As 10 descobertas científicas mais faladas do ano

Por , em 31.12.2018

Todos os anos, a empresa de ciência de dados Altmetric divulga um ranking dos 100 estudos científicos mais populares dos últimos 12 meses. O ranking é baseado em uma análise da atividade on-line em torno da literatura acadêmica – ao invés de prestar atenção apenas no número de citações acadêmicas e outras coisas que os pesquisadores consideram importantes dentro de seus próprios círculos, o ranking faz uma avaliação do ponto de vista do público. Eles mostram em quais estudos as pessoas estavam mais interessadas durante o ano que passou.

A lista possui 100 estudos publicados em 45 periódicos diferentes entre 15 de novembro de 2017 e 15 de novembro de 2018. A revista Science é a que mais aparece: a publicação tem 12 dos estudos mais populares de 2018. O portal Science Alert fez uma lista com os 10 primeiros colocados – muitos deles já comentados aqui no Hypescience. Confira:

10. A distribuição de biomassa na Terra


O décimo artigo científico mais popular do último ano diz respeito ao impacto humano na vida da Terra. Em maio, o mundo recebeu o estudo mais abrangente sobre a biomassa viva do nosso planeta já concluído, publicado na revita PNAS, e ele mostrou que n´[os somos bastante insignificantes no que diz respeito à vida aqui na Terra.

Os seres humanos representam apenas cerca de 0,01% da massa viva no planeta. Por outro lado, nós já matamos 83% dos mamíferos que já viveram. A comparação entre estes números coloca nosso impacto descomunal em uma perspectiva totalmente nova.

Na matéria feita na época a respeito do tema, mostramos como a massa humana se compara com a de outros seres vivos. “Os vírus têm um peso combinado três vezes maior que o dos humanos, assim como os vermes. Peixes são 12 vezes maiores; insetos, aranhas e crustáceos 17 vezes maiores; fungos 200 vezes maiores; bactérias 1.200 vezes; e, por fim, plantas são 7.500 vezes maiores em termos de peso do que seres humanos no planeta”.

9. Aquecimento global transforma o Grande Barreira de Coral para sempre


Publicado em abril na revista Nature, este estudo revelou a verdadeira escala de danos que o aquecimento global causou na Grande Barreira de Coral, na Austrália.

Os resultados, que pegaram os cientistas de surpresa, mostraram que eventos recentes de branqueamento em massa desse ecossistema de corais mudaram dramaticamente partes da estrutura do recife e forneceram o primeiro registro de mortes surpreendentemente rápidas em corais.

“Os corais chifre-de-veado e tabulares de crescimento rápido sofreram uma rápida e catastrófica morte, alterando o caráter tridimensional de muitos recifes individuais. Nas áreas sujeitas às altas temperaturas mais sustentadas, alguns corais morreram sem o branqueamento – a primeira vez que tal morte rápida de corais foi documentada em uma escala tão ampla”, diz matéria do Science Alert sobre o estudo.

8. Efeitos da medicina complementar


Este estudo, descrito na publicação JAMA Oncology, mostra que pessoas que usam medicina complementar, coisas como ervas, acupuntura e similares, são mais propensas a recusar tratamentos convencionais.

Infelizmente, os pesquisadores também descobriram que essa confiança na medicina complementar significava um risco duas vezes maior de morte em comparação com os outros pacientes.

“Pesquisas anteriores sobre porque os pacientes usam tratamentos complementares não médicos mostraram que a maioria dos pacientes com câncer que usam medicamentos complementares acredita que seu uso resultará em melhor sobrevida. Ficamos interessados nesse tópico depois de revisarmos a literatura e descobrimos que havia poucas evidências para apoiar essa crença”, diz o autor do estudo, James Yu, professor de radiologia terapêutica no Centro de Câncer de Yale, em matéria publicada no site da universidade americana.

“Infelizmente, há muita confusão sobre o papel das terapias complementares. Embora elas possam ser usadas para ajudar pacientes com sintomas do tratamento do câncer, parece que elas estão sendo comercializados ou entendidos como tratamentos eficazes contra o câncer,” alerta na mesma matéria Skyler Johnson, também autora do estudo e médica residente em radiação oncológica na Escola de Medicina de Yale.

7. Evidências de que a Grande Ilha de Lixo do Pacífico está rapidamente acumulando plástico


Em março, soubemos que a terrível coleção de detritos de plástico no Oceano Pacífico agora ocupa uma área três vezes maior que a da França e contém cerca de 1,8 trilhão de lixo.

Esta foi a conclusão de uma pesquisa publicada na Scientific Reports. A quantidade de plástico encontrada nesta área está aumentando exponencialmente, segundo os pesquisadores, que usaram dois aviões e 18 embarcações para avaliar a poluição dos oceanos.

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Essa montanha de lixo no meio do oceano já havia sido descrita anteriormente, mas esta pesquisa estimou que a massa de plástico contida ali é de quatro a 16 vezes maior do que se supunha, e continua a se acumular por causa das correntes oceânicas e descaso humano, tanto no mar quanto na costa.

A ilha de lixo, apesar de ser conhecida assim, não é exatamente uma ilha. Em vez disso, é uma grande área com grandes volumes de plásticos, na qual as concentrações aumentam acentuadamente em direção ao seu centro. Enormes redes de pesca descartadas compõem 46% do material encontrado lá.

6. Ingestão de carboidratos na dieta e mortalidade


Esta pesquisa, publicada no The Lancet Public Health em agosto, tentou descobrir a quantidade de carboidratos que deveríamos realmente comer para ter uma vida longa e saudável. A equipe fez isso examinando os dados dietéticos de mais de 400 mil pessoas ao redor do mundo.

Os resultados não foram muito inovadores. A pesquisa diz que há, sim, uma fórmula para a quantidade de carboidratos que devemos comer todos os dias, mas baseada em um conhecimento quase natural: tudo com moderação.

Os pesquisadores descobriram que as pessoas que comiam uma quantidade moderada de carboidratos – cerca de metade de suas calorias diárias – tendiam a viver mais tempo.

Por outro lado, as pessoas que extraíam mais de 70% de sua energia de carboidratos ou, pelo contrário, obtinham menos de 40% de suas calorias diárias dos carboidratos, eram mais propensas a morrer do que as pessoas que comiam algo entre estas porcentagens.

Além disso, outra informação não muito surpreendente também foi confirmada: Sara Seidelmann, cardiologista e pesquisadora nutricional do Hospital Brigham and Women, em Boston, nos EUA, e autora principal do estudo, disse ao portal Business Insider que os resultados sugerem que uma dieta rica em vegetais, legumes, cereais integrais e nozes está associada ao envelhecimento saudável.

5. Exercício físico e saúde mental


Os resultados dessa pesquisa, publicados no The Lancet Psychiatry, revelaram que qualquer quantidade de exercício pode nos deixar mais felizes.

Usando como base pesquisas anteriores que mostravam que exercícios e caminhadas podem melhorar a saúde física e emocional de mulheres que não possuem depressão, Kristiann Heesch, da Escola de Saúde Pública e Serviço Social da Universidade de Tecnologia de Queensland (QUT), nos EUA, decidiu investigar os efeitos dos exercícios sobre mulheres depressivas. A equipe de Heesch queria saber quanto exercício uma pessoa precisaria fazer todos os dias para que isso fosse eficaz contra a doença.

A equipe analisou dados coletados de 1.904 mulheres nascidas entre 1946 e 1951, que foram entrevistadas durante um período de sete anos sobre seus hábitos de exercício e sua saúde física e mental. A partir de 2001, todas as mulheres relataram ter sintomas de depressão leve a moderada e foram pesquisadas até 2010 para ver como sua condição se desenvolveu ao longo do tempo.

Mulheres com média de 150 minutos de exercícios moderados – incluindo golfe, tênis, aulas de aeróbica, natação ou dança – ou 200 minutos de caminhada todas as semanas “tinham mais energia, socializavam mais, sentiam-se melhor emocionalmente e não estavam tão limitadas pela sua depressão quando os pesquisadores voltaram depois de três anos”, de acordo com matéria sobre o estudo publicada no site da agência Reuters. Enquanto os benefícios físicos incluíram se sentir mais em forma e sentir menos dor, os pesquisadores descobriram que o benefício psicológico do exercício para essas mulheres era mais significativo.

“A boa notícia é que, embora o maior número de benefícios requeira 150 minutos por semana de atividade física moderada ou 200 minutos de caminhada, quantidades ainda menores podem melhorar o bem-estar”, disse Heesch à Reuters.

4. Terra estufa


Na lista feita no ano passado, nenhum estudo sobre as mudanças climáticas chegou ao top 10. Portanto, é reconfortante, ao menos um pouco, que as pessoas parecem ter prestado atenção a um dos avisos mais terríveis feitos neste ano.

O cenário sombrio de uma “Terra estufa”, explicado na publicação PNAS em agosto, é bastante alarmante. O estudo aponta que, mesmo que as reduções de emissões de carbono exigidas no Acordo de Paris sejam cumpridas, existe o risco de a Terra entrar no que os cientistas chamam de “condições da Terra Estufa”. Isso porque a ação humana não é a única condição que causa o aquecimento global. Nossas ações neste sentido podem desencadear outros sistemas que aquecem o planeta. A longo prazo, a temperatura nessa Terra Estufa se estabilizaria em uma média global de 4 a 5 ° C acima das temperaturas pré-industriais, com o nível do mar entre 10 e 60 m acima do atual.

“As emissões humanas de gases de efeito estufa não são o único determinante da temperatura na Terra. Nosso estudo sugere que o aquecimento global de 2 ° C induzido pelo homem pode desencadear outros processos do sistema terrestre, freqüentemente chamados de “feedbacks”, que podem gerar mais aquecimento – mesmo que deixemos de emitir gases de efeito estufa “, diz o principal autor Will Steffen, da Universidade Nacional da Austrália e do Centro de Resiliência de Estocolmo, em texto publicado no site da Universidade de Estocolmo, na Suécia.

Alguns destes feedbacks são chamados de elementos de derrubada, pois podem desencadear um efeito dominó avassalador. “Esses elementos de derrubada podem potencialmente agir como uma fileira de dominós. Quando um é empurrado, ele empurra a Terra até outro (destes elementos). Pode ser muito difícil ou impossível impedir que toda a fileira de dominós tombe. Os lugares na Terra se tornarão inabitáveis se a “Terra Estufa” se tornar realidade “, adverte o co-autor Johan Rockström, ex-diretor executivo do Centro de Resiliência de Estocolmo e co-diretor do Instituto de Pesquisa de Impacto Climático de Potsdam.

3. Consumo de álcool


O ano pode estar acabando, mas nos deixa um legado sombrio – e curioso. Esta terceira posição mostra que as pessoas estão, ao mesmo tempo, bebendo demais e lendo a respeito do fato de estarem bebendo demais.

Em agosto, um estudo global publicado na The Lancet revelou que, para pessoas entre 15 e 49 anos, o álcool é a principal causa de morte ou doenças em todo o mundo.

“Com base em sua análise, os autores sugerem que não há nível seguro de álcool, já que qualquer benefício à saúde proveniente do álcool é superado por seus efeitos adversos sobre outros aspectos da saúde, particularmente os cânceres”, diz matéria publicada no portal Scimex.

Segundo o texto, os pesquisadores estimam que, por um ano, em pessoas entre 15 e 95 anos, beber uma bebida alcoólica por dia aumenta o risco de desenvolver um dos 23 problemas de saúde relacionados ao álcool em 0,5%, comparado com não beber. O álcool tem uma associação complexa com a saúde, afetando-a de várias maneiras. O consumo regular tem efeitos adversos nos órgãos e tecidos, a intoxicação aguda pode levar a lesões ou envenenamento, e a dependência do álcool pode levar a intoxicações frequentes, autolesões ou violência.

“Estudos anteriores encontraram um efeito protetor do álcool em algumas condições, mas descobrimos que os riscos de saúde combinados associados ao álcool aumentam com qualquer quantidade de álcool. Em particular, a forte associação entre o consumo de álcool e o risco de câncer, lesões e doenças infecciosas compensou os efeitos protetores da doença cardíaca isquêmica em mulheres em nosso estudo. Embora os riscos para a saúde associados ao álcool começam a ser pequenos com uma dose por dia, eles sobem rapidamente à medida que as pessoas bebem mais”, afirma no texto o principal autor do estudo, Max Griswold, do Institute for Health Metrics and Evaluation, da Universidade de Washington, nos EUA. “Políticas focadas na redução do consumo de álcool aos níveis mais baixos serão importantes para melhorar a saúde. A visão amplamente aceita dos benefícios para a saúde do álcool precisa ser revisada, particularmente à medida que métodos e análises aprimorados continuam a lançar luz sobre a quantidade de álcool que contribui para a morte”.

2. A disseminação de notícias verdadeiras e falsas on-line


No início deste ano, finalmente tivemos evidências de algo que já suspeitávamos: as mídias sociais estão espalhando notícias falsas mais rapidamente do que a verdade e com um alcance mais amplo, de acordo com um estudo publicado na revista Science.

O pior de tudo é que, ao contrário do que pudéssemos imaginar, isso não está acontecendo devido aos robôs, mas sim às pessoas de carne e osso.

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A pesquisa focou nas informações espalhadas pelo Twitter. Uma equipe de pesquisadores do MIT rastreou notícias falsas e verdadeiras usando um banco de dados de todos os tweets escritos de 2006 a 2017.

As notícias falsas foram “mais longe, mais rápido, mais fundo e mais amplamente” do que as verdadeiras, de acordo com Sinan Aral, professor de tecnologia da informação do MIT que estuda redes de mídia social.

O método de catalogação de tweets usado pelos pesquisadores produziu 126.000 sequências verdadeiras ou falsas envolvendo 3 milhões de pessoas. Por quase todas as métricas, as sequências falsas superaram as verdadeiras. Mesmo os rumores verdadeiros de maior alcance raramente se espalhavam para mais de 1.000 pessoas – o 1% das notícias falsas mais comuns tinham audiências de 1.000 a 100.000 pessoas, relataram os autores do estudo.

1. Mortalidade em Porto Rico após o furacão Maria


Em setembro de 2017, um furacão devastou Porto Rico. Os danos eram catastróficos, mas o número de mortos não era preciso, em razão de dados governamentais inadequados. Um dos maiores desastres da história do país acabou ficando ainda pior por causa da controvérsia sobre o número de vítimas.

A equipe responsável por este estudo, publicado no New England Journal of Medicine, usou uma nova abordagem, baseada em pesquisas, para estimar a taxa de mortalidade do furacão Maria. A conclusão? O número de mortos era mais de 70 vezes maior do que a estimativa oficial.

Outro documento, liderado por pesquisadores da Universidade George Washington, também nos EUA, pode ser encontrado aqui. Em agosto de 2018, o número de mortos do furacão Maria em Porto Rico foi estimado em 2.975 pessoas. A contagem original era de apenas 64 vítimas fatais.

“Os resultados do nosso estudo epidemiológico sugerem que, tragicamente, o furacão Maria levou a um grande número de mortes em excesso em toda a ilha. Certos grupos – aqueles em áreas de baixa renda e os idosos – enfrentaram o maior risco. Esperamos que este relatório e suas recomendações ajudem a construir a resiliência da ilha e preparem o caminho para um plano que proteja todos os setores da sociedade em tempos de desastres naturais”, aponta Carlos Santos-Burgoa, pesquisador principal do projeto e professor de saúde global da Universidade George Washington em matéria publicada no portal Public Health. [Science Alert]

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