objetiva! Compartilharei em minha página no facebook

  • Roger Geovane:

    Muito bom, gostei da reflexão. Mustafá Ali Kanso, posso colocar publicar seu texto no facebook?

    • Mustafá Ali Kanso:

      Pode sim. É um honra.

      Grato pela audiência.

  • Vera Lúcia Chiaratti:

    Mustafá, eu achava que você nunca mais ia escrever um texto tão bom como aquele de quando seu pai faleceu; mas acho que esse não ficou devendo nada àquele… E acho que você é um poeta também.

  • Irmgard Meyer Soares:

    Gostei muito do Artigo do Prof.Mustafá “Do Trigo às Cerejeiras” e muitos outros que tenho lido, obrigada por compartilhar conosco!

  • Danniel Covo:

    Sensacional!

  • jane777:

    Como sempre Mustafá impecável em suas reflexões!

    Ressaltando: “Mas como diz um grande amigo que atua no voluntariado há mais de vinte anos.
    É como plantar uma cerejeira.
    É bem provável que você nunca se sentará à sua sombra ou colherá de seus frutos.
    É um simples gesto de generosidade às gerações futuras”.

    Nosso governo quer apenas votos para a próxima eleição.
    Fazer obras para benefícios a longo prazo não está no espírito deles,que só anseiam alimentar sua sede de poder, ganância e ambição!

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