Humanos não pronunciavam “f” e “v” antes do desenvolvimento da agricultura

Por , em 27.03.2019

A fala humana contém mais de 2.000 sons diferentes, desde os onipresentes “m” e “a” até os raros cliques de algumas línguas do sul da África. Mas por que certos sons são mais comuns que outros, e como surgem?

Uma pesquisa suíça inovadora mostrou que mudanças na mordida humana relacionadas à dieta levaram a novos sons de fala que agora são encontrados em metade dos idiomas do mundo.

Dieta x mandíbula x som

Há mais de 30 anos, o linguista Charles Hockett observou que os sons da fala chamados labiodentais, como “f” e “v”, eram mais comuns nas línguas das sociedades que comiam alimentos mais macios.

Agora, uma equipe de pesquisadores liderada por Damián Blasi, da Universidade de Zurique, na Suíça, analisou como e por que essa tendência surgiu.

Os cientistas descobriram que, antigamente, os incisivos superiores e inferiores de adultos humanos eram alinhados, dificultando a produção de labiodentais – tais sons são formados pelo contato do lábio inferior com os dentes superiores.

Mais tarde, houve uma mudança na mordida humana correlacionada com o desenvolvimento da agricultura no período neolítico. A comida tornou-se mais fácil de mastigar neste momento, o que levou a alterações nas mandíbulas e dentes humanos. Essas modificações, por sua vez, descomplicaram a pronúncia de sons labiodentais.

As análises de um banco de dados de idiomas confirmaram que houve uma mudança global no som das línguas no mundo após o período neolítico, com o uso de “f” e “v” aumentando dramaticamente nos últimos milênios. Curiosamente, esses sons não são encontrados nas línguas de povos caçadores-coletores até hoje.

Diversidade

A nova pesquisa anula a visão predominante de que todos os sons da fala humana estavam presentes quando o Homo sapiens evoluiu, cerca de 300.000 anos atrás.

“O conjunto de sons da fala que usamos não se manteve estável desde o surgimento da nossa espécie, mas a imensa diversidade que encontramos hoje é o produto de uma interação complexa de fatores envolvendo mudança biológica e evolução cultural”, disse Steven Moran, linguista da Universidade de Zurique, em uma coletiva sobre o estudo.

Um artigo sobre a pesquisa foi publicado na revista científica Science. [NewScientist]

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