A síndrome do aprendiz de feiticeiro

Por , em 2.06.2014

O POEMA DE GOETHE

Volta e meia me recordo desse poema de Goethe, escrito em 1797.

O poema se inicia com um velho feiticeiro que tendo que se ausentar de sua oficina de magia a deixa sob os cuidados de seu aprendiz.

O aprendiz na ausência de seu mestre se arroga como um grande feiticeiro.

Mesmo sem dominar a arte mágica encanta um esfregão para que este ganhe vida e então cumpra com suas tarefas.

Sem nada para fazer e exaurido por suas atividades, o aprendiz resolve tirar um cochilo.

Durante esse sono ele sonha com toda a sua grandeza. Ele é um grande mago. Um poderoso feiticeiro.

Sonha que é capaz de dominar com sua arte todas as forças da natureza.

Consegue comandar os ventos e os mares bem como traçar um novo rumo para as estrelas.

Acorda com a oficina completamente encharcada.

Afinal o esfregão é um simples autômato e sem nenhuma crítica realiza a mesma tarefa repetidas vezes, sem cessar.

É nesse instante que o aprendiz se dá conta de que não é capaz de parar o esfregão. Tardiamente percebe que seu domínio sobre a feitiçaria é incipiente e arrepende-se amargamente de sua audácia.

Desesperado pelas consequências de suas ações e consciente que seu mestre não tardaria a voltar resolve usar da força bruta.

Sem pensar, usa do machado para transformar o esfregão em um punhado de cavacos.

Para sua surpresa, cada fragmento regera-se num novo esfregão, que logo retoma suas funções. Agora, não apenas um, mas centenas desses autômatos trabalham incansavelmente e acabam por transformar a oficina num verdadeiro caos.

Quando tudo parece estar perdido, o velho feiticeiro retorna e rapidamente quebra o feitiço e então salva a oficina.

O poema termina com a advertência do mestre para seu discípulo:

“Forças tão poderosas só devem ser invocadas pelos mestres que as dominam”.

MICKEY MOUSE

Aliás, Walt Disney, na célebre animação “Fantasia” nos brinda com uma versão divertida dessa história, onde Mickey Mouse protagoniza a parábola como o próprio Aprendiz de Feiticeiro e sob a regência do célebre maestro inglês Leopold Stokowski a Orquestra Sinfônica da Filadélfia dá vida ao poema sinfônico homônimo de Paul Dunkas.

Vale a pena rever e também pensar sobre o tema.

SIMBOLOGIAS E ADVERTÊNCIAS

Mesmo escrito em 1797 o poema de Goethe nunca perdeu sua atualidade. Seja na medida que nos adverte sobre a impaciência e a vaidade do aprendiz — que são em verdade seus maiores inimigos.

Seja pelo impulso da prepotência tão comum ao ser humano que o leva a realizar gestos impensados e com consequências não menos que desastrosas.

Basta que a posse de um pouco de conhecimento lhe confira a sensação ilusória de domínio que o aprendiz se arroga detentor de todo o poder e evidentemente passa a ser vítima de sua arrogância e de sua presunção.

É fácil intuir que tal parábola se aplica tanto a indivíduos quanto a nações.

Particularmente quero me referir à aplicação desse simbolismo em meu campo específico de ação que é a ciência e a tecnologia — mas facilmente poderia ser entendido, em seu tom moral, tanto para a filosofia quanto para as práticas de muitas religiões.

Mas vamos à ciência:

Sempre que o ser humano transcende as fronteiras de alguma pesquisa, notadamente se percebe essa síndrome de “aprendiz de feiticeiro”.

Arrogância e audácia substituem a humildade e prudência.

Teimosia e obstinação substituem a flexibilidade e o bom senso.

Não precisamos ir longe nessa metáfora para intuir as consequências. Basta recordar que as cinzas de Hiroshima e Nagasaki ainda caem sobre nós.

Indo da atomística para a gestão ambiental, observamos o péssimo trabalho que nós aprendizes de feiticeiros estamos fazendo.

De um lado, temos políticos e cientistas tão comprometidos com o modelo de consumo vigente que não se advertem de sua falta de compromisso com o futuro.

Do outro lado temos uma população anônima tão concentrada em seus pequenos dramas diários, que ao se alienar de seu papel histórico simplesmente olha para o outro lado, ora negando a ciência e a cidadania ora embriagando-se de distrações e amenidades, como se a culpa de todos os males fosse o continente e não o conteúdo.

Quando nos acercamos do campo da genética gelamos até os ossos.

Eu particularmente sinto calafrios quando leio alguns artigos científicos defendendo o patenteamento de gens, transgenia humana e eugenia – só para citar três exemplos.

Por isso reforço nesse artigo minha tese de que a ciência é muito importante para ficar na mão apenas de cientistas e políticos.

É preciso que a sociedade tenha consciência disso.

Por que na mão de meros aprendizes é inevitável que o feitiço vire contra o feiticeiro.

-o-

[Leia os outros artigos de Mustafá Ali Kanso]

 

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Seus contos “Herdeiros dos Ventos” e “Uma carta para Guinevere” foram, em 2010, tópicos de abordagem literária do tema “Love and its Disorders” no “4th International Congress of Fundamental Psychopathology.”

Foi premiado com o primeiro lugar no Concurso Nacional de Contos da Scarium Megazine (Rio de Janeiro, 2004) pelo conto Propriedade Intelectual e com o sexto lugar pelo conto Singularis Verita.
 

 

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7 comentários

  • Pedro Barreto:

    Esta na hora de surgirem artistas para passarem a informação cientifica as massas de forma agradável. Eu pretendo seguir esse caminho, e honra-lo. =D

    • JeanCaarlos:

      Cara, eu também acho isso. Estamos numa época em que o conhecimento humano está crescendo exorbitantemente. Eu, sendo estudante do ensino médio, tenho o desprazer de dizer que não ouvi em momento algum algum professor falar sobre a teoria de einstein ou teoria quântica, que seria o “início” da física moderna, e muito menos sobre as descobertas e feitos mais recentes: Voyager I e II,grande colisor de hádrons ou mesmo a “partícula de deus” o bóson de higgs.

    • JeanCaarlos:

      O dia a dia da humanidade tem a sua volta centenas de tecnologias devido a descobertas do último século, o século em que o humano mais evoluiu na questão do conhecimento, contudo, estamos cada vez mais ignorantes, e isso é um problema que, por exemplo, Carl Sagan queria sanar com a série Cosmos, dar para aqueles que não tinham base científica, uma explicação dos principais conceitos do universo de forma fácil de ser entendida.

  • Fernandes FFernandes:

    Desastres já pré destinados a ocorrer pois são próprios da origem do comportamento humano de consumo , bens , e sua segurança acima dos demais fatores que possam ocorrer ; Nosso sistema Global politico de comportamento entre todos países somente estão a criar Desastres a Natureza e por conseq todos os Seus

  • Renata Soz:

    … e os seres humanos continuam em seus folguedos e brinquedos, simplesmente ignorando o lixo que se acumula sem solução, e a água em vias de acabar, mas não é problema deles…

  • Cesar Grossmann:

    Eu gostaria de mandar este poema para todo mundo que reclama que os avanços científicos levam tempo para se tornarem um produto real, por que as pesquisas médicas levam tanto tempo para chegarem às prateleiras, e por que as espécies invasoras não são simplesmente eliminadas ou não se importa o predador delas para eliminar a praga invasora.

    Os casos que me vêem à lembrança são a introdução do assim chamado “capim anoni”, de origem africana, pelo agricultor de mesmo nome, achando que seria a melhor coisa do mundo para a pecuária brasileira.

    Ou a introdução de coelhos na Austrália por gente que queria ter um animal para caçar, e depois a introdução da raposa europeia nas mesmas plagas para tentar combater a praga dos coelhos. As duas intervenções foram desastrosas para a Austrália.

    Houve recentemente outro “aprendiz de feiticeiro” que “semeou” as águas do Pacífico Norte com um composto ferroso, para provocar a multiplicação de algas conforme sugeriam alguns estudos anteriores.

    Tudo feito à revelia de testes e estudos mais profundos. Tudo causando desastre ou, pelo menos, não o objetivo almejado. Tudo à revelia da ciência.

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